12 de abr de 2018

A crise dos ingredientes

Já nos habituamos à crise. Nossa envaidecida versatilidade leva-nos sempre ao mais cômodo. E, como regra geral, menos recomendável. Ainda assim, a crise não deixa de ser uma espécie de envenenamento coletivo, que é preferível sustar em tempo. Como? Ninguém discute, o que é uma das peculiaridades da crise. Outra, é que esta crise conseguiu contaminar e absorver todos os ingredientes essenciais à construção de uma democracia razoável. E em nenhum a perspectiva é de superar sua intoxicação.

O Supremo sucumbe a uma divisão complexa, por atingir teoria e prática, concepções jurídicas e relações pessoais, inclinações políticas e sujeição a vozerios externos. Tudo em ambiente de tensão, como à espera de um disparo — que vem, mesmo, com frequência. Os efeitos dessa situação não recaem só sobre o Supremo, sob a forma de corrosão da sua respeitabilidade e da autoridade indispensável. Os seus males projetam-se sobre as demais instituições, logo, na vida do país.

Inexiste, no entanto, vislumbre de reacomodação. Bem ao contrário. Não só por falta de iniciativa, mas por continuado acirramento das incompatibilidades. Há anos, a ministra Ellen Gracie não admitiu nem os primórdios do ambiente de inconvivência e choque, e preferiu deixar o tribunal. Personagem na situação conflituosa, Joaquim Barbosa também preferiu sair, no auge do prestígio por sua relatoria do mensalão. De lá para cá, qualquer atenuação só ficou mais difícil. Ou já impossível.

O atual Congresso tem a pior das composições na sua história. Seus integrantes cuidaram de criar um tal Fundo Eleitoral que financiará, com dinheiro tomado dos próprios eleitores, a sua busca da reeleição. O sistema de indicação de novos candidatos, mais fechado do que favorável, complementa a dificuldade de renovação melhorada. Parlamentares de certas igrejas agravaram muito a degradação da Câmara, e essa bancada espera crescer bastante. A contribuição do Congresso para a crise, portanto, não está ameaçada pelas eleições de outubro. A casa de negócios prospera mais em situações problemáticas.

Um aspecto esquecido sobre a criminalidade é sua implicação adversa à construção de democracia. Além da bastante conhecida obstrução às (raras) ações de melhoria das favelas, a disseminação da violência incita a prepotência mortífera e generalizada das polícias. Assim se tem preservado uma presença da ditadura entre nós, sob formas até bem aceitas por muitos democratas.

A economia em geral marca passo, o desemprego sobe, os pobres estão mais pobres e mais numerosos, cada vez menos pessoas —nas favelas, na classe média, nos carros ricos— podem estar sem medo nas suas cidades, nas estradas, onde quer que façam a sua normalidade. Se a intervenção no Rio tiver êxito, há todo o restante do país onde o convívio geral é cada dia mais penoso, mais arriscado. Isso também é crise. É a crise. E não há versatilidade e esforço de adaptação que resolvam, se os outros fatores da crise permanecem.

Ninguém repara mais. A crise, no entanto, não acompanha esse desligamento.

Janio de Freitas
No fAlha

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