30 de abr de 2018

Superficialidade da imprensa na análise do acordo coreano


A suprema imbecilidade da imprensa internacional em relação ao acordo entre as duas Coréias - com destaque para a imprensa brasileira e, em especial, a imprensa televisiva -, se revela no mantra recorrente de que os líderes coreanos do norte são inconfiáveis. Em outras palavras, o acordo não é muito relevante porque por Kim Jong-un ou seus antecessores já descumpriram promessas de paz outras vezes. Com isso estaríamos assistindo a uma palhaçada internacional sem valor objetivo.

Há um estúpido desconhecimento, nesse jogo, das circunstâncias atuais e das próprias condições coreanas internas. Inicialmente, trata-se de um desconhecimento da parte norte-americana, que faz um jogo tão decisivo quanto o de sua contraparte. Creio que, no Brasil, tenho sido dos poucos comentaristas que vêem um lado positivo em Donald Trump no campo internacional. É um homem de negócios, não um geopolítico. Isso, na campanha eleitoral, o distinguiu radicalmente de Hillary Clinton, senhora da guerra, inclusive do assassinato de Kadafi no contexto da chamada Primavera Árabe, ou da matança árabe.

O assassinato de Kadafi, e a derrubada de outros governantes árabes, inclusive do Egito, na chamada Primavera, alertou os coreanos sobre o que os esperava caso afrouxassem as cordas nas relações com Washington. Como conseqüência aceleraram seu projeto nuclear. A estratégia oficial que prevalecia nos Estados Unidos era de "regime change", ou seja, de mudança de regime dos países adversários conduzida por Barak Obama. A resposta de Trump, contra os geopolíticos belicistas, ainda na campanha, era a de respeitar as escolhas políticas dos países. Isso foi consagrado na nova estratégia dos EUA anunciada há alguns meses.

Creio que o ataque à Síria, sob pretexto de que esta última bombardeou uma cidade de rebeldes com armas químicas, foi um gesto puramente simbólico de Trump. Na verdade, ele pretende apenas fazer o que um oficial havia recomendado para o fim da guerra do Vietnã no início dos anos 70: Declarar vitória e pular fora. Se a situação no Oriente Médio não fosse tão complexa, com tantas interesses envolvidos, países, curdos e terroristas, o presidente norte-americano já teria pulado fora pois sabe que não tem como vencer a guerra.

Para saber o que quer Kim Jong-um, é preciso saber o que quer Trump. No meu entender, ele quer simplesmente fazer negócios, beneficiar o capital americano. Diante do status já consagrado da Rússia e da China no plano do poder internacional, não há muito o que fazer em geopolítica. E sua contra-parte coreana, pensando no legado da família, provavelmente pensa em desenvolvimento e bem estar de sua população. Claro, para chegar ao desenvolvimento é preciso despertar o interesse americano num acordo que vai alem da questão militar, embora com algum conteúdo geopolítico residual.

Na verdade, a Coréia do Norte é a grande oportunidade de mobilização de mão de obra disciplinada e abundante para exploração do capital no mundo atual. Um empresário como Trump sabe que não se pode deixar a Coréia em mãos exclusivas da China. O país dito miserável tem um tremendo desenvolvimento em informática capaz de invadir sistemas virtuais no mundo todo. Em pequena escala, a Coréia pode ser a China das próximas décadas, oferecendo ao apetite do grande capital internacional, sobretudo norte-americano, uma alta temporária na taxa média de lucro que atenderia seus interesses econômicos.

Não há acordo entre duas partes se elas não tem interesses próprios a serem atendidos. É uma grande tolice achar que a Coréia do Norte vai abrir mão de seus arsenais atômicos de graça. Também é tolice imaginar que Trump fará um acordo que não passe pelo total desarmamento de mísseis de longo alcance da Coréia. Um acordo paralelo poderá ser feito com o Japão nas mesmas bases. Mas a Coréia tem que ser compensada no campo econômico por suas concessões geopolíticas. Enfim, vejo com perspectivas bastante favoráveis o desenvolvimento dessas negociações, ao contrário da grande mídia superficial.

Jose Carlos de Assis, Economista, doutor em Engenharia de Produção pela Coppe-UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB

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