10 de abr de 2018

JN trata sem terra como criminosos, mas ruralistas que cercaram caravana de Lula são “manifestantes”


João Batista Damasceno é professor de Sociologia Jurídica da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Doutorou-se no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF).

O objeto de estudo da sua tese, defendida em 2012, foi a diversidade de tratamento dado pela mídia corporativa a políticos e partidos de diferentes correntes ideológicas.

A tese analisa a formação das empresas de comunicação no Brasil e faz um paralelo do horário gratuito de propaganda eleitoral com a cobertura do Jornal Nacional.

“O que se pretendia era analisar a isenção no tratamento das notícias e eventuais práticas de manipulações comuns nas mídias corporativas”, explica.

Damasceno analisou um caso concreto: a bolinha de papel que atingiu José Serra, candidato pelo PSDB à presidência da República, no Rio de Janeiro, no final da campanha de 2010.

Ela foi lançada por ex-funcionários da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) – os chamados “mata-mosquitos” – demitidos por Serra em 1999 quando era ministro da Saúde do governo FHC.  Só no Rio de Janeiro foram 6 mil.

“O episódio foi tratado como grave atentado ao candidato tucano no Jornal Nacional, que, ao mesmo tempo, promoveu discurso de ódio contra a candidata Dilma Rousseff e seu partido, o PT”, atenta o professor.

“A manipulação durou até que uma imagem gravada em celular pôs por terra o factoide”, relembra.

“Os últimos dias demonstraram que o Jornal Nacional segue manipulando as informações e os telespectadores, e que a Globo não tem real comprometimento com o Jornalismo, a liberdade de expressão e a democracia”, denuncia.

Segue a nossa entrevista.

Viomundo — O senhor se refere a que coberturas especificamente?

João Batista Damasceno –A dos tiros com arma de fogo contra caravana do ex-presidente Lula e a do julgamento do habeas corpus impetrado  em favor dele, seguido da prisão.

O Jornal Nacional dedicou ao assunto quase toda a edição de terça-feira (03/04), véspera do julgamento, para pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) a votar contra.

Encerrou o JN associando o tuíte do comandante do Exército, general Villas Boas, ao julgamento de Lula.

Na madrugada de quinta-feira (05/04), o Supremo por 6 a 5 negou o HC a Lula para impedir a execução da pena até que ocorresse o trânsito em julgado.

Na sequência, mais recursos foram negados no STJ e no STF, tendo como justificativa a “opinião pública”.

Na mesma quinta-feira, o Moro determinou a prisão, que aconteceu nesse sábado.

— O que representa para a democracia a cobertura que a grande mídia fez do julgamento do HC e da prisão de Lula? Foi um novo golpe da Globo?

— O ajuste entre julgadores e empresas de comunicação é golpe no Estado de Direito em prejuízo da sociedade e da democracia em construção.

Os juízes gozam das garantias de vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos precisamente para poderem atuar contra majoritariamente em casos nos quais os sentimentos momentâneos de certos estamentos sociais possam expressar tirania sobre a minoria ou sobre um indivíduo.

É por isso que o título dos direitos e garantias fundamentais da Constituição da República elenca os direitos e individuais no artigo 5º.

Direitos individuais são direitos do indivíduo, mesmo contra a vontade da maioria ou de todas as outras pessoas. De julgamentos por sentimentos da maioria já nos bastam os de Sócrates e de Cristo.

É uma pena que muitos magistrados ingressem no Poder Judiciário sem nunca terem lido o livro de John Stuart Mill, Sobre a Liberdade. Isto lhes retira a possibilidade de saberem o papel que ocupam no sistema de separação de poderes.

— Aliás, na semana passada, o ministro Luís Roberto Barroso  disse que os juízes devem interpretar a Constituição de acordo com o sentimento da sociedade.

— Se é para fazer valer o sentimento da sociedade, então não precisamos de  Constituição, leis, ou julgamentos.

Tampouco de juízes com garantias. Bastaria entregar os acusados ao linchamento ou à clemência popular. Quando tal sentimento popular é aguçado pelo noticiário tendencioso é pior ainda.

Neste caso, a opinião pública passa a se confundir com a opinião do editorial ou opinião publicada. Estamos vendo a recorrência destas situações.

