28 de abr de 2018

Dilma Rousseff no Democracy Now! (Em Português)




Protestos continuam no Brasil contra a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No início deste mês, Lula começou a cumprir pena de 12 anos de prisão, mas sua condenação por corrupção é bastante controversa. Lula, até agora, segue sendo o favorito para as eleições presidenciais deste ano. Seus apoiadores dizem que sua prisão é uma continuação de um golpe que começou em 2016, quando sua aliada Dilma Rousseff sofreu um impeachment. Lula e Dilma são membros do Partido dos Trabalhadores, de esquerda, e foram responsáveis ​​por tirar dezenas de milhões de brasileiros da pobreza desde que Lula foi eleito pela primeira vez em 2003. Falamos com a ex-presidente brasileira Dilma Rousseff. Seu afastamento em 2016 encerrou quase 14 anos de governo pelo Partido dos Trabalhadores. Dilma é uma ex-presa política que participou da resistência clandestina à ditadura brasileira apoiada pelos EUA na década de 1960. Ela foi presa de 1970 a 1972, período em que sofreu tortura repetidas vezes. Ela foi eleita presidente em 2010 e reeleita em 2014.

AMY GOODMAN: Este é o Democracy Now!, democracynow.org, o noticiário de guerra e paz. Eu sou a Amy Goodman. Protestos seguem no Brasil contra o encarceramento do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. Duas semanas atrás Lula começou a cumprir um mandato de doze anos de prisão por uma acusação de corrupção que é altamente controversa. Lula é o favorito nas eleições presidenciais deste ano. Seus apoiadores dizem que sua prisão é uma continuação de um golpe que começou em 2016, quando sua aliada Dilma Rousseff sofreu um impeachment. Lula e Dilma são membros do Partido dos Trabalhadores, de esquerda, que foi considerado responsável por tirar dezenas de milhões de brasileiros da pobreza desde que Lula foi eleito pela primeira vez em 2003. No mês passado, Lula falou com o Democracy Now! em uma de suas últimas entrevistas na TV antes de ser preso.
LULA: “Estamos aguardando os acusadores, para que os acusadores mostrem pelo menos alguma evidência que indica que eu cometi algum crime durante o período em que eu estava na presidência. Agora, o que está por trás disso é a tentativa de criminalizar meu partido. O que está por trás disso é o interesse por uma parte da elite política do Brasil, junto com uma parte da imprensa, reforçada pelo papel do Judiciário, de impedir que Lula se torne candidato nas eleições de 2018.”
AMY GOODMAN: Para ver a entrevista completa, visite democracynow.org. No início desta semana, ele sofreu outro revés, quando o Quarto Tribunal Regional Federal do Brasil negou seu último recurso. Enquanto isso, centenas de apoiadores de Lula montaram um acampamento do lado de fora da prisão onde ele está, na cidade de Curitiba. Na quinta-feira, Adolfo Pérez Esquivel, argentino ganhador do Prêmio Nobel da Paz, foi até a prisão, mas foi impedido de visitar Lula. Esquivel anunciou recentemente que indicaria Lula para o Prêmio Nobel da Paz por seu papel no combate à pobreza e à desigualdade econômica no Brasil. Esquivel falou aos partidários de Lula do lado de fora da prisão.
ADOLFO PEREZ ESQUIVEL: Eu acredito que hoje o Brasil vive em estado de exceção. Houve o golpe de Estado contra a presidente Dilma Rouselff. e agora toda essa companha contra o presidente Lula. Então, devemos pensar que tipo de democracia nós temos. Não só aqui no Brasil, mas em toda a América Latina. E temos que continuar desenvolvendo uma campanha internacional até que Lula recupere sua liberdade. Lula Livre.
AMY GOODMAN: Este foi o ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Esquivel, falando do lado de fora da prisão de Curitiba. Enquanto isso, cerca de cem membros do MTST e Povo Sem Medo ocuparam por um breve período de tempo o apartamento de praia vazio, que é o centro da acusação contra Lula. O ex-presidente foi acusado de receber o apartamento como suborno, embora nenhum documento tenha surgido ligando o ex-presidente, ao apartamento, onde ele nunca morou. Os manifestantes penduraram um cartaz dizendo: “Se é do Lula, é nosso. Se não é, porque prendeu?” Bom, no início desta semana, tive a chance de entrevistar a ex-presidente brasileira Dilma Rousseff. Seu impeachment em 2016 encerrou quase 14 anos de governo do Partido dos Trabalhadores. Dilma é uma ex-presa política que participou da resistência clandestina à ditadura brasileira apoiada pelos EUA na década de 60. Ela foi presa e torturada de 1970 a 1972. Ela foi eleita presidente em 2010 e reeleita em 2014. Falei com ela enquanto ela estava em uma turnê de palestras em Berkeley, Califórnia. Comecei perguntando por que ela veio para os Estados Unidos e sobre a crise política no Brasil. A ex-presidente do Brasil, Dilma Roussef, a primeira mulher presidente do Brasil. Ela sofreu um impeachment em 2016. Ela disse: “O primeiro capítulo do golpe foi o meu impeachment. Mas existe um segundo capítulo, que é impedir o presidente Lula de ser candidato nas próximas eleições”. Bom, Lula agora está na prisão e Dilma está concorrendo ao Senado brasileiro.

