19 de abr de 2018

Aprisionaram a verdade numa cela em Curitiba. Ela está incomunicável


O episódio do "muquiplex", cuja verdade foi revelada pelo MTST, mostra que o Brasil não tem imprensa de verdade. Tem uma Fake Press.

Não se trata de uma imprensa que se equivoca eventualmente ou que produz "fake news" ocasionalmente. Não. A imprensa oligárquica brasileira, quando se trata de cobrir os acontecimentos que envolvem o PT e a esquerda de um modo geral, é sistematicamente fake. Mentirosa.

Claro está que toda imprensa tem lado, tem ideologia, tem posições políticas. Porém, em países democráticos há maior diversidade de posições, devido às leis democráticas de regulação da mídia, e certo comprometimento com a produção e distribuição de informações objetivas, equilibradas e fidedignas. Há algum respeito à verdade, até mesmo para que a posição política defendida tenha legitimidade e se permita o debate democrático.

Entretanto, no Brasil do Golpe, a imprensa oligárquica, dominada inteiramente por meia dúzia de famiglias, perdeu completamente a compostura e a vergonha e dedica-se, diuturnamente, a mentir e a distorcer com grosseira impunidade.

No caso do "muquiplex", por exemplo, nenhum órgão da nossa fake press se preocupou em investigar se teria havido de fato a tal reforma de R$ 1,2 milhão, como tinha alegado a acusação no processo contra Lula. A defesa requereu uma inspeção, mas foi negada pelo juiz. Ninguém questionou a negativa de pedido tão racional e singelo. Pior ainda, produziram imagens fictícias da "luxuosa reforma" e as difundiram como verdades incontestáveis.

Mas o vergonhoso episódio do "muquiflex", que foi vital para condenar um inocente, é apenas um exemplo. Tudo, ou quase tudo, que se divulga sobre Lula, o PT e a esquerda é fake.

No caso do fake impeachment, toda a imprensa oligárquica embarcou na lorota das "pedaladas fiscais", operações contábeis que já tinham sido realizadas, sem quaisquer questionamentos, por governos anteriores. Isso era de conhecimento público, mas a fake press, em vez de investigar e falar a verdade sobre o fenômeno, preferiu reproduzir a mentira grosseira de que as pedaladas eram um "grave crime" e que tinham "quebrado a economia".

O mesmo padrão propositalmente fake de notícias configurou-se na cobertura da Lava Jato, mediante uma articulação com fake delações, fake power points, fake evidences e verdadeiras convicções partidárias. Enquanto a presidenta honesta foi deposta num fake impeachment e o ex-presidente inocente foi condenado numa fake conviction, os políticos relevantes da direita foram preservados, mesmo com provas materiais robustas, tornando inteiramente fake o lema de "a lei é para todos".

O fato de Aécio ter se tornado réu recentemente não muda em nada essa constatação, pois Aécio é um político moribundo, hoje sem a menor relevância. Ademais, contra ele há provas materiais concretas e irrefutáveis. Já Lula é o maior político brasileiro vivo e o maior líder popular da nossa História. Contra ele, há apenas esse vergonhoso fake triplex, que nunca foi dele. Trata-se do primeiro caso na História em que alguém é condenado com base em propriedade "metafísica" de um bem. Inventou-se uma jabuticaba jurídica para condená-lo. Lula seria o "proprietário platônico" do "muquiflex". Nada mais fake.

Em qualquer país civilizado, Lula teria sido absolvido liminarmente na primeira instância, tal a fragilidade das acusações e as arbitrariedades cometidas contra ele. Em qualquer país civilizado, Lula não precisaria de segunda instância ou terceira instância. A questão principal não está no processo, nas formalidades. A questão essencial no caso de Lula é a ausência de justiça e a evidente vontade política de condená-lo para não atrapalhar a agenda regressiva e antinacional do Golpe. A questão aqui é que, mesmo se Lula tivesse direito a 50 instâncias, em todas elas o veredito de culpado já estaria pré-determinado. A questão central é que, nesse caso, nós temos apenas uma fake justice.

Se a nossa fake press fosse séria e tivesse algum compromisso com a verdade, provavelmente eles investigariam as relações entre certas operações, como a Lava Jato, e as procuradorias norte-americanas. Procurariam saber porque os termos do acordo bilateral em matéria penal com os EUA não são respeitados. Indagariam porque os termos das multas pagas pela Petrobras aos acionistas norte-americanos não passaram pelo Senado Federal, como exige a Constituição Federal. Questionariam a razão pela qual a Lava Jato provocou prejuízos de mais de 2% anuais do PIB, nos últimos dois anos, e porque setores estratégicos inteiros da economia brasileira foram destruídos. Para a fake press, nada disso importa. O relevante é que Lula foi preso e, com isso, poderemos ter as fake elections com que a nossa direita sonha.

Ter uma fake press e uma fake justice é terrível. Mas o pior é que tudo isso conduz a uma fake democracy. Uma democracia composta por formalidades vazias de direitos e de verdades.

A informação é uma espécie de matéria-prima da democracia. É por ela que se produz o debate democrático. Contudo, como diria Karl Popper, um autor conservador, a informação, a opinião, a tese precisam ser falseáveis ou refutáveis para terem validade. Ou seja, elas têm de ser capazes de serem submetidas a provas, a questionamentos. É assim que a ciência evolui. Segundo ele, as "sociedades abertas", as democracias, também devem funcionar dessa forma, permitindo sempre os questionamentos e as refutações.

Entretanto, quando há uma fake press e uma fake justice não se produzem informações, teses, hipóteses ou juízos refutáveis. Nessas circunstâncias, tudo fica congelado e embaçado no nevoeiro autorreferenciado das mentiras irrefutáveis e das sentenças irrecorríveis.

O Golpe está construindo um país fake. Sem verdades, sem direitos, sem justiça, sem soberania e sem futuro.

Aprisionaram a verdade numa cela em Curitiba. Ela está incomunicável.

Marcelo Zero, é sociólogo, especialista em Relações Internacionais e assessor da liderança do PT no Senado

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