19 de abr de 2018

Combater Bolsonaro e dialogar com seus eleitores


Está todo mundo assustado ou empolgado com o fenômeno Bolsonaro. O que não faltam são teses a respeito de sua popularidade e de como se relacionar com ela. Há os que defendem o silêncio total, entendendo que a cada crítica que recebe o deputado cresce ainda mais. Nesta lógica, transformar Bolsonaro numa espécie de Voldemort da política – aquele cujo nome não deve ser pronunciado – seria uma forma de reduzir a abrangência de suas ideias. Uma estratégia distinta aposta justamente no contrário: o combate frontal e aberto a Bolsonaro e seus eleitores como forma de erodir sua imagem.

Acredito que ambas as táticas possuem mais equívocos do que virtudes. Não falar a respeito de Bolsonaro não o torna menos popular. Esse pensamento ignora a dinâmica de circulação das (des)informações nas redes sociais. Mesmo que todas as pessoas que se opõem ao pré-candidato deixassem de mencioná-lo, ainda assim seus apoiadores e suas bolhas continuariam sendo potentes irradiadores de conteúdos pró-Bolsonaro. E o polo contrário estaria esvaziado, gerando uma lacuna nas referências negativas ao deputado, como se apenas o discurso de exaltação à sua figura predominasse.

Por outro lado, é verdade que muito do que nós, pessoas de esquerda ou simplesmente pessoas com algum apego mínimo à democracia e aos direitos humanos, consideramos ser um ataque a Bolsonaro acaba sendo apropriado por seus apoiadores como motivo de orgulho. Se para nós é absurdo ouvir que um deputado federal optou por receber verba de auxílio moradia mesmo tendo imóvel próprio em Brasília, para os apoiadores de Bolsonaro isso não é nada perto do mar de lama que assola a política. Se nos escandalizamos quando ouvimos Bolsonaro dizer que utilizava esse recurso “para comer gente”, seus defensores vibram com o que consideram ser um estilo irreverente e fanfarrão que a maioria dos políticos não tem.

Valores que para nós são centrais estão em segundo plano para os eleitores de Bolsonaro. Não é que todos sejam machistas, homofóbicos e se oponham à garantia de direitos humanos. É que para uma grande parcela da população que se identifica com a plataforma de Bolsonaro esses conceitos se contradizem com a noção de segurança pública para todos. Eu sei que para nós isso não faz o menor sentido. Mas para eles, faz. E não vamos conseguir virar esse jogo sem entender como eles pensam. Precisamos apostar num esforço radical de compreensão deste tipo de afeto político tão distinto que move os apoiadores de Bolsonaro.

A melhor estratégia para derrotar Bolsonaro é minar sua base social. Ignorá-lo ou “chutar suas canelas” não tem adiantado. Expor as contradições do deputado a quem o vê como um mito é como dar murro em ponta de faca. Isso não significa abrir mão do enfrentamento necessário à figura de Bolsonaro. Suas ideias devem ser combatidas sempre e com firmeza. Mas o que nós temos a dizer a seus eleitores? Melhor: o que temos a oferecer a eles?

Não é verdade que todos os apoiadores de Bolsonaro são fascistas. É evidente que há grupos com os quais não existe possibilidade de diálogo. E estes são os setores mais orgânicos e organizados que orbitam em torno de Bolsonaro. Com estes não apenas é impossível dialogar. É preciso também se proteger. A violência política e a agressão provocativa é o método deles de fazer política. Eu acredito que eles não são, nem de longe, os mais numerosos apoiadores de Bolsonaro. Mas certamente são os mais histriônicos e perigosos.

A massa pró-Bolsonaro é justamente aquela que está a nosso alcance. São nossos familiares, colegas de trabalho e conhecidos nas redes sociais. Basta andarmos um milímetro para além de nossas bolhas que eles aparecem.

Nós precisamos conversar com essas pessoas. Excluir do Facebook os contatos que curtem a página do Bolsonaro é uma estratégia desastrosa. Enquanto eles ampliam suas bases, se organizam em grupos de apoiadores no WhatsApp e atiram para todos os lados, nós nos isolamos em nossas bolhas confortáveis e seguras.

Os eleitores de Bolsonaro estão desesperados. Com boa dose de razão, não acreditam mais neste sistema político podre. Com uma dose ainda maior de ilusão, creem que Bolsonaro é um outsider diferente de tudo que está aí. Logo ele, um deputado que fez da política sua carreira e única profissão, que está há 30 anos pulando de mandato em mandato, de partido em partido, e enriquecendo muito com isso.

Os eleitores de Bolsonaro estão desesperados especialmente em relação à situação da segurança pública no país. E a esquerda vem errando muito ao debater este tema. É verdade que lutamos contra uma ideologia dominante, que se vale de todos os meios institucionais para enraizar suas mentiras.

Precisamos ter uma clara noção da urgência deste problema, afinal estamos falando do país com 60 mil assassinatos por ano. Não vamos prometer repressão pura e simplesmente. Este é o projeto em voga desde sempre e que nos levou à situação em que nos encontramos. Vamos defender uma polícia bem equipada, bem paga e com foco em inteligência e no combate aos crimes contra a vida. Vamos denunciar a falácia da guerra às drogas, algo que até mesmo setores da direita já perceberam. Vamos demonstrar que armar livremente a população é retirar do Estado a responsabilidade de ter uma política de segurança pública. Como disse o Leonardo Sakamoto: “É cada um por si e a Taurus por todos”.

Como comunicamos tudo isso a uma população que confunde justiça com vingança e direitos com privilégios? Infelizmente não tenho todas as respostas para esse dilema. Acho que ninguém tem. Mas temos que começar a pensar como saímos deste atoleiro ou ficaremos eternamente condenados a rebater a ideia de que direitos humanos significam a defesa de bandidos.

Samir Oliveira é jornalista e militante da Setorial LGBT do PSOL/RS.
No Sul21

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