Uma delas ocorreu quando o juiz Moro publicizou conversas telefônicas captadas ilegalmente para insuflar o clamor popular. Uma ilegalidade ocorreu na captação e a outra na divulgação. Mas, tudo estava à margem da lei, pois o objetivo da divulgação era manipular o sentimento popular.

A outra ocorrência foi agora quando da determinação da prisão para execução provisória da pena imposta de forma discutível ao ex-presidente Lula.

Analisando a sequência de atos processuais vê-se que entre alguns deles, em alguns casos, transcorre apenas um minuto. A sensação que se tem é que tudo foi feito com celeridade para que se pudesse noticiar no Jornal Nacional.

O judiciário tem modo próprio de funcionamento e precisa preservá-lo. Não podemos transformar os julgamentos em programas de auditório.

— Os meios de comunicação acusam, julgam e executam, sem direito a defesa ou recurso. O que acha disso?

— Na minha avaliação, tais empresas, como atuam no Brasil, são uma excrescência política e institucional e um risco à democracia. Ora promovem os parceiros em suas empreitadas, ora desqualificam aqueles que se opõem aos seus interesses.

Os meios de comunicação teriam o papel de mediar os fatos e o público, informando-os das ocorrências havidas em lugares diversos.

Só que deixaram de fazer isso. A notícia virou mercadoria e as empresas de comunicação, como qualquer outra, objetivam lucro.

Além disso, para defender os seus interesses econômicos, passaram a atuar como partido político, sem se subordinar às regras da política.

Lamentavelmente, agentes públicos que não têm dimensão dos seus papéis, além da pusilanimidade, se subordinam à atuação de grupos interessados no grupo e descomprometidos com os conceitos de República, Estado de Direito e Democracia.

— Foi um novo golpe da Globo? 

Mais um. Na verdade, desde a década de 1960 as Organizações Globo atuam.  Em 1964, não só apoiaram o golpe que nos levou à ditadura empresarial-militar, como foram coautoras.

O fundador do jornal, Irineu Marinho, esteve ao lado dos tenentes em 1922. Seus sucessores mantiveram os contatos e atuaram juntos nos movimentos de 1930, 1945, 1954, 1955, 1961 e finalmente em 01/04/1964.

As Organizações Globo e os militares do movimento tenentista que desfecharam o golpe de 1964 foram sócios nas empreitadas contra a democracia ao longo do século XX.

O primeiro canal de televisão das Organizações Globo foi outorgado por Juscelino Kubitscheck em 1959, que deveria ter sido a TV Nacional ao lado da Rádio Nacional. O segundo, por João Goulart, que pensou em agradar para evitar ser derrubado.

Mas, a emissora somente entrou no ar em março de 1965, com dinheiro do Grupo Time-Life.

Joe Wallach, o executivo estadunidense que representava os interesses da Time-Life no início da atividade da emissora diz em seu livro Meu Capítulo na TV Globo, escrito depois que voltou aos EUA, que o capital da máfia expulsa de Cuba depois da Revolução foi investido em empresas de comunicação na América Latina. Mas, não cita o nome de nenhuma empresa brasileira.

— Isso é Jornalismo?

As empresas de comunicação fazem negócios e não jornalismo. Se fosse o contrário teriam comprometimento real com a liberdade de expressão e a democracia.

Veja bem. Para forçar a negação do habeas corpus a Lula, o Jornal Nacional mostrou o caso de um HC deferido pelo STF que levou à prescrição de um homicida.

Uma conduta absolutamente leviana, pois tentou induzir a opinião pública a pensar que os recursos às instâncias superiores representam a impunidade.

Ora, se este é o problema, basta que os ministros viajem menos, façam menos palestras, cuidem menos de outros interesses e julguem com mais celeridade. Dos juízes profissionais e concursados da 1ª instância se exige isso.

Se poderia também alterar a lei que rege a prescrição, suspendendo o prazo prescricional enquanto perdurar recurso da parte a quem interessa.

Para piorar, na véspera do julgamento do HC no Supremo, a Globo usou a nota do comandante do Exército para incitar à atuação militar.

Se a mídia corporativa tivesse realmente compromisso com a democracia, não deveria ter repercutido a indevida manifestação do comandante do Exército ou a deveria tê-la repudiado.

