6 de mai de 2018

A caricatura evangélica

Bolsonaro batizado nas águas do rio Jordão
Caricaturas são desenhos em que se exageram determinadas peculiaridades de alguém. Basta retratar orelhas enormes e redondas em um Obama, ou óculos redondos e um John Lennon e temos uma caricatura. Os detalhes, mesmo se já percebíamos, ficam mais evidentes.

Com o avanço da direita religiosa dos Estados Unidos, a era Trump expõe os exageros do movimento evangélico. Hipocrisia, venalidade e vassalagem tornam, a cada dia, a caricatura mais evidente. Teólogos, sociólogos e filósofos de todas as tendências se perguntam: o quê os crentes conservadores viram em Donald Trump? Como embarcaram com malas e cuias no Titanic de um maluco bilionário, dono de cassino? A pergunta feita lá tem implicações diretas aqui, em terras tupiniquins. Bolsonaro, mesmo mais parecido com um Bateau Mouche que um Titanic, pode produzir um naufrágio épico para o Brasil.

Tomo conhecimento de uma forte mobilização de igrejas evangélicas históricas para comporem a tripulação da nau fascista capitaneada por Bolsonaro – com comitês eleitorais e tudo. Eles querem um crente na presidência a qualquer custo. Insisto: por aqui, a tragédia de um Trump meia boca seria tenebrosa; e o custo de vidas, incalculável, – mais que do Titanic e do Bateau Mouche somados.

Para entender o porquê da mobilização, é preciso entrar em algumas lógicas da teologia dos evangélicos.

O conceito de mundo – Os crentes acreditam que o mundo está em guerra contra o reino de Deus. Existem sim inúmeras passagens bíblicas, principalmente nos textos atribuídos a Paulo, que descrevem uma guerra entre forças divinas e mundanas. Algumas epístolas se valem, inclusive, da linguagem militar. Os crentes partem daí e interpretam a palavra “mundo” como a realidade toda. Mundo para eles é a vida. (Nem entro nas minúcias linguísticas que distinguem mundo como pessoas, mundo como planeta e mundo como sistema injusto). Na teologia do movimento, mundo é a erudição, o saber acadêmico, as artes, o lazer, a ciência, a medicina, o prazer sexual. Tudo que não é “espiritual“. Nesse contexto, tratam como herói quem se coloca como soldado no combate ao “mundo”. A pessoa declara guerra ao mundo e passa a ser amiga de Deus. A teologia evangélica ainda faz “cruzada“. O propósito dessa guerra santa é reconquistar os “valores judaico-cristãos”; tirar das mãos de pessoas mundanas e devolver à igreja. E isso é tão absolutamente importante para a mentalidade evangélica que alguns se dispõe a fazer aliança com o diabo para salvar o mundo do mundo.

A mágica da salvação. Os evangélicos acreditam que todas as pessoas que ainda “não aceitaram Jesus como único e suficiente salvador” já estão condenadas ao inferno. O lago de fogo e de enxofre, em processo de aquecimento, receberá todos os que ainda não declararam: “Eu aceito Jesus”. Basta falar. A salvação fica garantida, automaticamente, a quem confessar com os lábios: “Jesus é o Senhor”. Essa teologia preconiza que o pecado de Adão condenou toda a humanidade. Todas as pessoas, antes de nascerem, são alvos da ira de Deus. O sacrifício de Jesus, todavia, as salvou. Só quem aceitar o sacrifício vai para o céu. Há inclusive a discussão, com versículos e tudo, se essa salvação é eterna. Alguns insistem: “uma vez salvo, para sempre salvo”. Exemplo: Trump pode ser um crápula, malvado, mulherengo, vil, frio. Contudo, se em alguma ocasião, ou em reunião com pastores, (ele nem frequenta igreja) balbuciou com os lábios a frase, está salvo para sempre. Nem que tente conseguiria revogar a salvação que recebeu pelos méritos de Jesus. Sendo assim, o mundo se divide entre salvos e perdidos.  É por isso que Bolsonaro fez questão de mostrar ao mundo evangélico que está salvo, já que se batizou no rio Jordão – o que não é pouca coisa. Mesmo que não mostre nenhum fruto de arrependimento, está salvo. Deus usa esses “vasos de barro”. Trump e Bolsonaro, “vasos” (mesmo trincados), salvarão mais pessoas.

Deus no controle da história. A teologia evangélica, mesmo arminiana, mesmo progressista, mesmo de esquerda, crê que Deus preestabeleceu a história. Ele tem tudo sob seu mais rigoroso controle. Portanto, Javé gerencia o desenrolar do tempo nos mínimos detalhes. Deus conduzirá a história a um fim glorioso. Assim como usou Ciro da Pérsia lá atrás para fazer bem a Israel, Deus usa quem escolhe. Trump, Bolsonaro, Pinochet, Stalin, Hitler, são guiados, mesmo que não saibam, por uma vontade soberana. Deus põe cabresto em quem desejar, e usa quem assim decidir. Ele defende os interesses do seu reino e não tem satisfações a dar a ninguém. Secularização, ameaça de comunistas, gays, anarquistas, roqueiros, baladeiros, serão enfrentadas pelo Senhor e por pessoas que ele instrumentalizar. Ouvi diversas vezes: “Deus usou um jumento, por que não pode levantar um Bolsonaro para cumprir a sua vontade”? O argumento é esdrúxulo. Ora, também as caricaturas. Porém, no exagero da tolice se evidencia o que a gente não queria, ou não conseguia, perceber.

Insisto, mesmo correndo o risco de dar murro em ponta de prego: sem coragem de expor as pedras de sustentação da teologia evangélica, a caricatura fica cada dia mais bizarra. Com uma única vantagem, ver um movimento sem a cera da hipocrisia. O custo será um futuro pavoroso. Ou não é ameaçador ver cristão aplaudindo político de quinta categoria?

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim
No DCM

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