29 de abr de 2018

Espanhóis

Uma vez fui a uma feira de livros em Miami e acabei num jantar para os convidados latino-americanos, oferecido pela comunidade hispânica da cidade. Arroz com pollo. O único outro brasileiro no jantar era o Milton Hatoum. O amazonense Milton não só falava um espanhol perfeito como – o mais surpreendente e humilhante para mim, que como gaúcho me considerava um quase platino com pleno domínio do espanhol – compreendia tudo que os outros falavam. Eu não compreendia nada. Ou apenas o suficiente para notar que o assunto principal dos presentes era Cuba, de onde a maioria era natural. Pareciam falar com uma mistura de nostalgia e rancor, mas foi só uma impressão que não confirmei com o Milton. O que me espantou foi minha incapacidade de entendê-los. Não falar o espanhol não era nada, eu também mal falo português. Mas, durante todo o jantar, só entender “más arroz?” e pouca coisa mais era desconcertante. Eu estaria bloqueando o que ouvia? Me sentindo tão deslocado, ali, que me recusava a entender o que diziam?

O espanhol da Espanha não é o mesmo falado nas Américas e o espanhol (por exemplo) argentino não é igual ao mexicano. Cada fala espanhola seguiu seu curso a partir da vertente comum, mas aquele espanhol dos exilados cubanos era de uma estranheza extrema, ao menos aos meus ouvidos. Era como uma língua que tivesse se deteriorado ao ponto de virar outra, só compreensível pelos seus usuários. E pelo Hatoum. Me ocorreu que na apreciação do que aconteceu em Cuba depois da revolução do Fidel as opiniões tinham se diversificado tanto que pareciam línguas diferentes. A narrativa inicial da revolução fora num espanhol puro, que ninguém discutia: um governo tirano e corrupto derrubado por jovens idealistas dispostos a fazer uma sociedade limpa e justa. Uma narrativa clássica. Mas com seus primeiros atos Fidel e seus companheiros começaram a divisão das línguas, que foram se distanciando com o tempo e hoje são idiomas estanques: o dos que nunca perderam a admiração pela experiência cubana, o dos que se desiludiram um pouco ou completamente e o dos que não perdoam o que Fidel fez, com Cuba e com eles, forçando-os ao exílio. Cada um fala o seu espanhol e não entende o do outro. Entre eles nenhum consenso é possível, com ou sem “arroz com pollo”.

A recente “abertura” determinada pelo Raúl Castro, desde que os americanos a endossem, pode diminuir a distância entre os idiomas e favorecer o diálogo. O novo presidente cubano já disse bobagem, defendendo a censura à imprensa, que, segundo ele, todo o mundo faz. Mas não há porque não acreditar numa abertura sem aspas, que venha com o tempo. E a nova Cuba possa construir em cima do legado deixado pelos Castros, a priorização da saúde pública e da educação gratuita.

Miami foi o mais perto que já cheguei de Cuba, mas minha filha Fernanda esteve lá, há alguns anos. Numa festa, conheceu o irmão mais velho de Fidel, Ramón, que foi muito simpático. Conversaram sobre a novela brasileira que fazia sucesso na TV cubana, na época, e dom Ramon disse que daria qualquer coisa para saber como terminava Vale Tudo. E comentou: “Como es mala Maria de Fátima!”. Os dois não tiveram problema de língua. Falavam Globo.

Luís Fernando Veríssimo

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