23 de abr de 2018

Quem garante a qualidade do combustível nos postos sem bandeira?

Os postos sem bandeira já são a maioria no Brasil
Há uma história que nós, repórteres, precisamos esclarecer para os nossos leitores. Afinal, podemos ou não confiar na qualidade dos combustíveis vendidos nos postos sem bandeira?  Como eles conseguem vender o litro do combustível, principalmente da gasolina, bem mais barato do que os postos com bandeira? A tal ponto, que a presença deles acaba regulando o preço dos concorrentes estabelecidos nas redondezas. Esse tipo de estabelecimento vem crescendo nas últimas duas décadas no Brasil. Hoje somam 17.134, o que representa 41,1% do número total de postos de combustíveis espelhados pelo país, os dados são da Agência Nacional de Petróleo (ANP), responsável pela regulamentação do setor. Hoje, com a política de reajuste dos preços dos combustíveis em tempo real das variações do mercado internacional praticada pela Petrobras, o preço do litro na bomba do posto é uma aflição diária do nosso leitor. E uma chance de tornar o nosso trabalho de informar relevante ao assinante.

Essa história começa em 1995. Na época, o governo federal desregulamentou o mercado do varejo do combustível, permitindo que os postos comprassem o produto de quem vendesse mais barato. A data coincidiu com a descoberta e a prisão de várias organizações criminosas envolvidas com adulteração de combustíveis. Mais ainda: na época, fazia parte do nosso modo de vida ver a marca de uma rede conhecida de distribuição de combustível no posto de abastecimento. A soma desses dois fatores lançou de imediato o selo de desconfiança nos sem bandeira. Eu vivi essa história. Comecei a trabalhar em redação de jornal em 1979 e, até os dias de hoje, sempre faço uma grande viagem de carro por ano em busca de histórias para contar. O perfil dessas viagens é simples: uma imensa distância para percorrer, muita gente para ser entrevistada e pouco tempo. Portanto, não posso correr o risco de ficar parado, em algum lugar na vastidão do interior do Brasil, com o carro estragado.  E, depois, ver a história publicada pelo concorrente. Esse sempre foi o meu pesadelo. Lembro que, em 1995, eu e a equipe (fotógrafo e motorista) viajamos direto durante 60 dias, percorrendo 30 mil quilômetros no interior do país, escrevendo a história dos gaúchos que haviam colonizado as  novas fronteiras agrícolas (O Brasil de Bombachas –  uma série de reportagens que se transformou em um livro). Na época, começavam a surgir, aqui e ali, os postos sem bandeira.  Claro, nós evitamos abastecer em sem bandeira.

Passaram-se 16 anos, em 2011 fiz outra longa viagem: foram 30 dias de estrada, percorrendo o mesmo trajeto de 1995, para contar a história dos filhos dos gaúchos que haviam povoado as fronteiras agrícolas (O Brasil de Bombachas – As Novas Fronteiras da Saga Gaúcha, que rendeu um livro, um blog diário, um programa de televisão, um de rádio e uma série de reportagens).  Como sempre, muita gente para entrevistas, grandes distâncias e pouco tempo para cumprir a pauta. Portanto, não podia me dar ao luxo de ter problemas com o carro. A grande diferença entre 1995 e 2011. Em 1995, o número dos postos sem bandeira era insignificante. Em 2011, eles eram a maioria. Daí tracei a seguinte estratégia: sempre que encontrava um posto com bandeira completava ao tanque o carro. Mas não escapei de precisar abastecer nos sem bandeira. Nas ocasiões em que isso aconteceu, procurei o proprietário, expliquei a minha situação e perguntei se ele garantia a qualidade do combustível. Não tive problemas.

No ano passado, um fato me chamou a atenção. Estava tomando chimarrão com uns amigos, na beira da BR-386, e veio a conversa dos postos sem bandeira. Um deles disse o seguinte: “Nós nunca desconfiamos da qualidade da gasolina dele porque ele é morador da cidade e conhecido de todos”. Daí comecei a notar que os sem bandeira que haviam prosperado eram exatamente aqueles que pertenciam a comerciantes conhecidos na comunidade. O que não deixa de ser uma espécie de garantia. Mas e a garantia oficial?  Em nível nacional, é da ANP, da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal. Nos estados da União, a ANP conta com a parceria do Ministério Público Estadual e a da Polícia Civil. São muitos olhos vigiando o varejo de combustível. Mas ainda é a desconfiança do consumidor a melhor arma para manter o comércio na linha. Lembramos que os comerciantes safados existem dos dois lados: nos postos com e sem bandeira.

Em linhas gerais, é essa a situação. E cabe a nós, repórteres, separar o joio do trigo para municiar o nosso leitor de informações corretas de quem é quem no comércio varejista de combustível.

Carlos Wagner

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