— Em 2012, na sua tese de doutoramento o senhor analisou a bolinha de papel  que atingiu José Serra no Rio e que o Jornal Nacional tratou como “grave atentado ao candidato”, até o factoide ser desmascarado. No dia 27 de março, a caravana do Lula foi atingida por três tiros de arma de fogo numa estrada do Paraná. Este atentado de verdade teve o tratamento que o de mentira do Serra?

De jeito nenhum. A mídia corporativa tratou os atos de intolerância, violentos, praticados contra a caravana do ex-presidente Lula como fato sem a menor importância. A mídia não deu destaque a este ato de truculência politica.

Recaíram num dos padrões de manipulação da grande imprensa, que é tratar um boi como um bife.

Só que os atos contra a caravana de Lula são tão graves, que têm precedentes apenas nos piores momentos da nossa história.

— A mídia faz isso também com os trabalhadores rurais sem terra.

Exatamente. Quando eles fazem caminhadas com seus instrumentos de trabalho são tratados como grupo violento e armado e o assunto noticiado ao lado de crimes, no bloco televiso destinado a este assunto ou na página do jornal onde crimes são noticiados.

Mas, os senhores rurais e do “mercado de terras” obstruem as vias públicas com seus tratores e caminhonetes financiadas por crédito rural público do Banco do Brasil, atiram objetos na caravana e são tratados como manifestantes.

Uma senadora sulista parabenizou os vândalos e no dia seguinte a caravana foi alvejada por tiros.

— Atirar objeto, como pedras, ovos, em um veículo é crime?

A lei trata apenas de transporte público. Aí, é crime definido no art. 264 do Código Penal.

No caso da caravana do Lula, é ônibus fretado. Por isso não se pode tipificar neste dispositivo legal. Mas, o fato é similar ao descrito no crime.

O que muda é tão somente que o ônibus no qual se joga pedra é fretado e a lei somente pune quando é transporte público.

— Mas e os tiros de arma de fogo contra os ônibus?

— Disparo em via pública é crime. O disparo contra pessoa, se consumado e ela morre, é homicídio. Se o disparo não atinge a pessoa ou se ela não morre, é tentativa de homicídio.

A polícia também minimiza e apura o fato como disparo de arma de fogo em público, quando o que se tem é homicídio na sua modalidade tentada.

O que temos nos disparos de arma de fogo contra o ônibus da caravana é tentativa de homicídio. Não estamos lidando com manifestantes. Mas, com criminosos. E a mídia corporativa minimiza tal ocorrência.

— O problema é que a população acredita no noticiário manipulado pela mídia corporativa. E, aí?

Assistimos ao noticiário televiso como entretenimento, sem o senso crítico aguçado. Por isso não percebemos quando imagens exibidas durante narrativas não condizem com o que diz o apresentador.

Depois do estudo que fiz, vendo e revendo por algumas vezes cada segundo do noticiário, nunca mais consegui ficar diante da televisão durante o Jornal Nacional.

O JN minimiza, amplia e oculta ocorrências, de acordo com os interesses, manipulando, portanto, a opinião da população que o assiste.

A tese de doutorado de João Batista Damasceno, defendida em 2012, tem como “Coronelismo e Coronelismo Eletrônico: representação política e estratégias discursivas na eleição presidencial de 2010”.

Conceição Lemes
No Viomundo

Abaixo, a íntegra do capítulo sobre o falso atentado contra José Serra.

Segundo o perito Ricardo Molina, houve o “evento bolinha de papel” e o “evento rolo de fita”; reprodução You Tube

Uma bolinha de papel: imprensa, manipulação e arbitragem do papel da mídia

Evento que marcou o fim da campanha e norteou os debates, as acusações e ao final se tornou objeto de humor foi um entrevero entre ex-empregados da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), os chamados “mata-mosquitos” e o candidato José Serra e sua comitiva em Campo Grande, no Rio de Janeiro.

No dia 20/10/2010, no JN, Fátima Bernardes noticiou que “uma atividade de campanha do candidato do PSDB José Serra foi interrompida hoje no Rio depois que ele foi agredido num tumulto iniciado por militantes do PT”.

