29 de abr de 2018

Ensinamentos de Andrea Camilleri para frear o fascismo à brasileira


Andrea Camilleri (1925-) é um consagrado escritor e roteirista siciliano. Tornou-se popular também fora da Itália pelos romances policiais cujo protagonista é o Comissário Salvo Montalbano. Na simplicidade da prosa do autor, o Comissário cativa o leitor por ser um dos raros personagens verossímeis da ficção policial. Montalbano vai ao banheiro, assiste à TV de cueca, sente medo, leva bronca da namorada e volta e meia reincide no pecado da gula. As obras de Camilleri com aventuras de Montalbano, das quais destaco “O Cão de Terracota” e “A Lua de Papel”, originaram uma série televisiva da RAI no final dos anos 1990.

Em 2009, quando Silvio Berlusconi era o primeiro-ministro italiano, Camilleri publicou um longo artigo na Limes – Revista Italiana de Geopolítica, intitulado “Cos’è un italiano” (“O que é um italiano” em tradução livre). Ainda hoje muitos empacam no estereótipo raso do italiano “brava gente”. Há nove anos Camilleri mergulhou fundo em questões históricas e socioculturais polêmicas que pudessem explicar a identidade dos cidadãos italianos que levaram Berlusconi ao poder. O texto se divide em três partes, acessíveis em italiano aqui, aqui e aqui. Pode ser lido com ajuda do tradutor do Google.

Na primeira parte, Camilleri aborda a influência dos dialetos e da diversidade cultural das regiões italianas no processo de unificação do país. Fala da ascensão e do declínio do fascismo. Segundo ele, “se Mussolini não tivesse firmado o pacto de aço com Hitler, obrigando-se a entrar no conflito [mundial], teria morrido de velhice na cama”. O escritor opina que “o fascismo é uma fênix que não necessita se reduzir a cinzas para renascer”. Para ele, “sessenta e quatro anos de democracia” não tinham sido suficientes “para depurar o sangue dos italianos em que ainda vivem células infectadas [pelo fascismo], capazes de se transformar a qualquer hora num vírus perigoso”.

Na segunda parte, o escritor critica os italianos pela memória curta. “Se o inferno fosse a memória, o italiano andaria no paraíso”. Cita vários ditos populares sicilianos sobre juízes e a justiça. Dentre eles, “A lei para os amigos se interpreta, para todos os outros se aplica” (“La legge per gli amici s’interpreta, per tutti gli altri s’applica.”). Camilleri vai direto na veia: “a desconfiança na justiça é total, baseando-se na convicção difusa de que ela seria um instrumento dos ricos (que não caem nunca nas suas malhas) usado contra os pobres. Uma justiça de classe” (“La sfiducia nella giustizia è totale, basandosi sulla convinzione diffusa che essa sia uno strumento dei ricchi (che non incappano mai nelle sue maglie) usato contro i poveri. Una giustizia di classe.). A desconfiança no sistema judiciário seria um dos únicos pontos de consenso entre os italianos do norte e do sul no entendimento do escritor. Camilleri também pontua o que hoje todos sabemos: foi nas cinzas da República Italiana, após a devastação provocada pela Operação Mãos Limpas, que o homem de negócios milanês Silvio Berlusconi saltou para a vida política.

Na parte final, Camilleri se debruça sobre o berlusconismo e os meios de comunicação na Itália. Afirma: “O berlusconismo trouxe à luz certos comportamentos latentes no italiano, os quais antes eram impedidos de aflorarem por um mínimo de respeito às regras da vida civilizada”. O então mandatário do país controlava as três maiores redes privadas de TV, jornais e a principal editora italiana, a Mondadori. Tinha a comunicação de massa nas mãos.

A conclusão ácida de Andrea Camilleri é que o ideal de vida do cidadão italiano na era Berlusconi devia ser o motorino. Quase toda motoneta (motorino) infringia repetidamente as regras de trânsito em meio ao tráfego carregado nos horários de pico nas grandes cidades italianas. Os agentes de trânsito faziam vista grossa. Em outras palavras: com o triunfo do individualismo competitivo, o importante era chegar primeiro, fosse como fosse, mesmo nas barbas dos agentes da lei e da ordem.

Qualquer semelhança entre o texto publicado em 2009 e a realidade da Itália pós-eleições de 2018 e do Brasil pós-Lava Jato não é mera coincidência. Nos dois países, onde as cinzas do fascismo parecem nunca ter esfriado totalmente, a direita foi reconduzida ao poder. Magnatas da comunicação continuam dando as cartas. Informalmente, a Lei de Gérson, que determina levar vantagem em tudo, permanece em vigor. Há numerosos eleitores brasileiros inclinados a chutarem o pau da barraca em outubro próximo. 

Como bem escreveu uma comentarista do GGN há poucas semanas, aos olhos do mundo descemos ao gênero da pornocracia. Logo, não seria inimaginável que Oscar Maroni, proprietário do Bahamas Hotel Club, fosse catapultado de homem de negócios paulista a presidente eleito de todos os brasileiros. Só não se sabe qual objeto erótico traduziria melhor o ideal de vida dos nossos compatriotas num hipotético maronismo.

A realidade é surpreendente. É sempre capaz de superar qualquer obra de ficção noir. Serve aos brasileiros, portanto, a sábia advertência de Camilleri em entrevista a EL PAÍS Brasil em 2014: “O povo que se resigna está acabado”.

Aracy Balbani
No GGN

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