8 de abr de 2018

Reflexões em torno de Lula preso e Alckmin presidente

Em condições normais de temperatura e pressão – a partir da prisão de Lula – Alckmin seria eleito em 2018 e o golpe se tornaria uma espúria presidência democrática. Mas…

Entre os que detém informação, não deve existir qualquer pessoa que realmente acredite que Lula é corrupto. O Lula corrupto é o espantalho com que o poder econômico remunera o apoio do reacionário de classe-média e com o qual esse justifica suas frustrações e preconceitos.

Porém, entre os detentores de informação, não seria esperado que houvesse quem espere ainda que provas sejam apresentadas contra Lula – os próprios jornais pararam de especular sobre o assunto. As delações premiadas nada trouxeram e, por óbvio, se provas houvessem, o Departamento de Justiça dos EEUU – que é quem realmente fez as investigações da Lava Jato – já as teria encontrado.

Assim, não resta dúvida que, mais do que uma hipotética depravação de caráter do juiz Moro, a prisão de Lula atende a interesses eleitoreiros. E aqui há algumas questões a serem analisadas.

O golpe passa pelas eleições de 2018

Até este instante, as eleições de 2018 estão mantidas e são necessárias. Aparentemente a comunidade internacional – entenda-se os interesses dos EEUU – não mais convive bem com ditaduras. Pelo menos no ocidente. Assim, é necessário colocar no governo um colaboracionista eleito. Alguém do PSDB. Não por acaso, o partido da oligarquia dependente brasileira.

Sintomático foi o passa moleque dado no general Villas Bôas. No dia anterior, e no próprio dia do julgamento do habeas corpus de Lula, ampla repercussão de suas declarações “contra a impunidade”. No dia seguinte, o aviso de que os militares devem ficar de fora do golpe – desta vez.

ingratidão

O general aprendeu que o dia do favor é a véspera da ingratidão.

A aventura Luciano Huck

Pesquisas após pesquisas mostraram Lula imbatível nas próximas eleições contra os candidatos “tradicionais”. A campanha de assassinato de reputação não afetou Lula. Huck seria o novo capaz de enfrentar Lula. Mas viram nele riscos que não quiseram correr. Por motivo ainda a ser estudado, a aventura Luciano Huck foi abortada.

Huck presidente 2

As fichas foram colocadas então em Alckmin – alguém ruim de voto. Mas o único que sobrou no PSDB. Ligeiramente afetado – mas pouco afetado – pelos efeitos colaterais da Lava Jato.

Para tanto, Lula não poderia participar das eleições. Não foi à toa que o presidente do TRF – Tribunal Regional Federal – da 4ª Região tranquilizou a todos que o caso seria resolvido de modo a não atrapalhar as eleições. E foi. Tempos recordes foram cumpridos pelos desembargadores. Lula condenado em segunda instância – Ficha Suja – fora das eleições.

Lula e o poste de Lula

A prisão de Lula talvez não fosse necessária inicialmente. Porém, tornou-se imprescindível devido ao potencial de Lula em transferir votos a um candidato apoiado por ele. Podendo participar das eleições, Lula colocaria seu candidato no segundo turno. Eis o porquê da prisão.

transferência de voto

transferência de voto1

transferência de voto2

Alckmin é muito fraco. Com Lula na campanha, as eleições seriam decididas entre Bolsonaro e o Poste de Lula. Somente ter evitar isso justificaria os custos políticos da prisão de Lula – criar um mártir para a esquerda.

Tucanos imunes e a ordem unida da direita

Obter o maior tempo de exposição de Alckmin no horário eleitoral. Fazer com que ele praticamente esteja sozinho nas telas da televisão. Para tanto, o PSDB foi cacifado para buscar formar coligações com o maior número de partidos possível – mas fundamentalmente com o PMDB. Em respeito à história e a Ulisses Guimarães – o Sr. Constituição – não uso a sigla MDB.

O cacife do PSDB é sua imunidade à Justiça. A ponto de virar piadas – político do PSDB não é investigado. Prender tucano é crime ambiental. E que não se venha citar Aécio Neves. Esse é justamente o que escapou da investigação. Só foi perturbado – ele e José Serra – o suficiente para não atrapalhar a candidatura Alckmin. Uma medida de prudência em um ninho de escorpiões autodestrutivos como o PSDB.

Não se estranhe as ameaças de candidatura de Temer e Rodrigo Maia, entre outros. É apenas para aumentar em alguma coisa o preço da adesão. Mas ela se dará. E a moeda de troca do apoio será não serem incomodados pela Justiça.

