29 de abr de 2018

“Eu odeio petista!”


Na década de 1970, a equipe da professora Eleanor Rosch, do departamento de Psicologia da universidade de Berkeley, na Califórnia, fez uma série de estudos sobre categorizações.

Ela descobriu que esse processo é fundamental na cognição humana. É uma forma de organizarmos nos neuronho o caos que é o mundo exterior. Fazemos categorizações 24 horas por dia, sete dias por semana. No transporte, por exemplo, dividimos os sentados dos em pé, as mulheres dos homens, motorista e cobrador de passageiros etcetcetc. Continuamos com essas classificações na escola, na igreja, em casa, no trabalho, e só paramos de categorizar quando dormimos. Sem sonhar, tá? Quando sonhamos também categorizamos tudo!

A linguagem é a ferramenta da categorização para fazer julgamentos, dentre outros procedimentos.

Isto posto, pensem comigo: o que significa “petista”? Como categorizar uma pessoa chamada de “petista”?

Sou eleitora do PT desde a década de 1990 – por falta de opção. Voto pensando num projeto que diminua o abismo social que existe neste país, para ser bem genérica. Até hoje, só vi no PT essa alternativa. Gostaria de reconhecer essa categoria (pra usar a palavra-chave deste texto) em outros partidos.

Como eleitora, não sou partidária do PT. Tenho sérias críticas e ressalvas ao partido. Vão desde as alianças feitas (foi o que viabilizou tanto os 13 anos de governo como o processo de impeachment – barra – golpe que o próprio partido sofreu) até o abandono a certas políticas públicas. Mas minhas ressalvas ao PT realmente não vêm ao caso aqui. É assunto entre mim e a urna. Basta saber que elas existem, assim como meus aplausos ao partido. É algo possível em qualquer aspecto da vida.  Podemos ver o lado bom e o lado ruim de tudo.

Voltando novamente ao tema deste post: eu faço jus à alcunha de “petista”? Acredito que sua resposta tenha sido não. Mas o que ocorre é justamente o contrário.

Sou taxada de “petista”, sempre de forma pejorativa, quando tento lembrar que o processo que levou Lula à prisão pode levar qualquer um à cadeia, ou quando defendo a greve dos estudantes do Instituto de Letras da UnB (deflagrada na última quinta-feira), porque a UnB está prestes a fechar as portas por não conseguir fechar as contas- ainda que tenha dinheiro para isso e não possa dispor dessa grana.

É interessante observar todo o processo que leva uma pessoa a categorizar alguém de “petista”, e quais características deve ter uma pessoa para ser enquadrada em tal categorização. O processo passa por um contraste bem básico, que divide o mundo entre "nós" e "eles":

Nós somos legais, eles são chatos; nós somos inteligentes, eles são burros; nós somos honestos, eles são corruptos; nós somos brasileiros, eles são petistas; nós somos patriotas, eles são comunistas.

Ao final desse processo (que muito pouco ou quase nada tem de racional), a categoria petista está repleta de características abjetas e repulsivas, que devem ser evitadas pelas “pessoas de bem”. Daí, temos falas do tipo:

“odeio petista; petista tem mais é que morrer; não falo com petista; o que fode com este país são os petistas”.

Como já disse, é um processo pouco racional, extremamente emocional, que vai desaguar no uso de um verbo muito interessante: odiar. “Eu odeio petista!” ou “Eu odeio o Lula!”

Agora pense semanticamente comigo: que tipo de sujeito comanda o verbo odiar? Vamos fazer uns testes:

- A pedra odeia o sol: não, objetos inanimados não comandam o verbo odiar.

- Meu cachorro odeia tomar banho: sim. Trata-se de um ser vivo, porém não humano, desprovido de capacidade de raciocínio.

- Eu odeio química: sim. Ser vivo, humano, capaz de raciocinar.

O verbo odiar, então, tem essa característica: ele prescinde de raciocínio. É um verbo sensorial.

Agora vamos fazer outras substituições.  Vamos pegar o parágrafo em que eu cito chavões que usam a palavra petista, e vamos substituir essa palavra por outras para ver o resultado semântico (estou no campo da semântica. Não levem a coisa pro lado ético e moral, por favor!)

1)      Trocando petistas por negros:

“odeio negro; negro tem mais é que morrer; não falo com negro; o que fode com este país são os negros”.

2)      Trocando petista por judeu:

“odeio judeu; judeu tem mais é que morrer; não falo com judeu; o que fode com este país são os judeus”.

3)      Trocando petista por viado (lembrando que petista é palavra usada de forma pejorativa):

“odeio viado; viado tem mais é que morrer; não falo com viado; o que fode com este país são os viados”.

Temos, então, uma coleção de proposições que expressam racismo e preconceito. Podemos agora chamar a moral e a ética pra darem seus vereditos. É essa exatamente a fórmula do racismo: uma sensação irracional, repleta de estereótipos colecionados de forma irracional, que nos leva a categorizar (e, na sequência, tratar) o outro, que age diferente ou que pertence a uma etnia diferente da nossa como o estranho, o exógeno, aquele que deve ser suprimido / excluído / exterminado, posto que é entendido e classificado como fonte/origem de todos os problemas.

Antes de usarmos a palavra “fascismo” para concluir este texto (e eu não vou usar, uma vez que ela está em todas as entrelinhas deste texto), acho bom a gente botar os neuronho pra funcionar agora, e pensar o que, como e por que categoriza uma pessoa como petista. Você pode estar usando essa palavra de forma muito errada. Aliás, você pode estar achando que está raciocinando, mas não está. São as suas sensações e sentimentos, irracionais, que estão sendo manipulados.

Madrasta do Texto Ruim
No GGN

Um comentário:

  1. Uma pena que, apenas nós, os homens do "Mal", é que leremos e entenderemos este texto, enquanto os "seres do Bem", se por quaisquer eventuais circunstâncias, venham a deitar olhos sobre ele (o texto), fatalmente O CARACTERIZARÃO como "mimimi de petista"...
    Porém, É tangível a Mudança dos "VENTOS"... O Chicote Mudará de mãos, Inexoravelmente...
    A PERGUNTA que vale HUM TRILHÃO... Com ou Sem REVANCHISMO???

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