30 de abr de 2018

A omissão da CNBB diante do arbítrio


A 56ª Assembléia Geral da CNBB teve início dia 11 de abril, apenas 4 dias após a prisão política do ex-presidente Lula.

Tendo como tema “Diretrizes para a formação de presbíteros”, a Assembleia da CNBB reuniu quase 500 bispos da igreja do Papa Francisco durante 10 dias, até 20 de abril, na cidade de Aparecida/SP.

Muito chama atenção a mensagem da conferência nacional dos bispos do Brasil ao povo de deus, publicada ao término do evento.

O conteúdo anódino da mensagem contrasta com a realidade de injustiça, exclusão social, sofrimento humano, miséria, desemprego e perseguição política derivada do golpe de Estado e da ditadura jurídico-midiática que devastam o país.

A mensagem registra que “Vivemos um tempo de politização e polarizações que geram polêmicas pelas redes sociais e atingem a CNBB”, e esclarece que “A CNBB não se identifica com nenhuma ideologia ou partido político. As ideologias levam a dois erros nocivos: por um lado, transformar o cristianismo numa espécie de ONG, sem levar em conta a graça e a união interior com Cristo; por outro, viver entregue ao intimismo, […]”.

Apesar de reivindicar que “Não podemos nos calar quando a vida é ameaçada, os direitos desrespeitados, a justiça corrompida e a violência instaurada”, a CNBB não fez nenhuma menção a episódios que se enquadram no que seriam critérios para o posicionamento pastoral da entidade, como o assassinato da Marielle e do Anderson, os atentados contra a caravana do Lula, a escalada da violência no campo, o genocídio de pobres e mulheres, a fascistização do Brasil e a farsa jurídica da prisão política do Lula.

Em clara alusão à participação de Dom Angélico Bernardino [bispo emérito da Diocese de Blumenau] no encontro ecumênico realizado no sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo em 7 de abril em homenagem a Dona Marisa, a mensagem frisou que “A Conferência Episcopal, como instituição colegiada, não pode ser responsabilizada por palavras ou ações isoladas que não estejam em sintonia com a fé da Igreja, sua liturgia e doutrina social, mesmo quando realizadas por eclesiásticos”.

Em 1964, setores conservadores da Igreja Católica hegemonizaram o posicionamento oficial da CNBB de apoio ao golpe civil-militar que destruiu a democracia, pois significava a graça da “Virgem de Aparecida ter escutado os clamores do povo e livrado o Brasil da ameaça comunista” [Frei Betto, Igreja Católica e o Golpe de 1964].

Como diz Karl Marx no 18 Brumário de Luís Bonaparte: a história se repete, a primeira vez como tragédia; a segunda, como farsa.

Diante das Diretrizes da CNBB para a formação de presbíteros, só resta a esperança de que o Papa Francisco haverá de ter compaixão para com o povo brasileiro.

Jeferson Miola

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