15 de abr de 2018

Raquel Solano Trindade, uma mulher com a nossa cara, com a nossa luta


Ela se foi na madrugada deste domingo (15), mas só em corpo físico. As ideias e o exemplo de luta ficam e nunca mais serão esquecidos.

Raquel tinha 81 anos era recifense, escritora, artista plástica, coreógrafa e folclorista brasileira, era a filha mais velha de Solano Trindade, poeta negro. Maria Margarida Trindade, sua mãe, uma terapeuta que trabalhou por 25 anos com a psiquiatra Nize da Silveira no Rio de Janeiro.

Nos anos 60, Raquel foi morar em Embu das Artes, onde em 1975 fundou o Teatro Popular Solano Trindade (TPST). Também em Embu, fundou a Nação Kambinda de Maracatu.

Ela foi uma resistente. No mundo acadêmico, enfrentou resistência de muitos professores, já que ela não tinha formação superior, mas lá criou o grupo Urucungos, Puítas e Quinjengues, nome tirado de instrumentos musicais bantos.

Em 2012, foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural, no grau de Comendadora.

Com uma história de peso como essa, em outubro de 2017, os Jornalistas Livres tiveram a oportunidade valorosa de realizar três dias de aprendizado na Agência Solano Trindade, zona sul de São Paulo. Um dos mais importantes pólos de disseminação da cultura de periferia criado pela família de Raquel. Tornamos aqueles dias, horas de aprendizado para uma vida toda. Agradecemos e levamos tudo o que vimos lá para nossos dias. Tudo o que aconteceu naqueles dias pode ser simplesmente descrito como um dos momentos mais especiais para a história da rede Jornalistas Livres.

Naqueles dias que passamos em contato com os exemplos de como se faz para tornar vida um momento de magnitude, de paixão e resistência, aprendemos quem foi Raquel. Uma mulher com nossa cara, uma mulher negra com a nossa luta.

Lamentamos muito essa perda. Mas entendemos que as ideias dos resistentes não morrem jamais. Raquel nunca morrerá para nós. Raquel vive!

Vejam o curta SOLILÓQUIO de Madara Luiza, interpretado pelo Jornalista Livre, Igor Veloso com o texto do pai de Raquel, Solano Trindade, “Tem gente com fome”.

Katia Passos
Do Jornalistas Livres



TEM GENTE COM FOME

Solano Trindade

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiiii

Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dzier
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu

GRAVATA COLORIDA

Solano Trindade

Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos

quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita

e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada...

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