Ainda que as imagens exibidas ilustrando a matéria mostrem que o entrevero de campanha não tinha sido iniciado por militantes do PT, a narrativa da jornalista é enfática e não deixa dúvida sobre sua convicção.

As imagens exibidas não mostravam qualquer partidário do PT ou da candidatura Dilma Rousseff. Tratava-se de ex-funcionários da SUCAM, chamados de mata-mosquitos, demitidos durante o período em que José Serra fora ministro da Saúde.

O fato de um deles ter sido candidato pelo PT serviu de pretexto para que todos fossem tratados como militantes do PT. Mas, a própria imagem exibida demonstra que os militantes do PT chegaram em momento posterior com suas bandeiras.

O repórter José Luiz Azevedo em narrativa sobreposta a imagens da passeata de José Serra comenta:
O candidato do PSDB visitou a Zona Oeste do Rio de Janeiro acompanhado de políticos e correligionários. A confusão começou durante uma caminhada pelo calçadão do bairro de Campo Grande. Um grupo de militantes petistas se aproxima e impede a passagem do candidato tucano. Serra se abriga numa loja. Entre os manifestantes envolvidos no início da confusão estão candidato derrotado a deputado estadual pelo PT no Rio de Janeiro, conhecido como Sandro Mata-mosquito, que aparece de branco nas imagens. Em seguida chega um grupo ainda maior de militantes petistas, com bandeiras e cartazes. Começa uma briga generalizada. Com a situação um pouco mais calma Serra tenta retomar a caminhada, mas continua cercado pelos militantes do PT. O fotógrafo do jornal O Globo registrou o momento em que José Serra leva as mãos à cabeça logo depois de ser atingido por uma bobina de fita crepe. Serra ainda caminhou ainda mais alguns metros antes de deixar o local”.
Apesar de identificar um dos manifestantes como Sandro Mata-mosquito o repórter em momento algum faz alusão de que eles são ex-funcionários da FUNASA, demitidos quando o candidato José Serra era ministro da Saúde. Mas, o fato da pessoa identificada ter sido candidato a deputado pelo PT é citada. Das imagens se depreende de um lado os manifestantes e de outro os partidários de José Serra, com bandeiras da campanha e um clima de euforia de ambos.

A análise das imagens demonstra que a narrativa inicial de que um grupo de militantes petistas se aproxima e impede a passagem do candidato José Serra não corresponde à realidade. Não há qualquer elemento que informe serem as pessoas que protestam militante do PT. Com eles não há qualquer bandeira, faixa ou qualquer meio que indique serem militantes do PT ou eleitores da candidata Dilma Rousseff.

Em seguida o repórter deixa de fazer a narrativa sobreposta e passa a fazê-lo diante de uma clínica em Botafogo no Rio de Janeiro, onde ao fundo de lê: “Rua Sorocaba, 464” e diz:
Depois da agressão sofrida em Campo Grande o candidato José Serra interrompeu a campanha que fazia no Rio e veio direto para fazer exames nesta clínica na Zona Sul da cidade”.

Dando continuidade à matéria o repórter informa que “o médico que atendeu a José Serra disse que não houve lesões, mas recomendou vinte e quatro horas de repouso. O candidato que cancelou os outros compromissos do dia comentou a agressão”. Enquanto se fala do atendimento médico e das recomendações por ele prescritas, a imagem do médico durante a entrevista ao repórter é exibida, mas filmagens de suas declarações não são apresentadas no noticiário.

