6 de abr de 2018

Lula perdeu. E agora, PT?

Lula perdeu no julgamento do habeas corpus. Não foi a única notícia negativa para reflexão de petistas e não petistas, mas democratas. Com ações tipicamente fascistas contaminando o embate político, faltava a intervenção militar de um Exército que, desde 1964, desenvolveu-se de costas para a sociedade, que lhe devolvia a mesma indiferença. É meridiano que não há democracia consolidada quando o poder político desarmado relembra as razões de sua recusa a uma reaproximação cooperativa com o poder armado. E vice-versa. Da década de 70, quando a ditadura militar comprometeu o Exército com ações bárbaras, até 2013, passaram-se mais de 30 anos, sem que as instituições civis e militares interrompessem o fatídico destino positivista em que os vivos são governados pelos mortos. Foi em 2013 que surgiram os novos apelos da direita a manifestações militares. A derrota eleitoral em 2014 explodiu o frágil civilismo dos vencidos, entre estes muitos dos militares que reprisam as ameaças de brutalidade contra os que lhes pagam o soldo e o porte de armas. A sibilina declaração do ministro do Exército disfarçou tolerar a absurda provocação de um subordinado insolente com etéreas referências à impunidade de sujeitos ocultos, provavelmente no saguão do Supremo Tribunal Federal. O Exército ameaça entrar em campo. Pior momento não haveria, justo quando em curso uma transformação de DNA na esquerda, com o Partido dos Trabalhadores mal se agarrando às cordas sob a violenta ofensiva da direita organizada.

O PT perdeu a disputa pela hegemonia ideológica da maioria da esquerda. Com a nomenclatura partidária que sobrou, talvez nem tenha advertido que passava a coadjuvante, enquanto seu excepcional líder serve de porta-voz a movimento em que, vitorioso ou derrotado, não terá o Partido dos Trabalhadores como herdeiro dos milhares de votos em comemoração ou amargurados pelo luto. Entre o PT e siglas associadas somente o Partido dos Trabalhadores tem, e muito, a perder. Na passeata de eventual vitória ou no desconsolo da derrota de Lula ou de seu partido, em outubro, as bancadas de deputados dos grupos que conquistaram a hegemonia ideológica crescerão em qualquer caso. Quanto mais drama e tensão introduzirem em processo já de si agônico, mais lucrarão as siglas hegemônicas em retorno eleitoral. À custa dos eleitores do Partido dos Trabalhadores e da consumação física e política de seu líder fundador.

A direita preparou e os hegemônicos produziram a combustão de Lula, que investe sua reserva de carisma nessa batalha, mas sairá, de qualquer modo, mutilado: se perdedor, penal ou eleitoralmente, se verá pouco a pouco abandonado pelos hegemônicos; se vencedor, será contestado desde o primeiro dia da vitória eleitoral pela direita ensandecida. E os hegemônicos não têm suporte popular próprio para enfrentar o conflito, nas ruas ou no parlamento. A vitória estará infiltrada de parasitas; a derrota será solitária.

Com a nova ordem ideológica, virou artigo de fé a tese de uma "frente", sem programa além da batalha jurídica, que surge e ressurge sob vários nomes e sem propostas claras de políticas de governo. Mas a hegemonia ideológica funciona pela intimidação dos hesitantes. Políticos e personalidades que, à esquerda, não concordam com as palavras de ordem, são constrangidos a participar de eventos em que candidatos à mesma posição desejam uns a vitória dos outros. Isso não é unidade programática. Trata-se de um artifício mercadológico, desorientador do eleitorado. Como assim, o Lula, por cujo direito de ser candidato se convocam à rua as pessoas de boa fé, deseja felicidade eleitoral ao Boulos? É para os eleitores petistas votarem em Boulos? O que estão fazendo nas ruas, onde minguam os pouquíssimos simpáticos a Boulos e outros tantos alegados seguidores de Manuela d'Ávila?

O Partido dos Trabalhadores sem hegemonia ideológica não é lamentável pelo desapontamento de seus militantes. É mais grave e interessa à democracia. Durante seu período de liderança o PT constituiu eficiente frente integrada por seus militantes, militantes de outros partidos, e de grupos de pessoas avessas à vida partidária, mas interessadas na vida nacional. Sem adotar o messianismo do partido único da classe universal, expandiu a base social de apoio a seus governos, eleitos para quatro períodos sucessivos, e garantiu o funcionamento sem percalços das instituições. Serviu de mediador de grandes conflitos sem a ambição dos monopólios ideológicos. Ganhou a democracia. Da voracidade hegemônica de outros, corre o PT o risco de terminar convertido em seita jesuítico-militar e reduzido número de patrulheiros intolerantes.

Wanderley Guilherme dos Santos é pesquisador sênior do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp-Uerj)

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