DILMA ROUSSEF: Bom dia Amy, é um prazer novamente falar com você no Democracy Now! de novo. Eu gostaria de dizer que o objetivo da minha viagem aos Estados Unidos e à Espanha é esclarecer, dar consciência para as pessoas que vivem fora do Brasil e todos, que o Brasil está sofrendo uma espécie nova de golpe de estado. Isso começou comigo em 2016, quando sofri um impeachment sem crime de responsabilidade. Para dizer a verdade, eu me encontro em uma situação, e o Brasil se encontra em uma situação, na qual há uma espécie de proteção legal, uma bastidor legal, que está escondendo atos de corrupção, atos de corrupção praticados por todos os demais. E cria acusações contra membros do Partido dos Trabalhadores e contra o Presidente Lula. Eu sofri um impeachment. Esse impeachment é o ato inaugural do golpe. O golpe se inicia com o meu impeachment sem crime.A partir daí esse processo torna-se muito radicalizado. Adota-se uma agenda que não foi aprovada nas eleições. Uma agenda de redução de direitos das pessoas mais pobres e dos trabalhadores. Ameaças de destruição de políticas sociais que garantiram que 36 milhões fossem retirados da pobreza, que tirou o Brasil do mapa da fome da ONU. Tantos ganhos que tivemos na última década.

E o que aconteceu? Os golpistas não têm, hoje, expressão política. Eles foram condenados pela população. E por isso não têm candidatos relevantes para as próximas eleições em 2018. O que eles fizeram, na verdade, foi abrir a caixa de Pandora, a caixa dos monstros. E colocar fora dessa caixa a extrema direita, que hoje é representada pelo candidato a presidente, capitão Bolsonaro, que no dia da votação do meu impeachment na Câmara dos Deputados, votou a favor da tortura, do torturador, e da ditadura militar.

Então, qual é a situação no Brasil? Há uma extrema direita fortalecida, e um centro-direita, que por fazer o golpe, se auto dissolveu, e tem mínima expressão política hoje. Eles foram nossos maiores adversários políticos nas últimas quatro eleições presidenciais. Hoje, eles não são mais significativos politicamente, porque não apenas ajudaram a realizar o golpe, como também foram descobertos em situações de corrupção. O Partido dos Trabalhadores e o Presidente Lula que eram para ter sido destruídos, não foram. O presidente Lula, desde o início do ano passado, em todas as pesquisas de opinião, tem o dobro de votos do candidato Bolsonaro. Lula tem mais de 30% e o candidato Bolsonaro tem menos de 16% de apoio. E não há um centro. O centro tem em torno de 5%, 4%, às vezes 6% das intenções de voto.
Então, por que eles condenaram Lula? A razão política é porque… se um golpe de Estado é executado, se um presidente que é legitimamente eleito for removido, se um conjunto de ilegalidades for realizado, incluindo o golpe, não se pode permitir que a eleição de Lula aconteça. Então o que eles fazem? Retiram Lula da campanha presidencial, acusando Lula, falsamente, de cometer um crime de corrupção.

