5 de abr de 2018

Paramnesia


Em uma única vida, cinco vezes a mesma experiência emocional.

Em 1954, quando o Presidente Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na História, eu estava no último ano do segundo grau. Getúlio era o líder e oráculo que eu conhecia e aprendera a respeitar: escandalizaram-me os insultos dirigidos a ele, na rádio de Roberto Marinho, até a madrugada do dia do suicídio. Caberia à História provar que era homem honesto, que jamais se beneficiara ou patrocinara atos ilícitos.

Em 1964, eu era redator-chefe de Última Hora e vi a conspiração crescer, tocada pelos mesmos interesses, vociferada pelos mesmos picaretas e seus empregados: Chateaubriand, já doente mas ainda atuante, e Marinho, estrela que ascendia. Mais insultos, profecias de caos, provocações, ira divina, boatos, congresso medíocre com eleição contratada pelo Ibade. O presidente, honesto e comedido, poderia ter comandado e vencido uma guerra civil, mas recusou-se a isso. Alegria na Tijuca e no Leblon, luto no Rio de Janeiro de verdade.

Em 1989, o corte abrupto do processo que naturalmente faria o poder retomar ao povo veio da argúcia de Marinho, já consolidado imperador da mídia: senhor da calúnia e da fraude, ele inventou Collor, inesperado príncipe que salvaria a pátria – na verdade, jovem provinciano, dandy e imaturo, cercado de negocistas e calouros de Economia.

Veio 2016, e me pegou já bem velho. A presidente, em confiança e boa-fé, lembrou-me Jango, com um tanto mais de ousadia e autoconfiança. Os conspiradores, todavia, eram exatamente os mesmos de 1964: os filhos opacos do Marinho e a mídia paulista (coitada, tão caipira),; o congresso igualmente comprado a prestações, em 2010 e 2014; a fé ungida em novo credo. Ampliara-se a penetração no Judiciário, a imprensa domesticara-se mais, a maré do fascismo já nem se disfarçava. Mas a novidade foi o fracionamento: a demonização dos homens em nome do direito das mulheres; negros nem tão negros contra brancos nem tão brancos, homossexuais confessos contra heterossexuais ostensivos mas nem sempre sinceros, ambientalistas contra o progresso idealizando um passado que não houve, místicos confundindo capitalismo e ciência, feiticeiros chiques, ignorantes letrados.

2018: um tribunal de TV chancela o suplício de nosso líder nacional, gênio nordestino de fala clara e palavra simples, condenado por arianos de inspiração nazifascistas assessorados por potência estrangeira. Dizem dele as coisas mais indignas; a história registrará que mentem: não conseguem, apesar do esforço retórico, provar que dizem a verdade.

O que concluo de tais episódios?

Que são manifestações de um tumor que cresce há 70 anos e ameça engolir o país todo. Ele vem resistindo aos melhores remédios da farmacopeia democrática e provavelmente exigirá radical e sangrenta cirurgia, que ocorrerá um dia, se o organismo resistir.

Nilson Lage

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.