26 de mai de 2018

3 erros nas "análises de esquerda" sobre a greve/locaute


Sobre a greve/locaute e a reação de alguns setores da esquerda, minha modesta opinião, sistematizada a partir de várias conversas:

Apesar de circularem por aí imagens de faixas nos protestos pedindo "intervenção militar já!", eu sinceramente acho que a narrativa dos milhares de caminhoneiros que estão fazendo greve/locaute, dos motoristas de vãs escolares, táxi e uber que estão aderindo ao protesto, bem como da população comum que apoia o movimento é muito mais complexa e ambígua do que isso e certamente está em disputa.

O problema é que muitas das análises "de esquerda" sobre esse movimento de greve/locaute cometem, a meu ver, três erros básicos.

O primeiro deles é que elas padecem da boa e velha "ilusão escolástica", ou seja, supõem que as pessoas que estão se mobilizando pensam o processo político com as mesmas categorias que nós, "analistas", que estudamos por anos as instituições e temos supostamente muita clareza de tudo que está em jogo nesses processos. Não sei porque é tão difícil entender que, para muita gente, "intervenção militar" é só uma palavra de ordem abstrata, de mudança genérica e perfeitamente compatível com outras como "Lula livre" e "Fora Temer." Não projetar sobre os sujeitos "analisados" as categorias do "analista" é um princípio básico que muita gente esquece.

Desse primeiro erro deriva um segundo, que é não perceber que, com essa projeção escolástica, contribuem para uma "profecia que se auto-realiza". Ou seja, como não entendem que a adesão dessas pessoas às palavras de ordem que condenam é fluída e fraca, os "analistas de esquerda" abandonam qualquer possibilidade de disputa política desses movimentos porque, afinal, eles são de “direta mesmo”. Com isso, acabam por jogar esses movimentos, efetiva e definitivamente, no colo da direita, contribuindo para performatividade do próprio discurso.

Por fim, de novo, projetam sobre as pessoas as próprias sensações, que derivam da nossa posição social específica. Como temos muito a perder com movimentos como esse, afinal, muitos de nós temos carro, consumimos cotidianamente muitos bens e serviços, fortemente prejudicados por um locaute desse tipo, acabamos imaginando que toda a população brasileira vai apoiar qualquer ato para restabelecer o antigo estado de coisas e, com isso, não percebem que ao contrário, a maioria da população brasileira está apoiando e vibrando com o caos e rejeita, portanto, a ação dos militares de restabelecimento da ordem. E fazem isso não só porque não tem tanto assim a perder, mas, talvez, pela genuína sensação (que deveria ser evidente para toda a esquerda) de que a vida na normalidade de antes estava, ela sim, insuportável.

E para fortalecer meu argumento, meu amigo Miguel Said Vieira, que não tem Facebook, me mandou um relato do twitter que confirma em parte o que estou dizendo e vai além, mostrando que a pauta "intervenção militar já" é bem menos orgânica do que parece. (N.E.:ver foto acima)

Maria Caramez Carlotto é socióloga e professora da UFABC
No GGN

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