Qual é o crime do qual eles acusam o Lula? Eles acusam Lula de cometer um crime de corrupção passiva, que consiste em um apartamento de 280 metros quadrados ou uma casa de três andares. Eles dizem que ele cometeu um crime para receber a casa. Ora, Lula não tem propriedade daquela casa. Ele não tem posse da casa. Ele não usa a casa. Ele nunca esteve na casa.

Durante o processo se descobre que essa casa foi dada por garantia, por uma empresa, que é a OAS, em contrapartida a um empréstimo que ela tomou junto ao banco. E se descobre que essa empresa, como ficou inadimplente perante o banco, teve este apartamento colocado, por uma juíza especializada nestes casos, em leilão público, para pagar a dívida da empresa com o banco. Portanto, Lula não tem a propriedade do apartamento. Até porque, a empresa que tinha o apartamento o deu como garantia ao banco, que o leiloou. Além disso, durante o processo, quando se discute qual foi o ato praticado por Lula que levaria à possibilidade do recebimento do apartamento, o próprio juiz reconhece que o ato é indeterminado.

Então, o que estamos vendo no Brasil é uma espécie de “Lawfare” com o presidente Lula. É o uso da lei como instrumento de destruição civil e cidadã do inimigo. O inimigo nesse caso é o presidente Lula. Isso significa que eles estão usando a lei e os procedimentos legais para travar uma luta política, uma perseguição política. De certa forma, é muito parecido com o que foi feito contra mim. Porque no processo do meu impeachment, eles disseram: “Mas estamos cumprindo todo o rito legal”, mas as acusações eram infundadas. Eles me acusaram de praticar atos que todos presidentes antes de mim realizou. Eles não eram crimes quando os outros presidentes se engajaram em tais atos. E eles não eram crimes quando eu fiz essa ação. Tinham previsão legal.

Argumentavam, por exemplo, que era para evitar que a crise surgisse. Que era uma espécie de maquiagem nas contas públicas. Ora, no meu caso, o efeito dos atos que eles me acusaram eram 0,03% do orçamento. E no caso dos empréstimos, os empréstimos não foram feitos para ninguém do governos. Eles eram feitos para agricultores, exportadores. Grandes agricultores, e também pequenos agricultores. E o que o governo fazia era pagar a diferença na taxa de juros de marcado e a taxa de juros cobrada desses agricultores. Isso estava previsto em uma lei que vigora desde 1994. E nesses atos nenhum presidente interfere. A mesma coisa está acontecendo agora com o presidente Lula. Ele não praticou nenhum ato, ele não fez nenhuma ação ilegal. Mas ele está sendo acusado em um processo que cumpre todo o ritual. Só que esse processo deixa evidente que estão perseguindo um inocente. E o pior disto é que hoje no Brasil, como consequência da crise, todas as intituições estão, de uma certa forma, afetadas. E principalmente o poder judiciário. Que é visível que está dividido. No caso de Lula, houve um empate que foi desempatado pelo voto de minerva da presidente da Suprema Corte. E uma das ministras da Suprema Corte que votou, declarou que votaria no caso geral. Qual é o caso geral? O caso geral é o seguinte: tem um artigo da nossa constituição, que tem muitas coisas que foram inspiradas pela constituição americana, que diz: todos são iguais perante a lei, e ninguém será considerado culpado até que se esgotem todos os procedimentos legais na segunda instância que é a instância coletiva. Ora, Lula não esgotou todos os procedimentos. E essa divisão que houve na Suprema Corte. E a ministra que preside o tribunal não coloca o caso geral. Se é constitucional ou não sem ter esgotado todos os prazos, para não permitir que Lula não seja preso. Enquanto isso ele continua com o dobro dos candidatos nas pesquisas de opinião.

