17 de mar de 2018

Respostas ao coronel


Prezado coronel Lee Abe, pelo acaso dessas folhas que vagam pelo ciberespaço, acabei tomando contato com sua carta contendo as indagações que lhe assaltaram a alma advindas com o assassinato brutal da vereadora Marielle Franco.

Coronel, estou muito longe de ter as respostas para algo de tal grau de violência, duvido mesmo que alguém as tenha. Mas como sei o quanto é penoso um homem viver em dúvidas, tomo a inciativa de, com a tentativa de algumas respostas, buscar auxiliar a reduzir-lhe a angústia. Creio que o senhor faria o mesmo por mim.

Pois bem, o senhor começa sua carta aberta com a seguinte indagação: "por que o mundo inteiro respeita a polícia?".

Coronel, independente da autoimagem que o senhor nutra de si próprio e da corporação a que pertence, julgo que involuntariamente o senhor fez uso de uma hipérbole. Uma figura de linguagem válida, mas que carrega dentro de si um exagero. O mundo está muito longe de na sua inteireza respeitar a polícia. Não que ela não o seja, mas acredito que em boa parte a polícia seja mais temida que respeitada, quando não odiada. E odiada porque temida e respeitada onde não é temida. Quanto os policiais têm de responsabilidade nisso, não sei. Mas, sem dúvida, a têm mais do que os que respeitam, temem ou odeiam a polícia.

A seguir, ainda no mesmo tema, o senhor questiona: ”por que o mundo inteiro precisa da polícia?”. 

Polícia para quem precisa de polícia.

Coronel, a existência da polícia é função direta do nosso processo civilizatório ainda deficiente e incompleto. Quando finalmente civilizarmo-nos por inteiro, a polícia deixará de ter razão de existir. Muitos já sonharam com essa sociedade e buscaram construí-la. Cristo foi um deles. Nada é fácil. Mesmo o Cristo teve problemas com a polícia de Roma e acabou sentenciado à morte.

A seguir, em determinado momento da sua carta, o senhor indaga em relação à morte de Marielle Franco: “por que tanta tentativa de transformar essa vereadora em mártir?”.

Coronel, isso já é bem mais fácil de responder: porque ela foi martirizada em razão da causa que defendia. E quem dá a vida pela causa é mártir dessa causa. O senhor como militar reverencia Tiradentes, pois não? Um mártir da nação executado em praça pública pela polícia portuguesa do Brasil colônia. Hoje, somos um país independente e o saudamos como herói da pátria.

Quanto às outras indagações:

Ela representa o povo? Sim, vereadora democraticamente eleita; legítima representante do povo. O senhor preza a democracia e respeita seus resultados, por certo.

Que povo? O povo da cidade do Rio de Janeiro que a elegeu.

Qual segmento do povo? Parte da intelectualidade carioca, mas principalmente o povo das favelas, os negros e homossexuais – por quem Marielle fez sua opção preferencial.

Do cidadão de bem? Sem dúvida. Pobres, trabalhadores honestos e pagadores dos seus impostos. Aos pobres não é dada opção de ser diferente disso. O senhor, se acompanha o noticiário, já deve saber do banditismo que assola nossas classes mais abastadas. Não busque corruptos entre os eleitores de Marielle; os corruptos não votam em pessoas como ela.

Então o senhor se sai com: “a Polícia Militar, responsável pela morte de negros e pobres na ordem de 30% no país (segundo a vereadora) é morta por quem?”.

Não sei quem mata a polícia, coronel. Isso é função da própria polícia investigar e nos dizer.

E vai além: “nós, PM, saímos pelas ruas escolhendo 30% de negros e pobres para matar (hahaha). Quando atingimos a nossa quota diária, vamos completar nossa meta matando brancos, asiáticos e tudo o mais que aparecer na nossa frente. É assim que funciona?”.

Coronel, se o senhor quis ser irônico, acabou parecendo ser grosseiro. Sinto em dizê-lo.

Mas, existem estatísticas; e segundo o Atlas da Violência do IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - homens, jovens, negros e de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas no país. Os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças; já descontado o efeito da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência.

Quantas dessas mortes violentas se dão em confrontos com a polícia e em que circunstâncias? Não sei. Mas o senhor está do lado dos que também apertam gatilhos – eu não. Deve saber como a coisa funciona.

E o senhor prossegue: “e quando morrermos em combate, tentando salvar uma vida inocente que clama pela nossa presença, vamos aguardar pacientemente os políticos, a imprensa, autoridades que estão fazendo todo esse alarde pela morte dessa “pessoa” intitulada vereadora, promotora dos direitos humanos, mãe, homossexual (como ela mesma se apresenta) fazerem também o mesmo alarde exigindo respostas rápidas e firmes das autoridades?”. 

Que parágrafo longo, coronel. Quantos assuntos tratados no mesmo texto. Técnicas de redação não são seu forte, vê-se. Mas vamos lá.

Coronel, vou considerar que o senhor é ignorante quanto aos significados que possam ter o uso de aspas na linguagem escrita. Porque considerar que o senhor os conheça e mesmo assim referia-se à uma pessoa como sendo “pessoa” poderia leva-lo a responder por injúria. Não muito distante da injúria racial, por razões óbvias.

Coronel, Marielle não era “intitulada” vereadora; era vereadora diplomada pela Justiça Eleitoral.

Era mãe. Foi mãe muito jovem – aos 19 anos – pobre, solteira, favelada e soube como buscar no trabalho a forma de sustentar e educar a si mesma – socióloga com mestrado em administração pública – e sustentar e educar a filha que este ano busca a universidade. Mãe tanto quanto a sua mãe que, creio eu, não fez menos pelo senhor.

Quanto à homossexualidade – coronel, eu e senhor somos heterossexuais e jamais fizemos qualquer coisa para sê-lo. Não vamos, na idade que temos, considerar isso qualquer virtude. Somos o que somos. E ela também era o que era.

Tratemos, pois, dos policiais que morrem em ação. Ainda que, pelo menos aqui em São Paulo, a polícia muito mais mate em ação do que morra. Todos lamentamos tais mortesUma vez me ensinaram que o certo é quando, no final do dia, o bandido vai para a cadeia e a vítima e o policial voltam para suas casas. Quando qualquer um dos três morre, algo de muito errado aconteceu. Quem me ensinou isso era policial. Imagino que o senhor concorde com o colega.

Já quanto à sua declaração: “o mais incrível é declararem em coro que os matadores “sabiam atirar”, insinuando serem policiais”, ou o senhor é muito ruim em analisar indícios – o que deporia contra a sua competência como policial - ou parece estar querendo que acreditemos que o senhor é bem mais ingênuo do que realmente seja.

Por fim, o senhor fecha sua carta com: nós, policiais, temos uma missão muito maior do que essa mesquinharia. Somos muito mais do que “isso”. Somos a polícia!”.

Desculpe-me a franqueza, coronel, mas, na minha opinião, mesquinharia é só o que transpira desta sua carta e, fosse eu o seu comandante, o senhor seria punido pelo desserviço que com ela presta à corporação.

Sérgio Saraiva
No GGN

Um comentário:

  1. fala pra esse japonês voltar e exercer todo esse ódio no Japão e vamos ver o que acontece com ele lá nas terras do sol nascente! Tenho certeza que ele não falaria nada e ficaria na sua insignificância de um mestiço estrangeiro no país dos seus avós.

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