20 de abr de 2018

O juiz Mauro

Com um surto de inspiração, comecei a escrever um romance. Uma obra de ficção inspirada livremente em eventos reais, com personagens, situações e outros elementos adaptados para efeito dramático, como dizem por aí. Escrevi a seguinte cena:

"O juiz afrouxou o nó da gravata preta e pendurou o terno preto nas costas da cadeira. Chegava em casa cansado. O trabalho era sempre exaustivo: a Constituição não é um livro muito grosso, mas ainda assim é preciso força para rasgá-la, dia após dia. Passou pela cozinha gourmet em que servira bons vinhos a seu amigo, o popular filósofo Kalvo, e olhou para a mesinha com o telefone, que os brasileiros todos conheciam das fotos que sua esposa divulgava na sua página de Facebook, 'Mauro com ele'. O sinal de novo recado piscava. O juiz suou frio - podiam ser novas instruções vindas de seus superiores nos Estados Unidos. Os recados eram em inglês, e como ele faria sem Joel Santana para ajudá-lo a traduzir? Ele não confiava em outras pessoas. Auxiliar, como ele gostava de dizer, 'tem que ser um que a gente mate'. Intranquilo, precisando de algo que o animasse, ele foi até o armário dos fundos. Atrás de todas as caixas com as provas e evidências ignoradas, do velho processo do Bandestado até hoje, estava seu brinquedo favorito. Era um bonequinho de vodu representando uma mulher de olhos vendados segurando uma espada numa mão e uma balança na outra. Uma alfinetada na presunção de inocência, outra no amplo direito de defesa, uma terceira no respeito ao sigilo telefônico... As paredes do apartamento tremiam com as gargalhadas do juiz Mauro, enquanto ele torturava a justiça."

Só escrevi este parágrafo, mas acho que já me credencio para ganhar o Nobel de Literatura. Uma dobradinha brasileira com Lula no Nobel da Paz, já pensaram?

Luis Felipe Miguel

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