Muitos nos perguntaram: “Por que vocês não escolhem outro candidato, já que as pesquisas evidenciam que uma pessoa apoiada pelo Partido dos Trabalhadores e por Lula estaria bem posicionada para disputar essas eleições?” Nossa resposta é: porque aceitar isso é aceitar que Lula é culpado. E para nós, está mais do que provado que ele é inocente. Então, aceitar isso é aceitar a perseguição política e torna-la oficial.

AMY GOODMAN: Então, presidente Dilma, Lula poderia concorrer à presidência estando na prisão?

DILMA ROUSSEF: Até agora a resposta é sim. Porque? Porque no Brasil, só em agosto haverá uma decisão definitiva sobre essa questão.Porque que a discussão sobre se Lula é culpado ou não é importante? Porque há uma lei que diz o seguinte: uma pessoa não pode concorrer a cargo público se tiver a condenação definitiva. Esta questão é uma questão constitucional. Porque o artigo quinto da nossa constituição, inciso 57, estabelece que ninguém é culpado antes que esgotem-se todas as instâncias. Todos os recursos cabíveis. A discussão é que a corte se dividiu. Há cinco que acreditam que a prisão provisória pode retirar uma pessoa do pleito, e cinco que não acreditam nisso. Que acham que é inconstitucional a prisão de Lula. Para resolver essa questão, ela tem repercussão na situação de Lula. Se ele pode ou não pode ser candidato. Eles prendem o Lula prisioneiro por dois motivos. Primeiro, para dizer que ele não pode ser um candidato. Mas também por uma razão muito forte: para não deixá-lo falar. E isso fica claro na própria fundamentação da medida que obriga-o a cumprir a sentença imediatamente. Porque Lula hoje está em uma situação de isolamento. Ele está em uma solitária.

Eu fui uma presa política durante a ditadura militar. Durante o golpe militar. Naquela época, sem dúvida, a situação era de violência aberta. Se prendia. Se matava. Se torturava. Todos os seus direitos- o direito à liberdade de expressão, o direito à liberdade de imprensa, o direito de se organizar. Todos esses eram eliminados.

Em nossa situação atual–e isso é típico da América Latina–você tem um golpe que não é militar. Ele não destrói os direitos de todos. Ele corrói as instituições a partir de dentro, como se fosse uma espécie de parasita que corrói as instituições democráticas. Então, nesse caso, o que eles estão fazendo com o Lula? Lula não pode falar. Mas nós podemos falar por ele. A democracia no Brasil está sendo mitigada. Está sendo abafada.

Qual é o nosso papel e por que eu viajo, e venho aqui em Berkeley? Eu fui para a Catalunha. Eu fui para Madri. Eu já estive na costa oeste, nas universidades americanas. Eu estive na França e na Alemanha. Por quê? Porque temos de recorrer a todos os meios possíveis para não permitir este modo de ferir a democracia, que no nosso caso é uma democracia frágil. Nós saímos da ditadura nos anos 80, e Lula é um exemplo dessa questão. Porque eles não querem que o Lula fale. Eles querem que Lula fique isolado do mundo neste período. Porque eles o veem como uma representação de tudo que é contra o golpe no Brasil. Como qualquer processo de golpe, não pode ser sustentado se não se tornar radicalizado, se não se tornar mais profundo.

Aí, torna-se muito arriscada para a democracia do Brasil. Na verdade, isso vai para a pedra angular da democracia, é que a justiça não pode estar politizada. O sistema de justiça tem que ser absolutamente neutro. E tem que fazer cumprir a lei, não como um instrumento político, mas como um instrumento da verdade expressa na constituição daquele país.

AMY GOODMAN: Eu queria te perguntar, presidente Dilma, sobre Jair Bolsonaro. O candidato de extrema-direita que está em segundo lugar nas pesquisas de opinião. Na última sexta-feira ele foi acusado de incitar ódio e discriminação contra negros, indígenas, mulheres, homossexuais e pessoas trans. Ele pode pegar três anos de cadeia se for condenado. Voltando no tempo, no momento em que ele estava votando pelo seu impeachment, como você mencionou, ele fez uma dedicação a um dos homens que te torturou quando você estava presa, quando você era uma presa política. Você poderia falar sobre estes homens?