O repórter diz que “o candidato que cancelou os outros compromissos do dia comentou a agressão”. Declaração do candidato José Serra foi exibida, que assim se expressou:
uma ação violenta. Me pareceu uma coisa pré organizada. Não foi nada espontâneo. Nem de longe! E é uma coisa que puxa pro ódio. Eu não vejo a política como uma relação entre inimigos. Eu vejo política como uma relação entre adversários. Não se justifica. Não há motivo para violência. Ninguém pode odiar ninguém e a  violência não leva a nada”.
Com semblante sério e aparentemente preocupado a apresentadora Fátima Bernardes retoma a narrativa do noticiário e diz que
A repórter da TV Globo, Mariana Gros, que cobria a caminhada foi atingida por uma pedra durante o tumulto. Ela sofreu um corte na cabeça e foi atendida no local. Em nota oficial o PT do Rio de Janeiro declarou que o incidente começou depois que seguranças de José Serra trataram com rispidez integrantes do grupo conhecido como mata-mosquitos. A nota também diz que o PT repudia qualquer tipo de violência e que orienta os militantes a não fazer ou aceitar provocações”.
No dia 21/10/2010 o âncora do JN, William Bonner comentou:
O presidente Lula acusou hoje o candidato do PSDB José Serra de ter mentido sobre a agressão de que o candidato foi vítima ontem no Rio de Janeiro. As declarações do presidente provocaram revolta no PSDB e se basearam numa imagem anterior ao momento em que Serra foi atingido”.
O repórter José Luiz Azevedo mantendo o padrão de narrativa sobreposta a imagens da passeata de José Serra repete as palavras usadas no noticiário da véspera, mantendo a interpretação anteriormente dada pelo JN:
A confusão foi durante uma caminhada do candidato tucano ontem no calçadão de Campo Grande, no Rio. Um grupo de militantes petistas impediu a passagem do candidato tucano. Serra se abrigou numa loja. Em seguida chega um grupo ainda maior de militantes petistas, com bandeiras e cartazes E começou uma briga generalizada. José Serra tentou retomar a caminhada, mas o tumulto aumentou. Fotos do jornal O Globo mostram o candidato com as mãos na cabeça, depois de atingido por algum objeto. Ele interrompeu a agenda no Rio para ser atendido por um médico e fazer exames. Hoje, pela manhã, na inauguração de um pólo naval no Rio Grande do Sul o presidente Lula acusou Serra de mentir”.
Embora repetindo boa parte da mensagem do dia anterior, apenas conjugada no pretérito passado, e com superposição das mesmas imagens exibidas na edição anterior do JN, o repórter já não mais afirma se tratar de uma bobina de fita crepe. Mas, de um objeto. O presidente Lula é apresentado falando sobre o evento nos seguintes termos:
Venderam o dia inteiro que esse homem tinha sido agredido. Uma mentira mais grave que a mentira daquele goleiro Rojas; aquele goleiro do Chile que no Maracanã caiu e fingiu que um foguete tinha machucado ele. Ou seja, primeiro bateu uma bola de papel na cabeça do candidato. Ele nem deu toque pra bola. Ele olhou pro chão e continuou andando. Vinte minutos depois, esse cidadão recebe um telefonema e a partir do telefonema ele bota  a mão na cabeça e vai ser atendido por um médico que foi secretário da saúde no governo do prefeito César Maia no Rio de Janeiro e foi o diretor do Inca quando Serra foi ministro da Saúde”.

