23 de abr de 2018

Golpe inspirado em golpe


Hector Consani, de Maringá, estava vendo hoje Getúlio, da Globo Filmes, estrelado por Toni Ramos. De repente, um susto. E postou no Twitter:

"IMPRESSIONANTE vejam de onde veio a inspiração do P. Point do DD.

Estou assistindo GETÚLIO, lançado em 5/2014.

Delatores torturados, Com bolinhas, "único chefe" "em nome de Deus", tudo isso em apenas 1 min de vídeo. GOLPE INSPIRADO EM GOLPE."

E seguem as cenas.

Impressionante mesmo. A pressão sobre Gregório Fortunato, o Anjo Negro, na República montada pelos golpistas na Base Aérea do Galeão para "provar" que Getúlio havia ordenado o atentado da Toneleros, que deu no suicídio dele 19 dias depois.

E ainda mais impressionante Lacerda diante de um quadro negro, na telinha, mostrando as setas que convergindo para o nome de Getúlio no centro dele. O precursor do power point de Deltan Dallagnol.

Era tudo mentira. Um mundo de mentiras. Da testemunha ocular do crime e tudo. Vou te contar:

Acreano de Xapuri, como Chico Mendes, Jarbas Passarinho, Glória Perez e João Donato, o jornalista Armando Nogueira alcançou fama ainda na juventude por feito histórico: acabou com a aviação do Estado. O Acre tinha dois monomotores. Ele saiu para passear num deles. Perdeu o controle no pouso e acertou o estacionado no aeroporto de Rio Branco, a capital.

Outro feito notável do jornalista: mentiu para a História.

O frustrado atentado da Toneleros, do qual Lacerda saiu com um suposto ferimento no pé esquerdo, levou à criação de um precursor dos DOI-Codis da ditadura instaurada dez anos depois: a República do Galeão. Os acusados e implicados, nas mãos de militares da Aeronáutica e dos policiais chefiados por Cecil Borer, foram torturados à vontade. Não houve brutalidade que esquecessem.

Havia uma ligação direta entre a República do Galeão e a imprensa, através principalmente do Diário Carioca. Tão íntima, que seu editor-chefe Pompeu de Souza ficou conhecido como “presidente da República do Galeão”. A Tribuna da Imprensa já era íntima, pela ligação de Lacerda com os militares golpistas.

Pompeu de Souza tinha livre acesso ao antro de torturas da Base Aérea. Um repórter desse jornal, por acaso, se tornaria célebre mais tarde, como autor de texto machadiano em crônicas memoráveis no Jornal do Brasil e diretor de jornalismo da Rede Globo nos piores anos da ditadura militar.

Armando Nogueira, aos 27 anos, conversava com amigos na Toneleros na madrugada de 5 de agosto de 1954, quando ouviu tiros na frente do edifício Albervânia, 180, ali perto – ele morava no 183. E virou testemunha ocular da história.

Viu Alcino João do Nascimento disparar contra Lacerda, enquanto seu guarda-costas agonizava, atingido pelo pistoleiro. Armando contou o que viu no Diário Carioca, na primeira pessoa. A oposição, incendiada pelo próprio Lacerda, iria explorar o atentado com tal sanha, que levaria o “pai dos pobres” ao suicídio 19 dias depois.

Nos 30 anos do crime da Toneleros, Armando Nogueira, agora todo-poderoso diretor de jornalismo da Rede Globo, ao gravar um Globo Repórter, reencontrou Alcino – que havia cumprido 21 anos de prisão. E, após a gravação, Armando me fez confidências em outra conversa cara-a-cara em sala na Von Martius. Segredou que não contou no Diário Carioca exatamente o que viu.

“Na verdade, a cena que vi foi um fogo cruzado de Lacerda com Alcino, o major no meio.”

O que levou Armando Nogueira a contar o que não viu?, perguntei na revista Interview nos anos 1990.
Armando, morto aos 83 anos em março de 2010, contou só o que convinha aos torturadores e seus superiores militares e civis.

Lacerda simulou um tiro no pé para posar de vítima, carregado no colo por soldados, e assim fotografado para publicação na imprensa. No tiroteio se usou arma calibre 45. Um balaço de 45 destruiria até o pé do Cyborg, o homem biônico. Por isso nunca houve exame de balística.

O mestre de obras Alcino João do Nascimento nunca abriu mão da versão que me deu em 10 horas de fitas gravadas na casinha de meia-água à luz de lampião na Baixada Fluminense para o Aqui-São Paulo, derradeira aventura de Samuel Wainer, e o livro “Mataram o Presidente – O Pistoleiro que Mudou a História do Brasil”, de 1977.

Atirou, sim, no peito do major Vaz, mas não no pé de Lacerda. Nunca houve plano de atentado.

Quais razões ele teria para mentir? As razões do jornalista Armando Nogueira e do Diário Carioca não sei, só posso supor: ajudar a derrubar o presidente que havia voltado ao Catete “nos braços do povo”.

Palmério Dória

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