DILMA ROUSSEF: Posso sim. De fato a extrema direita no Brasil, como todas as extrema-direitas, é anti-mulheres, anti-negros, anti-indígenas. É a favor de acabar com toda a fiscalização. E eles lutaram por isso, e votaram nisso. Acabaram com qualquer fiscalização das situações de trabalho análogas à escravidão que ainda existem no Brasil. Eles estão cheios de preconceito e intolerância. E eles acreditam que podem resolver os problemas mais complexos usando força bruta, a violência aberta.

O que aconteceu na votação do processo de impeachment que sofri? O deputado Bolsonaro votou homenageando a ditadura militar, a tortura, e um torturador, que se chamava Carlos Alberto Brilhante Ustra. Vota homenageando este senhor que foi um torturador em São Paulo, e que foi reconhecido em todos os processos de verdade e justiça que foram desenvolvidos no Brasil. Ele disse o seguinte para homenagear alguém que aterrorizou a presidenta Dilma Rousseff. Uma pessoa que é capaz, durante um processo de impeachment, de justificar seu voto dessa maneira é uma pessoa que planta ódio, semeia ódio. Porque ele só entende uma língua: a linguagem da violência.

A história da humanidade já mostrou como isso se repete. Mas nos últimos anos a democracia tinha crescido em todo o mundo. E hoje o que estamos assistindo, infelizmente, no Brasil, é a volta da extrema-direita, que, desde a redemocratização jamais tinha se expressado de forma tão clara. E isso é devido ao fato de que para trazer condições políticas para realizar um golpe por meio de um impeachment sem crime de responsabilidade, tiveram de abrir essa caixa de monstros. E a extrema-direita brasileira pulou dela. E agora, destruiu o centro político e o centro-direita. Porque o centro-direita foi golpista e, quando saiu de cena, no lugar dele, a extrema direita ganhou força. Esse é o principal resultado do golpe no Brasil–um fortalecimento da extrema direita–porque ter um centro político democrático sempre foi crucial no Brasil para garantir a governabilidade. E esse centro, que sempre foi democrático, desde a constituição de 88, desde a redemocratização, esse centro, no Brasil, foi, uma parte imensa dele, em termos de base social, engolida pela extrema-direita.

Era inimaginável que um candidato de extrema-direita concorresse às eleições presidenciais em segundo lugar. E os partidos políticos sempre foram de centro-esquerda e na centro-direita. Porque Lula não é um radical. Ele é um conciliador. Ele não concilia nos seus interesses fundamentais. Ou seja, em relação aos direitos dos trabalhadores, dos mais pobres no Brasil, e da soberania do país. Mas ele é conhecido como alguém que constrói pontes. Agora você não tem como criar pontes, quando aqueles com quem você estava criando pontes se tornaram golpistas e estão sofrendo uma imensa derrota.

Isto é o que resultou de um processo que se iniciou em 2016 com o meu impeachment. Este golpe não é apenas meu impeachment. O golpe é um processo que começou com meu impeachment. Tem uma segunda fase, que é a adotar a agenda que foi derrotada nas eleições. O efeito de tudo isso, sem dúvida, é produzir uma destruição do centro-direita no Brasil, e elevar a extrema direita. Portanto, eles só têm uma maneira de vencer, que é acreditar que se removerem Lula, um candidato da centro-direita pode ser construído.

AMY GOODMAN: Você acha, presidente Dilma, que uma vitória do Bolsonaro… de novo, ele é acusado de crimes de ódio, nós veremos o que pode acontecer, você acha que o exército brasileiro poderia tomar o poder através dele? A ditadura militar brasileira, que você claro, conhece muito bem, tendo sido presa e torturada naquele período.

DILMA ROUSSEF: Sim, de fato. Eu fui prisioneira em 1970 pela ditadura militar e fiquei presa por três anos. Acredito que, no Brasil, não há situação de golpe militar hoje. Eu acho que a extrema direita no Brasil é uma extrema direita civil. Pode incluir oficiais do Exército, como é o caso do Bolsonaro, mas a extrema direita não é um produto militar.

