21 de abr de 2018

Agência Xeque: como o Estadão e Veja usaram fakenews para crucificar Chalita


No seminário que está sendo organizado pela revista Veja para analisar o fenômeno dos fakenews, não poderia faltar um caso emblemático: como a Veja e o Estadão, a serviço de José Serra, se valeram de falsificações para liquidar com a carreira de Gabriel Chalita, um dos mais promissores políticos paulistas.

No dia 23 de fevereiro de 2013 pipocou a primeira denúncia na Folha: “Empresa pagava despesas de Chalita, diz ex-colaborador”.

Informava que o Ministério Público Estadual abrira onze inquéritos para investigar o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP), por suspeita de corrupção, enriquecimento ilícito e superfaturamento de contratos públicos.

Todas as denúncias baseavam-se em apenas uma fonte, o analista de sistemas Roberto Grobman, que se dizia assessor de Chalita. Segundo ele, o grupo educacional COC pagou diversas despesas de Chalita, da reforma em seu apartamento a viagens de aviões e helicópteros.

Grobman acusava Chalita de cobrar 25% de propina sobre o valor dos contratos.


No primeiro governo Alckmin, Chalita despontara com a liderança mais promissora do PSDB estadual. Quando José Serra assumiu, iniciou uma forte desconstrução de sua imagem e Chalita acabou saindo do partido. Naquele momento, havia fortes rumores de que seria nomeado para um Ministério do governo Dilma Rousseff, habilitando-o a concorrer a um cargo no senado nas eleições seguintes.

A denúncia abateu-o em pleno voo.

O único indício de retribuição ao COC, apresentado por Grobman, era um contrato de R$ 2,5 milhões supostamente firmado entre a Secretaria e o COC. A disparidade entre o contrato e a suposta propina não chamaram a atenção nem do promotor nem do jornal.

No dia 28 de fevereiro de 2013 o Estadão entrou no jogo, com a matéria “Dossiê de delator de Gabriel Chalita tem fotos, e-mails e notas fiscais”.

No mesmo dia, a Agência Estado divulgou denúncia mais sólida.

Ex-diretor de Tecnologia da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), Milton Leme declarou à Agência Estado ter sido procurado por Grobman com uma proposta de suborno de R$ 500 mil para avalizar suas denúncias.

Segundo Grobman, o emissário da proposta era o deputado Walter Feldmann, um dos coordenadores da campanha de José Serra para a prefeitura da cidade. Leme teria cortado a conversa ali.


No sábado, Veja entra no jogo com uma reportagem cruel.

Uma chamada de capa insinuava relações íntimas entre Chalita e Grobman.

E o texto era fantasioso, no estilo dramaturgia de segunda classe:

A “taxa”, de 25%, era entregue diretamente a Chalita em seu apartamento em Higienópolis.

Segundo Grobman, o ex-secretário chamava o dinheiro de “Vanderlei”. “Quando tocava o interfone, ele gritava, eufórico: ‘Oba, chegou o Vanderlei!’. Só mais tarde descobri que Vanderlei não era uma pessoa. Como ele dizia que mandava a sua parte para uma conta bancária em Luxemburgo, fazia graça com o nome do técnico de futebol”, diz.

Grobman contou ao MP que, por diversas vezes, viu Chalita distribuir o dinheiro que recebia. “Ele derramava as notas no chão do closet. Arrancava as tiras dos maços e jogava em cima dos assessores, imitando o Silvio Santos: ‘Quem quer dinheiro?!!’”

Grobman diz que Zaher lhe pagava um salário para que ele atuasse na secretaria. “O Zaher queria ter uma pessoa dele lá dentro para que pudesse vender os seus produtos.”

Mas nem essa proximidade com o titular da pasta nem as supostas vantagens que o COC teria ofertado a Chalita – entre elas o pagamento de parte da reforma de um dos seus apartamentos, fato que Zaher nega – resultaram em algum negócio para o grupo.

Na internet, a reportagem de Veja foi publicada com tags onde constava um “casamento entre homossexuais”. Internamente a foto de ambos, insinuando relacionamento íntimo.


Chalita alegou que Grobman namorava uma secretária sua, que estava na foto publicada.

Uma breve análise da foto mostrava que provavelmente havia sido retocada.

1. A linha do horizonte, da parte direita da imagem, era irreal. Traçando uma linha que mantem inclinação, é fato que a linha da parte direita foi reconstruída. E quem o fez não teve o cuidado de manter o ângulo de inclinação:


2. Uma mancha branca, no pé da foto, lançou dúvidas. Ou não era um objeto real existente no momento da fotografia, ou era uma mesa, prancha de surfe, que sofreu péssimas alterações em software de edição. A comprovação está na característica extremamente pixelada da parte inferior, e também, no blur da lateral direita. No geral, está bizarra essa foto publicada pela Veja.


3. A foto era de fácil edição, por possuir um fundo monocromático: o tom azul claro do céu e azul escuro do mar, separados pela linha do horizonte.

4. Numa fotomontagem, a ferramenta blur tool do Photoshop é comumente usada para borrar partes específicas das bordas de um objeto, pessoa ou fundo. Existem partes na foto com essa característica: na face do homem a esquerda e na linha do horizonte na parte direita da foto.

Se existia uma pessoa ao lado esquerdo de Chalita, e se o braço esquerdo do Chalita estivesse na frente dessa pessoa, ela pode sim ter sido removida da foto. Os argumentos acima levantam indícios para tal montagem e questionam a credibilidade da foto. Ao mesmo tempo, ressaltamos que está impossível determinar se de fato houve ou não montagem, isso porque a foto está em baixíssima qualidade.

Na edição seguinte de Veja, duas cartas de leitores decepcionadas com as supostas falcatruas de Chalita.

No dia 2 de março de 2013, o Conselho Superior do Ministério Público suspendeu nove dos onze inquéritos contra Chalita. O promotor do caso, Nadir Campos Júnior, declarou estar sofrendo pressões para encerrar as investigações.

O linchamento prosseguiu no dia 14 de março de 2013, em reportagem do Estadão intitulada “Promotor apura uso do diretor de fundação em obra privada de Chalita”.

Nada havia de concreto: apenas a continuidade do depoimento de Grobman. Desta vez afirmando que um engenheiro da Fundação para o Desenvolvimento da Educação, foi deslocado por um ano para acompanhar as obras no apartamento de Chalita.

No dia 13 de agosto de 2013, é noticiado que o Procurador-Geral da República Roberto Gurgel pediu ao STF abertura de inquérito para investigar Chalita.

No dia 26 de novembro de 2013 o quadro começa a mudar. O procurador Nadir de Campos Júnior foi denunciado criminalmente por falsificação de documento particular e uso de documento falso, visando fraudar as eleições para a presidência da Associação Paulista do Ministério Público.

No dia 17 de setembro de 2014, acolhendo parecer do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, o ministro Teori Zavaski ordena o arquivamento da denúncia. Entre outros motivos porque o delator Grobman nunca foi localizado para depor, nem apresentou nenhuma prova das acusações.

Mas a carreira de Chalita estava liquidada para as eleições de 2014. Veja nunca mais voltou a mencionar Chalita, menos ainda para noticiar sua absolvição.

Na mesma edição em que cometeu as infâmias contra Chalita, Veja dedicou duas páginas a um blogueiro que utilizava as redes sociais para atacar adversários do PT.

O título da matéria era “Difamar é o negócio”.

Luís Nassif
No GGN

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