4 de abr de 2018

A volta das vivandeiras dos quartéis


Não há desculpa para a interferência do comandante das Forças Armadas General Villas Boas, em um tema eminentemente civil. Mas é mais uma consequência da balbúrdia institucional que tomou conta do país.

Impunemente, procuradores e juízes passaram a fazer proselitismo nas redes, inclusive com mensagens de fundamentalismo religioso, juízes afrontaram o Supremo Tribunal Federal, vazando gravações clandestinas de conversas da própria presidente da República, com aval do Procurador Geral, os conselhos de juízes e procuradores renderam-se ao corporativismo mais estreito e a imprensa mantém o discurso permanente da luta do bem contra o mal.

Mais ainda, jornais que fizeram profissão de fé na ditadura, quando veio a ditadura, depois profissão de fé na democracia, quando veio a democracia, apelam até para militares aposentados para atemorizar o Supremo. É a volta das vivandeiras dos quartéis.

Não adianta pedir visão prospectiva a quem não consegue enxergar além do dia a dia. Não adianta alertar para os riscos do fascismo a quem, como o Ministro Luís Roberto Barroso, não consegue ir além do próprio umbigo.

Criou-se o mesmo clima de 64, em que as convicções democráticas viram pó e apela-se para o pragmatismo de não se comprometer para poder aderir ao próximo navio que aportar na costa com os novos-velhos conquistadores.

O Ministro Barroso, que se pretende um neo-brasilianista, poderia desenvolver uma tese sobre esse brasileiro intemporal que, antes de emitir opinião, molha os dedos, estica no ar para identificar o caminho dos ventos. No campo jurídico, corresponde ao juiz que julga se subordinando aos ecos que vêm da sociedade. Explicaria muito melhor o caráter e a tragédia brasileira do que a empregada do seu amigo que recusou carteira de trabalho para poder acumular as merrecas do Bolsa Familia. E nem precisa se basear no seu pensador predileto, Flávio Rocha, das Lojas Riachuelo. Basta se abrir com seu analista.

Espera-se que os demais Ministros tenham a dignidade de representar à altura o poder, o STF, do qual eles se comprometeram a ser guardiões.

Luís Nassif
No GGN

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