O repórter José Luiz Azevedo em narrativa sobreposta a imagens da candidata Dilma Rousseff descendo de um carro com dificuldade, disse que “Também no Rio Grande do Sul, a candidata do PT, Dilma Rousseff, criticou o candidato Serra, ao comentar que mais cedo quase foi atingida em Curitiba por uma bexiga cheia d´água; um balão de festa”. 
Em seguida a candidata fala sobre o assunto nos seguintes termos:
“Eu vou ficar fazendo … eu vou lamentar que tenha ocorrido isto comigo. Agora, não vou transformar isto… E no meu caso foi absolutamente presenciado pelos jornalistas. Não fui eu que fui lá falar que tinha acontecido não. Nem ninguém pode falar que é bola de papel. Eu acredito que essa campanha não pode se pautar por níveis de agressão, nem por tentativa de criar factoides”.
Mantendo a posição assumida pelo JN JN o repórter José Luiz Azevedo faz narrativa sobreposta a imagens exibidas pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) que igualmente mostrava momentos da caminhada de José Serra no dia do suposto evento e diz: “Lula e Dilma se referem a uma imagem exibida pelo SBT. Mas, a imagem registra uma cena ocorrida antes da agressão a Serra”. Enquanto vai exibindo a imagem cedida pelo SBT o repórter vai narrando:
o candidato está com braços levantados para o alto. O vice, Índio da Costa, está do lado esquerdo de José Serra, quando o objeto, possivelmente uma bolinha de papel, acerta o candidato do PSDB. O cinegrafista da TV Globo, também mostrava Serra e o vice. Um pouco mais à frente aparece o cinegrafista do SBT. A câmera da TV Globo se movimentou em direção a uma confusão entre militantes do PT e do PSDB, momentos antes de a bolinha atingir José Serra. Nossa equipe volta a acompanhar o tucano. Mais adiante uma nova confusão entre os militantes. O repórter cinematográfico da TV Globo registra a pancadaria. Ele e outros cinegrafistas se afastam do grupo, onde está José Serra. O repórter Ítalo Nogueira da Folha de São Paulo segue filmando o candidato tucano com um telefone celular. Pausando a imagem é possível perceber que José Serra volta a ser atingido. Desta vez por um objeto circular e transparente. O repórter da Folha abaixa o celular e quando volta ao grupo mostra José Serra com as mãos na cabeça. Ele se refugia na van da campanha. A caminhada não é encerrada depois desse incidente. Serra volta ao calçadão. Cumprimenta mais alguns eleitores. Volta a por a mão na cabeça. Entra na van novamente, acena e vai embora. Agora, veja as duas imagens, lado a lado. A esquerda o que parece ser uma bolinha de papel, mostrada pelo SBT. Um objeto lançado contra José Serra mostrado nas imagens da Folha de S. Paulo. A repórter Mariana Gross, que acompanhava José Serra e foi atingida praticamente no mesmo instante por uma pequena pedra na cabeça, estima que entre as duas imagens, a do SBT e a da Folha, tenham se passado cerca de 15 minutos”.
A idéia de que o cinegrafista também mostrava Serra e o vice poderia fazer acreditar que a imagem mostrada pelo cinegrafista era a mesma exibida pelo SBT. Mas, o cinegrafista da Globo não mostrava o candidato com os braços levantados, razão pela qual o momento era outro, ou seja, a TV Globo não tinha a imagem do momento do atingimento da suposta “bolinha de papel”.

Ainda que se fale sobre o atingimento da repórter Mariana Gross por uma pedra e no dia seguinte, por uma pequena pedra, a jornalista que teria sido atingida não é mostrada, nem lhe é solicitada qualquer depoimento.

A fim de credibilizar o noticiário narrativo o JN ouve o perito Ricardo Molina, que frequentemente é consultado pela emissora em assuntos de diferentes matizes. O Repórter José Luiz Azevedo narra que:

O perito Ricardo Molina avaliou as imagens. Afirmou que elas retratam momentos distintos e mostram objetos diferentes atingindo a cabeça de José Serra”.
Em seguida, o perito Ricardo Molina diz que “São dois eventos completamente diferentes: um evento bolinha e outro evento rolo de fita” e o entrevistador interrompe: “Uma bolinha de papel?” O perito continua:
“Uma bolinha de papel ou um objeto muito leve. Tem toda a aparência de ser uma bolinha de papel, porque ele é disforme, não tem forma definida, exatamente como uma bolinha de papel. E outra coisa: objetos leves, quando batem, rebatem quase com a mesma energia com a qual ele se projetou. Então a gente vê isso perfeitamente. Ao passo que o evento fita por ter um núcleo rígido e a fita bate exatamente de lado, como a gente vê na imagem”.
O repórter interrompe de novo: “o senhor garante que houve um segundo momento”, e o perito prossegue:
Com certeza absoluta. Com certeza absoluta. São dois eventos completamente separados. Esse evento aqui é uma fita, a gente vê que é alguma coisa redonda, com uma circunferência central. Ela bate na região superior da cabeça, frontal superior. Quer dizer, é completamente diferente do evento bolinha. O evento bolinha aqui e a fita bate aqui”.
A chancela da “autoridade” era tudo que o repórter necessitava para continuar sua narrativa marcando posição diante do noticiário da outra emissora e, aparecendo no vídeo, “O candidato do PSDB fez campanha hoje no Paraná e reafirmou que foi agredido durante a caminhada no Rio. José Serra reagiu às críticas do presidente Lula”.

