16 de abr de 2018

O PT na encruzilhada e a Jeremiada de Lula


O encarceramento de Lula e a perspectiva de permanecer preso por tempo prolongado colocam o PT numa terrível encruzilhada de três estradas: seguir adiante com Lula como candidato até o fim; buscar um auto-resgate com um novo candidato; participar de uma frente de centro-esquerda apoiando um candidato de outro partido. Os três caminhos envolvem altos riscos e margens escassas de êxito.

Se o PT não marchar com Lula até o fim, não só abandonará o seu maior líder, mas será visto como traidor. O Lula encarcerado se constitui num paradoxo destinado a cobrar um alto preço ao PT ou às elites: se o PT não o mantiver como candidato, será ele a pagar este preço e será abandonado por muitos eleitores, simpatizantes e militantes. Se Lula permanecer candidato, serão as elites que terão que pagar o alto preço de impedi-lo ou, eventualmente, impedir sua posse em caso de vitória. Mas, se o PT o mantiver como candidato terá que ter a sabedoria e a competência de reinventar-se num processo de mobilização e de defesa da liberdade de Lula. O problema é saber se as atuais lideranças do PT têm as virtudes e as capacidades necessárias para reinventar o partido, mobilizando o povo.

Assim, o abandono de Lula por um plano B, na crença de que Lula transferirá votos, tende a produzir não só uma grave derrota eleitoral, mas uma descrença no PT. Já a aliança e o apoio a um candidato de centro-esquerda era algo desejável em circunstâncias determinadas, que deveria ter sido construído há mais tempo, num processo conjunto de integração de militância e formulação programática. Fazer isto agora, num processo de derrota, poderá aprofundar a debacle do PT. Mas fica a lição para ser desenvolvida no futuro. Hegemonia, afinal, implica concessões e alternância planejada de posições.

É preciso perceber que desde o início de 2015, quando se iniciou o processo de impeachment, cuja consumação completa dois anos nesta semana, o PT vem sendo derrotado em todas as suas consignas e lutas, numa conjugação de erros, apatia e defensivismo. A prisão de Lula, sacramentada com o objetivo último de impedir sua participação nas eleições, pode significar a derrota final do PT nessa conjuntura marcada pelo golpe do impeachment sem crime de responsabilidade e pela implantação do Estado de exceção judicial, que transformou o Judiciário em órgão de disputa político-ideológica, provocando a anarquia constitucional e institucional.

O "não vai ter golpe", o "não passarão", o "nenhum direito a menos", o "mexeu com Lula, mexeu comigo", tudo isso se transformou em ruína e fardos jogados sobre os sacrificados ombros de Lula que, escravizado na prisão, se parece como um Hércules a sustentar colunas, mas condenado a realizar os doze trabalhos ou muitos outros trabalhos para redimir os erros do PT e de todas as esquerdas.  Lula foi preso e a "convulsão social" propalada por dirigentes do PT não ocorreu.

Ainda em meados de 2015, (e até antes disso), Lula, com a clarividência dos líderes prudentes, anteviu a desdita que havia se apossado do PT e que se encaminhava para um colapso futuro se os rumos não fossem retificados. Numa verdadeira jeremiada para seu partido, ao lado de Felipe Gonzalez, advertia: "O PT precisa de novos líderes e de uma revolução interna"; "Queremos salvar a nossa pele, cargos, ou um projeto?"; "o PT precisa construir uma nova utopia"; "o PT precisa, urgentemente, voltar a falar com a juventude"; "fico pensando se não está na hora de fazer uma revolução neste partido e ter lideranças mais jovens, ousadas, com mais coragem"; "é preciso aprender a lidar com as novas tecnologias para brigar melhor na internet, nas redes sociais, porque não há espaço na mídia tradicional para os grupos de esquerda". E se o PT não fosse capaz de se reinventar, "que dos movimentos de hoje surja um partido melhor do que o PT. Mas que surja", advertiu Lula.

Qual o profeta Jeremias, Lula não foi ouvido pelos petistas eles não se converteram de seus erros. A consequência foi trágica: a Jerusalém do PT ruiu e Lula foi levado para o cativeiro. Simbolicamente, todo o povo lulista está cativo na babilônia de Curitiba. Durante o processo do desfecho dessa crise, os sacerdotes do PT continuaram a queimar incenso a "deuses estranhos". Acreditaram em advogados, nos desembargadores do TRF4, nos ministros do STF. Quando estes deram o salvo conduto por meio de uma liminar de pouco mais de uma semana a Lula, lideranças petistas, junto com outros analistas de esquerda, chegaram a dizer que o STF havia barrado as arbitrariedades da Lava Jato. Regozijaram-se dizendo, "estamos no caminho certo"; encheram-se de "felicidade comedida" e de falsas esperanças, nessa queima de incenso a deuses estranhos.

O fato é que quando um partido passa a acreditar em advogados e em juízes como salvadores e condutores de seus passos políticos é porque perdeu a noção do que é a luta pelo poder e perdeu a noção da lógica da ação política. Há uma inversão em tudo isso. São os advogados e juízes que precisam acreditar no partido ou no líder. Pois cabe a estes o papel de condutores. São eles que devem ser depositários da fé. Quando o partido, pelos seus erros, não é mais capaz de fazer-se acreditado, ver-se-á perseguido por seus inimigos e, seus líderes, ou terminarão aprisionados ou dizimados e mortos.

Em que pese estar preso, o poder simbólico e mítico de Lula sobrevive e poderá ser reforçado, tornando-se uma energia mobilizadora no presente e no futuro. Quanto mais evidente ficar o caráter persecutório do Judiciário, quanto mais fascista se mostrar a conduta de Sérgio Moro contra Lula, quanto mais injusta e parcial se mostrar Cármen Lúcia e seus asseclas no STF em sua sanha de ver Lula encarcerado, mais Lula agigantará para a história e mais contará com a solidariedade do povo. Quanto mais abnegado for Lula no seu sofrimento e na sua solidão, mais o povo o aquecerá com o seu calor e com o seu carinho.  

O poder de Lula pode dirigir-se para vários atores e movimentos. O PT não é seu herdeiro único e terá que mostrar-se digno dessa herança. O próprio Lula, de alguma forma, em sua resistência corajosa no Sindicado dos Metalúrgicos do ABC, investiu Guilherme Boulos e Manuela D'Ávila como herdeiros de parte desse poder.

O poder de Lula sobrevive porque, se é verdade que ele sempre foi conciliador, é verdade também que ele sempre foi um líder corajoso - virtude política cardeal que falta a muitos outros líderes de nossos dias. A coragem política é uma virtude que é uma condição sine qua non para qualquer outra coisa de significativo, de eficaz e de grandioso na política. A coragem do líder incute confiança no povo e um povo confiante, que tem fé em seu líder, nunca o abandona.

Lula é energia ativa, mantém poder e a fidelidade do povo porque se fez necessário ao povo pobre do Brasil. Os líderes precisam compreender que a fidelidade é uma via de mão dupla: o povo se mantém fiel aos líderes que lhe são fieis. E os líderes serão fiéis ao povo se se fizerem necessários a ele, beneficiando-o e protegendo-o. Esta é uma relação que precisa ser sempre renovada, pois ela não sobrevive apenas das glórias do passado. Muitos líderes se espantam com uma suposta ingratidão do povo. Mas o povo só é ingrato com os líderes que não têm coragem, com os líderes que não lhe incutem confiança, com os líderes que não renovam os mútuos compromissos de fidelidade e com os líderes que não comandam o próprio povo. Os líderes que não comandam o povo não são líderes de fato.

Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

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