3 de abr de 2018

Mídia partidarizada e a falta de regulação

Foto de Juliano Vieira/Brasil de Fato
“O sistema de mídia no Brasil possui uma natureza hegemônica e partidária. A mídia se torna um partido em si e para si, acima de todos os outros”, é o que explicou a jornalista Tereza Cruvinel, na segunda-feira (26), durante a abertura do curso A Comunicação para enfrentar os retrocessos. Organizado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, a atividade reuniu, em São Paulo, cerca de 100 dirigentes sindicais, comunicadores e midiativistas de 15 estados do país.

A veia golpista da mídia hegemônica no país e a necessidade de democratizar o setor foram alguns dos temas abordados em mesa que, além de Tereza Cruvinel, contou com Paulo Henrique Amorim, autor do blog Conversa Afiada; Renata Mielli, Secretária-Geral do Barão de Itararé e coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC); além do jornalista e professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP), Laurindo Leal Filho. Juntos, os especialistas desenharam um panorama da concentração midiática e da atuação partidária dos meios de comunicação de massa nos últimos anos, apontando os possíveis caminhos para a democratização da informação no país.

Para Cruvinel, uma das fundadoras da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), é possível relembrar em diversos episódios da história do Brasil o comportamento enviesado da imprensa e emprego de seu poder de manipulação diante de decisões importantes. “Se as coisas não se resolvem na via eleitoral, ela [mídia] organiza os golpes. A história brasileira não mente. Temos como exemplo os atentados à democracia, em 1954, contra Getúlio, e em 1964, contra Jango”, aponta.

Regulação não é censura

Os palestrantes apontaram também que pouco se avançou na questão da regulação da mídia no Brasil, mesmo durante os anos de um governo democrático e popular. Por isso, mais que nunca, o debate precisa ser aprofundado. “No capitalismo contemporâneo, tem regulação para todos os setores, mas os grandes grupos de mídia interditam a pauta sob o argumento de que seria uma 'tentativa de censura', quando é justamente a falta de regulação que atenta contra a liberdade de expressão. Organismos que não precisam prestar contas se utilizam da liberdade de expressão para mentir e manipular”, afirma Cruvinel.

O jornalista e professor da Universidade de São Paulo (USP), Laurindo Leal, acrescenta que a mídia corporativa age como partido político e empresa comercial. O único elemento que a diferencia de uma empresa de outro setor é o tipo de mercadoria, já que a mídia oferece informação e entretenimento. “É um tipo de mercadoria que não se esgota em si próprio. O cidadão incorpora a mensagem, que ficará em sua mente e coração por toda a vida. Por conta dessa atuação, a mídia deixa de ser o quarto poder para se tornar um poder em si e somente a legislação pode estabelecer limites ao seu poder desregrado, tão prejudicial para a democracia”, aponta.

Para Leal, há exemplos recentes de como a mídia brasileira deixou de operar como mediadora e passou a ser ordenadora social. “Ela ordena e organiza a sociedade de acordo com seus interesses. Criticam tanto Cuba, por ter um partido único, mas aqui também temos: a mídia”.

Na opinião do professor, há dois caminhos viáveis para enfrentar o monopólio midiático. “Um deles é por meio da legislação, com a construção de uma lei de meios. E o segundo é o fortalecimento da Comunicação Pública, que deve realizar um trabalho midiático para além dos interesses do mercado e do governo de ocasião”.

A lei de meios é uma realidade na Europa e também nos Estados Unidos, que possui regulação desde 1930, por exemplo. “Nesses lugares, o telespectador escolhe o que ele quer assistir, pois há mecanismos para combater a concentração. No Brasil, a concessão pública de radiodifusão outorgada pelo Estado sem nenhuma transparência dura 15 anos. Neste período, praticamente nenhuma contrapartida é cobrada dos meios, que exploram a concessão com muito pouca fiscalização de sua atuação.”, acrescenta o professor Leal. Neste sentido, os debatedores lamentam que pouca coisa foi feita, pelos governos Lula e Dilma, para enfrentar este cenário.

Para os debatedores, um dos resultados do discurso único presente no sistema de comunicação brasileiro foi a propagação do ódio e do antipetismo, que teve início mais intenso no primeiro mandato de Lula, quando a associação do PT com a corrupção passou a se tornar um mantra martelado diuturnamente pelos veículos hegemônicos.

Renata Mielli traz outra questão sobre o monopólio do discurso hegemônico no Brasil. Para ela, um dos fatores que o permitiu é histórico: a falta de um projeto de nação para o país, que sempre foi subserviente aos EUA, e com uma elite sem divisão de interesses.

Porém, o avanço da mídia alternativa na internet, permitindo novos debates na sociedade, causou incômodo na grande mídia, que agora tenta deslegitimar a plataforma tentando colar a etiqueta de meios sem legitimidade para associa-los aos produtores de fake news. “É o poder econômico também atuando nas redes sociais. É preciso entender as disputas nas plataformas. Estamos no senso comum construído pela mídia hegemônica e lutar contra isso implica em sermos mais ousados”, diz Mielli.

As redes sociais como plataforma e força política são destacados também pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, que apresentou uma contextualização das empresas hoje presentes na internet. A publicidade acaba bancando o conteúdo na internet e isso não é diferente nas redes sociais. Para ele, perdemos a batalha contra Globo. Mas o problema atual é outro: as empresas da internet, como Google, Facebook e Apple. "Eles vendem publicidade por meio de cliques. Eles não dizem como montam, a quem vendem e como vendem. A soma de Facebook, Google e YouTube é maior que a publicidade da Globo em 2017", aponta.

Luciana Console e Jéssica Moreira
No Barão de Itararé

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