15 de abr de 2018

Alcouceiras, vulgivagas e zabaneiras

Eu ainda sou do tempo do “randevu”. Era como se chamavam os que seriam, tecnicamente, lugares para encontros - do francês “rendez-vous” - mas eram mesmo lupanares, casas de tolerância, prostíbulos. E só aí já são mais três termos que também envelheceram, se bem que nenhum tanto quanto “randevu”.

Todo o vocabulário do comércio do sexo envelheceu. Ele já tinha um tom meio antigo mesmo quando era corrente: meretrício, proxenetismo, rufianismo... Com o tempo e com a revolução sexual, as palavras ficaram obsoletas. As atividades a que se referem continuam, claro, mas seus nomes hoje soam como relíquias de outra época, como “cabriolê” ou “footing”. (Sim, eu ainda sou do tempo do “footing”.)

“Garota de programa” é um termo relativamente recente. Não é exatamente um eufemismo porque o “programa” não envolve, necessariamente, sexo. Jornais que circulam muito entre executivos europeus e americanos estão sempre cheios de anúncios de “escorts”, moças que fazem bonito como acompanhantes, ajudam a fechar negócios ou simplesmente emprestam um ombro macio para o executivo se lamuriar. Se rola ou não sexo depende do serviço contratado, mas ninguém as chamaria de rameiras, marafaias, michês, mulheres da vida, quengas, perdidas, decaídas, alcouceiras, vulgivagas, zabaneiras ou à toas.

Lembra da “Cafetina Capixaba”? Era uma brasileira que arranjava acompanhantes para homens importantes, como um governador de Nova York que acabou tendo que renunciar, e, segundo se dizia, tinha “gente muito grande” entre seus clientes. Desde que a bossa nova chegou aos Estados Unidos, nenhum brasileiro tinha influenciado tanto a vida americana quanto a Cafetina Capixaba. E ela trouxe de volta ao nosso convívio outro nome antigo para uma atividade atual. Andei tentando descobrir a origem de “cáften”, de onde vem “cafetina”, e não passei de uma vaga referência ao lunfardo argentino, possivelmente um caminho falso.

Me lembrei da Cafetina Capixaba porque ainda não apareceu nada parecido com ela nos nossos escândalos de cada dia e nas revelações sobre nossos corruptos. A não ser que a nossa americanização chegue a esse ponto, nunca se verá um político brasileiro anunciando sua renúncia por causa de uma escapada sexual flagrada, com a esposa estoicamente solidária ao seu lado. Uma cena que, nos Estados Unidos, já adquiriu a previsibilidade de um ritual. E em nenhum dos nossos escândalos alguém teve que dar explicações sobre um caso do passado como o de Donald Trump e a flamante Stormy Daniels.

Uma dedução inescapável é que nossos corruptos não têm vida sexual.

Luís Fernando Veríssimo

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