1 de abr de 2018

Vai, malandro

O artigo de José Padilha na Folha veio no dia certo – 1º de abril – o dia da mentira.

Poderia parecer inútil tecer qualquer comentário sobre “O mecanismo agradece”. Foi escrito com malícia. A começar pelo trocadilho sarcástico do título. Que paradoxalmente é a única coisa verdadeira no texto, além do involuntário da data em que é publicado – primeiro de abril – o dia da mentira.

Ocorre que o texto de Padilha é uma ode à hipocrisia e não poderia ficar sem o devido elogio.

O mecanismo pode ser resumido na “frase-maldição” da Folha de São Paulo: “é possível contar um monte de mentiras dizendo apenas a verdade”.

O diabo ri dos seus serviçais – colocou Padilha e Folha juntos em um dia 1º de abril  – o demônio é o pai da ironia.

1º de abril – dia em que, no passado, se comemorava a “Revolução de 31 de Março” – a ditadura que nos salvou da corrupção… e do comunismo. O mecanismo agradece.

Mas vamos ao mecanismo.

Padilha brinda-nos com uma análise sociológica. FHC não faria melhor.

“No Brasil, a corrupção … é o mecanismo estruturante da política e da administração pública, um mecanismo que opera … no Executivo e no Legislativo, e também nas cortes judiciais constituídas por indicações políticas”. 

Não fica ninguém de fora – são todos corruptos. Menos a Lava Jato – ela não pertence às cortes judiciais constituídas por indicações políticas”. Repare-se a sutileza.

Moro e Aécio

Esse é o mecanismo; declarar batendo no peito: “não tenho corrupto de estimação”. Nas palavras de Padilha: ” o mecanismo não tem ideologia; ele opera nos governos de esquerda e de direita”.  Mas só investigar um dos lados – e investigar com requintes de crueldade.

Que a Lava Jato tenha se delimitado à corrupção a partir de 2003 – início dos anos petistas no governo federal – e se recusado a investigar as denúncias sobre a corrupção em governos anteriores não parece estranho a Padilha. Nem poderia, ele usou o mesmo truque. Trouxe os escândalos dos governos FHC para dentro do governo Lula – “liberdade poética”. A Lava Jato foi menos cínica – fingiu que não viu.

Padilha não nos permite ilusões: “ora, é inegável que o mecanismo opera no Brasil, e é inegável que os grupos políticos de Temer e de Lula se beneficiaram dele”.

Está faltando alguém em Nuremberg. Onde estão os governos tucanos? Não estão na Lava Jato e não estão na série do Padilha.

Mas Padilha não seria tolo de não ter uma resposta para isso: “se a nova lei de delações premiadas tivesse sido sancionada com o PSDB no poder, os políticos denunciados teriam sido Aécio, Serra e FHC. Mas, como a lei foi sancionada com PT e PMDB no poder, os políticos denunciados foram Palocci, Lula, Cunha, Cabral e Temer”.

Simples assim. Não incomoda a Padilha que a corrupção dos peessedebistas fique sem investigação até que chegue à prescrição. Esse, aliás, é o mecanismo – e o mecanismo agradece. Não ocorreu a Padilha que os “proprietários” sempre pecisarão de capatazes fiéis e que os tucanos – todos sabemos – são bons gerentes? Padilha não e tão ingênuo. Padilha é tropa de elite.

O mecanismo agradece e ri.

“… foi o fato de uma pessoa sem nenhuma experiência política ter chegado à Presidência – [que permitiu que a Lava Jato acontecesse]. Só pode ter sido por falta de traquejo que Dilma Rousseff sancionou, em 2013, uma emenda à lei de delações premiadas que permitiu que acordos de delação fossem celebrados com doleiros, empreiteiros e administradores públicos”.

Ri da ingenuidade dos governos petistas – de Dilma em particular – só os tolos são honestos.

Esse é o mecanismo do Padilha – e é o que temos para hoje.

Poderia aqui citar outro mecanismo – o mecanismo que permitiu o golpe que tirou do poder um governo eleito democraticamente e colocou no lugar títeres patéticos. Tirou do poder um governo que, por liderar um novo polo de poder político na América, incomodava os interesses dos patrocinadores de Padilha. Um mecanismo que destruiu as engenharias naval e de construção pesada brasileiras – com vantagens óbvia para as americanas – investiu contra nossos mais pujantes setores econômicos – as indústrias alimentícia e petrolífera – com vantagens óbvias para as americanas – e contra nossos setores de tecnologia de ponta – o nuclear inclusive. Internacionalizou nossas riquezas naturais – o patrimônio que deixaríamos para nossos filhos. Esse mecanismo tem nome: chama-se “cooperação internacional”.

O mecanismo agradece a cooperação. Agradece os R$ 10 bilhões “repatriados” do Brasil para aos investidores americanos – ressarcimento dos custos. Padilha deve entender o mecanismo; ele é só mais uma engrenagem desse mecanismo, mas também necessita dar lucro. Os investidores são os mesmos.

Em quatro anos de guerra híbrida – a primavera brasileira – transformaram-nos de um país altivo e próspero em uma nova colônia. Exportadores de minérios e produtos agrícolas não manufaturados novamente – com mão de obra abundante e de baixa remuneração.

Mas contar essa história – uma tragédia épica – a morte de uma nação – está acima do talento de Padilha. Resta-nos o “classe B” de Padilha – uma refilmagem de “De volta para o futuro” – para o “Brasil, país do futuro”.

Por fim, Padilha se apresenta como um indignado desiludido: “confesso que esperava mais dos formadores de opinião da esquerda. Pensei que em algum momento da história fossem acordar do estupor ideológico e ajudar pessoas de bem na luta contra o mecanismo que opera no mundo real …”

Cometeu o erro fatal –  uma hora, todo malandro vacila – deixou escapar de que lado está – do lado das ”pessoas de bem”.  Mas, para usar essa expressão – ”pessoas de bem” – tem que vestir camisa amarela, bater panela e de fazer cara de idiota – a bandeira do Brasil nunca será vermelha.

o mecanismo

Era isso que Padilha esperava de nós?

Padilha é um grande ficcionista. Um grande ficcionista com um grande problema; passou a acreditar na ficção que ele mesmo criou. Nela, ele é o “esperto” e os outros são os “otários”. Nada tão incomum assim. É da essência da malandragem o malandro fingir acreditar em si mesmo, mesmo quando ninguém mais acredita.

Vai para casa, Padilha. Teu mecanismo broxou – você agora só come coxinha.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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