Na sequência, o JN exibe o candidato José Serra falando:
“Eles passaram a hostilizar e inclusive a atirar objetos. Eu fui atingido por outras coisas: bolinha de papel, empurrões, raspão de bandeira, por muitas coisas, até que veio esse objeto mais pesado que me bateu na cabeça. Eu fiquei tonto, eu fiquei um pouco grogue, mas não cheguei a desmaiar, e de lá fomos ver o médico, que recomendou repouso e fazer uns exames, inclusive tomografia, que eu fiz. Aqueles que pensam que houve simulação, na verdade estão me medindo com a régua deles. Eles provavelmente fariam simulações e outras coisas desse tipo. Eu fico preocupado com a principal autoridade da República, de alguma maneira, dando cobertura a atos de violência”.
A jornalista Fátima Bernardes retoma a narrativa da bancada do JN dizendo que:
“o médico Jacob Kligerman, que atendeu José Serra ontem disse que ficou indignado com as declarações do presidente Lula e que jamais faria parte de uma farsa. O médico afirmou que Serra chegou à clínica se sentindo mal e com um edema na cabeça, provocado pelo traumatismo, mas sem ferimento aparente”.
A abordagem do tema “bolinha de papel” no dia 21/10/2010, durou sete minutos e seis segundos.

Em 23 de outubro de 2010 o JN não foi apresentado pelos jornalistas William Bonner e Fátima Bernardes. Os âncoras do noticiário foram outros, dentre os quais o jornalista Chico Pinheiro. O assunto “bolinha de papel” não voltou a ser abordado no JN. A mudança dos âncoras é padrão que se repete em outros momentos nos quais sua credibilidade pode ser colocada em questionamento. Mudam-se os âncoras e o assunto e ao retornarem retoma-se com novo tema.

A cobertura jornalística do SBT se contrapôs à cobertura do JN e as imagens postadas pelo jornal Folha de S. Paulo, em sua edição online, foram exibidas pela Rede Globo para legitimar sua abordagem.

O jornal Folha de S. Paulo não manteve a cobertura sobre o assunto, nem buscou reafirmar sua posição. A fim de melhor compreender o contexto, entrevistei o jornalista da Folha de S. Paulo Ítalo Nogueira, autor das imagens por câmera de celular, exibidas no JN.

Entrevistei o jornalista da Folha de S. Paulo em 12/07/2011 que confirmou a tensão durante a caminhada de José Serra em Campo Grande/RJ, mas não afirmou se o objeto lançado contra ele era uma bobina de fita, ainda que pessoas presentes ao lado do candidato afirmassem sê-lo. (Anexo II).

O jornalista da Folha de S. Paulo, embora confirme que os entreveros duraram toda a extensão do calçadão de Campo Grande/RJ não afirma que o objeto lançado no candidato José Serra tenha sido uma bobina de papel. Igualmente afirma que o grupo inicial que hostilizava o candidato José Serra eram os mata-mosquitos, demitidos pelo candidato quando ocupava o cargo de Ministro da Saúde.

Uma questão que me clamou particularmente a atenção foram as ofensas dirigidas pelo candidato José Serra aos manifestantes, pois o fato não despertou o interesse do JN, que nem ao menos o comentou.

As ofensas praticadas na campanha de José Serra não foram mostradas, tal como a tentativa de agressão ao Padre em Canindé, CE, pelo candidato derrotado ao Senado Tasso Jereissati, que foi objeto de postagens nas mídias sociais e em jornais impressos, mas que não foi objeto de abordagem no JN, conforme se analisou no capítulo anterior.

Ainda que os jornalistas trabalhem com a idéia de “furo jornalístico”, que não apenas expressa a noticiamento do fato, mas também a sua realização antes dos concorrentes, por vezes a imprensa omite fato ou informação sobre o fato. “Sempre pareceu odioso os meios de comunicação ignorarem determinados fatos”. (Aloysio Biondi in Padrões de Manipulação na Grande Imprensa, 2003, pag. 62).

No entrevero entre militantes, em Campo Grande, no Rio de Janeiro, o jornalista cuja atividade serviu como parâmetro justificador da cobertura do JN relata fatos que por aquele noticiário não foram mostrados.

A realização de corpo a corpo em campanha eleitoral pressupõe certa estrutura para fazê-lo dentre as quais a existência de condições objetivas que a possibilitem, pois o clima emocional do final das campanhas pode causar embaraço ao candidato que se aventure por base eleitoral de outro candidato ou por região majoritariamente tendente a opositor.

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