O que é a extrema direita no Brasil? Tem raízes muito profundas na história do Brasil. O Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Nós saímos da escravidão formal em 1888. Ao contrário dos Estados Unidos, nós tivemos escravidão em todos os estados do Brasil. No Brasil, temos uma tradição de controle violento da população. E há uma aparência, do que eu diria, de uma situação mais suave. Porque a violência se dá com os debaixo, do meio para cima ela se reduz.
Então, o que acontece neste processo de impeachment é que todas essas raízes, muitas delas estimuladas por diferentes organizações e fundações no Brasil e fora do Brasil, criam movimentos como o chamado MBL. Movimentos que estão introduzindo uma forma muito grande de violência. Por exemplo, nós tivemos uma caravana passando pelo sul do Brasil 20 dias atrás. Para nos impedir de chegar às cidades e às praças, e conversássemos com as pessoas, eles não queriam deixar nossa caravana entrar nas cidades, e então eles atiraram em nossos ônibus.

Eu não acho que a violência no Brasil tenha raízes militares. Este senhor, este capitão Bolsonaro, foi expulso do Exército por falta de disciplina e má conduta. Não tenho certeza se entendi sua pergunta exatamente, mas esta é a minha resposta para o que entendi da pergunta.

AMY GOODMAN: É claro, eu quero dizer… Você acha que ele se tornar presidente pode ser um caminho para uma maior militarização do poder?

DILMA ROUSSEF: É difícil saber. Mas acredito que, se ele vencer a eleição, não é uma questão de poder militar. A direita civil no Brasil é extremamente violenta. Mesmo na época da ditadura militar, foram os civis que também instigaram o golpe. Depois que eles instigaram o golpe de Estado, os militares assumiram. Porque as lideranças políticas de direita que instigaram o golpe. Eles iam aos quartéis militar para instigar o golpe. Eles acreditavam que eles chegariam ao poder. Mas depois do golpe foi o poder militar que assumiu o controle do processo e administraram o Brasil por 21 anos.

Eu acredito que a situação é diferente hoje. Há uma parte das forças armadas–a maioria, eu diria–que acredito que são defensores da constituição e da democracia. Mas há obviamente segmentos que não. E isso poderia de fato se alinhar com um governo do ex-capitão Bolsonaro. Agora, eu te asseguro que ele está suficientemente na extrema-direita para ter uma proposta fascista para o Brasil, com todas as características do fascismo. Por exemplo, defender a ideia de que os conflitos podem ser resolvidos simplesmente recorrendo à violência. Isso é uma característica muito forte do fascismo. Eles consideram–por exemplo, todos as questões ligadas à mulher como sendo um desvio. Têm uma posição extremamente contrária à população LGBT, especialmente gays. Neste momento, eles estão insistindo que não têm preconceito racial. Mas ao longo de sua história, eles mostraram grande preconceito contra os negros no Brasil, que são a maioria da população.

Há, no congresso, a bancada BBB que tem um componente de sustentação deste tipo de posição. Que é a bancada que defende… Um dos Bs é Boi, porque há uma força muito grande no Brasil contra os processos de distribuição de terra. E esse segmento tende à posições mais à direita.

AMY GOODMAN Nós só temos mais cinco minutos, mas eu quero te perguntar, presidente Dilma, sobre… quando você fala sobre os ataques à gays e lésbicas, eu queria te perguntar sobre a ativista LGBT, a ativista de direitos humanos, eu quero te perguntar sobre o assassinato de Marielle Franco e seu motorista, no dia 14 de março. Neste último domingo milhares de pessoas foram às ruas, uma vez mais, pedindo respostas sobre seu assassinato. Interessante que Flávio Bolsonaro, o filho do candidato presidencial Jair Bolsonaro, escreveu um tweet quando ela morreu dizendo, sabe, 'meus pêsames à sua família e à família do motorista. Nós discordamos politicamente mas'… sabe, ele condenou os assassinatos, mas depois ele deletou o tweet. Ele é um deputado estadual no Brasil. Você pode falar sobre a significância política do assassinato de Mairelle Franco, e o que você acha que deve ser feito agora.

