15 de abr de 2018

Datafolha e o quartel de Abrantes – tudo como antes

A prisão de Lula não alterou o quadro eleitoral – Lula vence em todos os cenários

Essa deveria ser a manchete da Folha de 15 de janeiro de 2018 que traz os resultados da primeira pesquisa de intenção de votos após a prisão de Lula, mas não é –  Preso, Lula perde votos.

Mais do que um caso de wishful thinking trata-se da maldição da Folha – é possível contar um monte de mentiras dizendo apenas a verdade.

Como levar um ponto para dentro da curva

Na pesquisa de janeiro de 2018, Lula tinha 35% de intenção de votos. Lula tem agora em abril, após ser preso, 31% de intenção de votos.

datafolha jan18

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Estatisticamente nada mudou. Lula vence em todos os cenários, no primeiro e no segundo turnos.

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Mas, em termos absolutos, Lula perdeu realmente 4 pontos percentuais em uma pesquisa com a margem de erro de 2 pontos percentuais. Como explicar?

A primeira explicação para o resultado é a dispersão de votos. A Folha fez a pesquisa de janeiro explorando 9 cenários diferentes com 11 candidatos. A pesquisa de agora mantém os 9 cenários – um inclusive sem a participação do PT – mas o número de candidatos sobe para 17. Não é necessário muito conhecimento de estatística para perceber que tal dispersão desfavorece a formação de maiorias. O percentual de intenção de votos para “outros candidatos” – os nanicos – cresce 7 pontos percentuais, passando de 13% para 20%, entre uma pesquisa e outra.

A volta do pêndulo

Outra explicação – essa com fundamento sociológico – é a figura do eleitor-pêndulo. Historicamente o eleitor se divide em terços em relação ao petismo. Um terço o apoia e um terço o rejeita. Havendo o terceiro terço que oscila entre o apoio e a rejeição.

pêndulo

A rejeição a Lula tem caído. Era de 36% em setembro de 2017 e é de 31% em abril de 2018. O apoio se manteve. Era de 33% em setembro de 2017 e é de 32% em abril de 2018. A variação se dá com eleitor pendular. Eram 36% em setembro de 2017 e são 37% agora. Aparentemente não houve mudança. Mas houve.

Lembremos que a pesquisa anterior é de janeiro de 2018 e em dezembro de 2017 Lula tem sua maior taxa de apoio – 38% – os pendulares são então 31%. Agora inverte-se. O apoio a Lula é de 31% e os pendulares são 37%. A rejeição não se alterou.

Em dezembro do ano passado, Lula vivia um tormentoso momento de calmaria em relação à campanha de destruição de imagem que os meios de comunicação de massa lhe dedicam. E o eleitor dava-se conta do fracasso do governo Temer. Passou a apoiar mais Lula.

Não é preciso recordar o que acorreu com Lula nos últimos 4 meses. Condenação em 2ª instância, julgamento de habeas corpus – volta de manifestoches patrocinados em páginas inteiras dos principais jornais e até procurador da República fazendo jejum em ato religioso pela derrota de Lula no STF.

vem pra folha

O eleitor pendular refluiu no seu apoio – mas não passou a rejeitar Lula.

A bola ainda está com Lula

Tanto que a informação mais importante da pesquisa mostra que não houve alteração no potencial de transferência de votos de Lula – 46% dos eleitores dizem que poderiam votar em um candidato apoiado por ele e 16% votariam com certeza. Valores idênticos aos de janeiro.

lula eleitor

O poste de Lula então estaria virtualmente no segundo turno das eleições de 2018.

O sinal do poste e o herdeiro de Lula

Ocorre que esse eleitor está confuso e aguardando uma sinalização de Lula. Quem é o poste de Lula?

Quando o cenário sem Lula ou o PT é apresentado ao eleitor, o índice que mais cresce é o de “brancos / nulos e não sabe”. É de 15% com Lula participando e vai a 26% dos eleitores sem ele. Quando consultados apenas eleitores petistas, esse índice vai a 35%.

datafolha abr18 sem Lula

Tampouco há um herdeiro presuntivo de Lula, no momento. Naturalmente, candidatos mais afinados com a esquerda se beneficiam com a ausência de Lula. Mariana Silva – a eterna viuvinha da floresta e Ciro Gomes – o eterno “plano B”. Mas é o crescimento do índice de “brancos / nulos e não sabe” o que realmente chama a atenção – 11 pontos percentuais.

datafolha abr18 sem Lula2

Chega-se assim a um ponto limite da campanha eleitoral de 2018 e do próprio golpe em andamento. As chances de Lula concorrer são mínimas – quase inexistentes – e as chances de participar da campanha dependem da reversão do entendimento do STF quanto à prisão em segunda instância.

O ministro Marco Aurélio ameaça levar a decisão a plenário nos próximos dias. Na hipótese cada vez mais remota da Ministra Rosa Weber votar segundo sua consciência, o PT estará no segundo turno. Na hipótese mais provável de Lula ser mantido incomunicável em solitária morística, o poste de Lula tem que ser aceso em seguida.

Até lá, tudo que se pode dizer com segurança é que com Lula preso continua tudo como antes no quartel de Abrantes.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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