6 de mar de 2018

Sócrates e o sacrifício ritual da justiça a mando da Rede Globo


O Juiz Rubens Casara, autor do livro Estado Pós Democrático, publicou hoje um Twitter a propósito da transmissão do julgamento de Lula pelo STJ:

A espetacularização da justiça faz do réu um objeto a ser tratado de acordo com os rumos da opinião publica(da), muitas vezes forjada a partir da desinformação, e o gosto do espectador (em sociedades autoritárias, os espetáculos são manifestações de autoritarismo). 

Resenhei a obra para o GGN e fiz algumas considerações sobre a perseguição do autor no CNJ. De fato, mantenho alguma proximidade com ele através do Twitter e em razão disso resolvi responder a mensagem que ele publicou.

"Ninguém peca voluntariamente", disse Sócrates. Os nóias da @justicafederal, @TRF4_oficial e @STJnoticias são apenas incapazes de vencer seu sadismo classista e sua vaidade doentia. Derrotados por si mesmos eles se dizem socráticos e aplicam o conceito de justiça de Trasímaco.

A @RedeGlobo e seus donos são mais poderosos do que o @inst_lula. Portanto, Lula deve ser esquartejado em público. Não para satisfazer o "novo modelo de Justiça" e sim para cumprir um sofisma infame do século IV a.C.: a justiça não é nada mais do que a conveniência do mais forte.

Espetáculo, sim. Mas um espetáculo retrô e não moderno. Sob as camadas digitais das imagens cintilantes que serão transmitidas em tempo real pela Rede Globo ou pelo @YouTube iremos ver hoje um julgamento digno da já então decadente democracia ateniense.

A tirania do poder arbitrário que se expande à custa da Justiça não é um regime político. Ela é em primeiro lugar uma falha de caráter dos juízes brasileiros. Vítimas de seus ódios e vaidades eles reforçam o pecado porque se deixaram subjugar por seus vis desejos inferiores.

Sócrates acreditava que a maldade pode constituir um obstáculo à aquisição da sabedoria. O "daimon" dele o impedia de se aproximar de pessoas com as quais era impossível conversar. Quanto tempo ele ficaria conversando com os juízes que sacrificam a justiça para atender a Globo?

É preciso problematizar o que está ocorrendo e formular conceitos modernos para um mundo que se modernizou como fez Rubens Casara. Mas não podemos perder de vista o que há de especificamente humano em todos nós: aquilo que nos liga profundamente aos homens e mulheres que viveram em civilizações que não existem mais, pois eles também refletiram sobre problemas semelhantes em condições ligeiramente diferentes.

Fábio de Oliveira Ribeiro
No GGN

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