DILMA ROUSSEF: Acredito que o assassinato da Marielle mostra um momento de violência aberta no Brasil, por dois motivos. Primeiro, por causa da importância de Marielle na luta pela igualdade racial e contra o preconceito no Brasil. Ela era uma militante aguerrida que defendia princípios civilizatórios. Que defendia com unhas e dentes o direito das mulheres negras se auto determinarem. Ela combatia, nas periferias do Rio de Janeiro, todos os mecânicos que subjugam os negros, todos os mecânicos na vida de uma cidade. E ela estava muito comprometida em avaliar processos que associariam o crime à política. Então, primeiro, o assassinato de Marielle é um crime bárbaro contra uma militante mulher negra, que representa um momento novo na vida do meu país. E como ela era vereadora, é uma maneira muito aberta de desafiar o poder. Por quê? Porque o presidente ilegítimo tinha decretado uma intervenção federal.

Acredito que o mais importante é perceber que o assassinato da Marielle, supostamente pelas milícias, deve ser considerado um momento muito importante. Os responsáveis devem ser investigados e punidos. Até agora, nem um único detalhe da investigação foi divulgado ao público para dizer que eles estão chegando perto da punição. Esperamos que o Estado brasileiro puna os assassinos o mais rápido possível.

Agora, é importante notar que o assassinato de Marielle é parte de uma crescente onda de violência. Violência contra militantes de organizações sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, como estudantes, como pessoas sem teto. Essas pessoas tem sido também presas. Houveram algumas mortes. E acredito que isso faz parte desse quadro geral de descontrole institucional que foi criado pelo golpe recente. Tanto que o estado do Rio de Janeiro está sob intervenção federal, uma medida extrema que nunca foi adotada no Brasil desde a redemocratização. Que é a União intervir na segurança pública de um estado, assumir o controle através da implantação das forças armadas. Acredito, como está sendo denunciado no Brasil por todos os setores progressistas, que esta foi uma manobra do presidente ilegítimo para ocultar sua própria irrelevância e a imensa impopularidade que ele tem. Todos nós sabemos que uma das soluções frequentemente usadas por presidentes impopulares ou com problemas é a intervenção armada em outros países. No Brasil, é uma intervenção militar dentro do próprio país. Bom, foi durante esta intervenção que Marielle foi assassinada. Então, a situação é extrema. Porque não só mataram uma das mais importantes lideranças negras do Brasil. Uma mulher negra. Mas também é uma desmoralização pra própria intervenção federal. Ter isso no momento em que o estado está sob intervenção. Estamos em um momento de grande acirramento.

O que eu acho que precisamos fazer primeiro? Primeiro temos que saber que no Brasil a população sempre ganhou quando houve democracia. Os direitos da população foram reconhecidos. Condições para lutar por melhores oportunidades, por serviços mais amplamente acessíveis ao conjunto da população. Hoje estamos vivendo em uma democracia mitigada e corrompida. Temos que lutar para ampliar os espaços democráticos. Eles costumavam me dizer o seguinte: “Por que você vai ao Senado, se sabe o resultado? É jogo de cartas marcadas. É aceitar as condições do impeachment”. Não é não. Respeitar as instituições do seu país, e ir lá denunciar e lutar abrindo espaços é fundamental. O mesmo hoje. Nós temos de lutar por eleições livres. Temos de lutar contra estes desmandos e este aumento da violência contra os movimentos sociais. Que é típico dos golpes. Os golpes têm que reprimir. Têm que impedir que as pessoas falem.

AMY GOODMAN: A ex-presidente do Brasil, Dilma Roussef, a primeira mulher presidente do Brasil. Ela sofreu um impeachment em 2016. Ela disse: “O primeiro capítulo do golpe foi o meu impeachment. Mas existe um segundo capítulo, que é impedir o presidente Lula de ser candidato nas próximas eleições”. Bom, Lula agora está na prisão e Dilma está concorrendo ao Senado brasileiro.

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