Com Lula preso, nas páginas dos jornais não se encontrará mais a palavra corrupção. Assim como a palavra crise sumiu depois do impeachment de Dilma Rousseff.

A Lava Jato acaba logo depois das eleições – sem um tucano investigado. A prisão de Paulo Preto cumpre duas funções: é o boi de piranha do PSDB para simular isenção da Lava Jato – na boiada do PSDB, o boi de piranha é o boi preto – e mantém José Serra comportado. Depois das eleições, assim como Andrea Neves, receberá um habeas corpus do Supremo.

Marina Silva, aparentemente, está fora dos planos.

Ela e Bolsonaro em partidos minúsculos não terão visibilidade.

A esquerda só se une na cadeia

Ciro Gomes fará sua parte e, para demonstrar que não é um “puxadinho do PT”, dividirá a esquerda. Boulos e Manuela D’Ávila são a eterna esquerda sonhadora, revolucionária e inviável. Podem até receber elogios.

Lula na solitária

PM Curitiba

São três as apostas dos golpistas em relação à prisão de Lula.

Lula será posto incomunicável – solitária. Sem poder comandar o PT, de dentro da prisão, o partido rachará sob o peso de suas contradições internas. A truculência da PM curitibana dispersando uma vigília cívica a favor de Lula com balas de borracha – 9 feridos – não deixa muitas dúvidas quanto à adoção dessa estratégia.

O PT seguirá com a candidatura de Lula até o fim. Como estratégia para proteger seu líder preso, dando-lhe visibilidade. Uma chantagem da Lava Jato cujo custo será Lula não transferir votos para ninguém.

O povo pobre – sabidamente ignorante e mal informado – pelo menos na ótica dos golpistas – não identificará qualquer candidato do PT como candidato de Lula. Lula preso não poderá apadrinha-lo na campanha.

Alckmin presidente e a água no chope tucano

Em condições normais de temperatura e pressão, essa seria a história antecipada da eleição de Alckmin e de como o golpe se tornaria uma presidência democraticamente eleita, ainda que espúria. Mas…

O grande acordo com o Supremo com tudo não está tão fácil assim. Ocorreu uma inesperada inversão de papeis. Os ministros “progressistas” passaram a apoiar o golpe. E os “conservadores” e “decanos” formaram uma frente democrática. Como “conservadores” e “decanos” não rasgam notas de cem, esse posicionamento talvez demonstre que o bloco golpista não seja tão hegemônico assim. Brutal e grosseiro, sem dúvida, o é. E isso pode ter acendido o sinal amarelo em um determinado grupo que pode ter se percebido como a “próxima vítima”.

Ninguém assiste mais televisão – se a campanha eleitoral no Brasil ocorrer como parece que irá ocorrer, ela se dará principalmente nas redes sociais. E nelas, Bolsonaro tem tropas fiéis o suficiente para equilibrar seu pouco tempo de televisão.  Flavio Rocha – da Riachuelo – tem dinheiro até onde os acionistas lhe permitirem. Por enquanto, é apenas um milionário deslumbrado que comprou um partido para chamar de seu. Tem o MBL – Fake News – a seu lado, embora acredito que seus componentes estarão mais preocupados em se eleger do que eleger seu “candidato”. Mas precisam do dinheiro dele. E devem bater em pelo menos um outro concorrente do seu próprio campo. Alckmin – picolé de chuchu – não empolga nas redes e é o alvo ideal.

E se o poste de Lula se iluminar?

A estratégia do PT já deve ter sido traçada por Lula. Veremos, nas próximas semanas, qual será. As mensagens são conflitantes.

lula povo

A do PT é Lula até o fim.

A de Lula é: “Eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia misturada com as ideias de vocês. Minhas ideias já estão no ar e ninguém poderá encerrar. Agora vocês são milhões de Lulas”.

Lula é um animal político e os episódios de sua prisão mostraram como sabe transformar limão em limonadas de apoio popular e sobrevivência.

Fica então a incógnita: Lula abriu mão de si próprio em nome do partido? Haverá não mais apenas um poste de Lula, mas um candidato a herdeiro presuntivo?

Se houver esse poste de Lula, ele terá de ser apresentado nas próximas semanas.

E as próximas pesquisas dirão se se iluminou ou não. Talvez tais pesquisas não sejam tornadas públicas. Mas serão feitas dos dois lados.

Um poste de Lula iluminado muda totalmente o jogo. E ele – o jogo –  ficará muito mais perigoso. As próprias eleições entrarão em risco. Mas é a única saída do campo democrático.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Corcertos Gerais e Poesia

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