25 de mar de 2018

Serenidade não é letargia: Lula acertou na estratégia


A proximidade da conclusão em segunda instância do julgamento de Lula tensionou ainda mais o já conturbado cenário político brasileiro. A direita sentiu o cheiro de sangue e começou a comemorar uma eventual prisão injusta que atenderia a seus interesses. O MBL, que andava sumido, voltou a mobilizar a massa verde-amarela, e um outro grupelho correlato conseguiu uma agenda com a presidente da Suprema Corte. Os setores da esquerda, ávidos por encontrar soluções, bateram cabeça, brigaram, se acusaram e criaram teorias de conspiração. No entanto, Lula, alvo da ação persecutória, permanecia sereno. Estrategista, Lula não estava resignado, como quiseram alguns. Estava seguro, jogando e dobrando a aposta.

Lula era mesmo uma ilha de tranquilidade em meio a um caos de ansiedade. O ex-Presidente declarou que não era mais um adolescente para acreditar em luta armada e garantiu que estava pronto para ser preso. Contrariando, momentaneamente, parte da militância, ele afirmou acreditar na Justiça brasileira – a despeito de toda perseguição que sofrera – e que não convocaria o povo às ruas. Fez questão, sobretudo, de afirmar e reafirmar que jamais fugiria do país. As suas declarações foram comemoradas na direita e geraram revolta na esquerda. Erraram todos. As duas – surpreendentes – vitórias de Lula na última quinta-feira no STF provaram isso.

Movimentos geniais são impossíveis de serem previstos, difíceis de serem entendidos e raramente falham. Lula optou por permanecer na legalidade e lutar dentro das instituições, mesmo após ter sofrido tantas derrotas em instâncias inferiores da justiça. Ele, mais que livre, quer ser Presidente novamente e na ilegalidade, sabia que se colocaria, definitivamente, fora do pleito. Uma vez nas urnas, Lula vencerá e esse é talvez o único caminho para se acabar com o golpe. A incômoda tranquilidade de Lula tinha mais um motivo: ele sabia que, mesmo no território do inimigo, poderia vencer.

Lula é um animal político. Conhece bem as regras e sabe jogar como ninguém. Sua popularidade fora do comum e sua história maiúscula lhe confere trânsito e respeito em todos os setores, mesmos nos mais sórdidos, da política nacional e internacional. Questionar sua estratégia e a de seu partido foi um erro de setores progressistas movidos por ansiedade – e me incluo nesse rol, quando sugeri a indicação imediata de um vice – ou por má fé. Que saibamos diferenciar uns dos outros. E que a justiça seja feita na próxima batalha, no dia 4.

Guilherme Coutinho, jornalista, publicitário e especialista em Direito Público. Autor do blog Nitroglicerina Política

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