18 de mar de 2018

Quando Jango convidou JFK para conhecer as Ligas Camponesas

Dois anos antes do golpe, presidente brasileiro tentou colocar americano frente a frente com movimento popular

Líder brasileiro visitou colega americano também em 1962, em Washington
John Fitzgerald Kennedy não visitou o Brasil durante o período em que presidiu os Estados Unidos. Mas tentou. Programada para julho de 1962, uma viagem do então presidente americano precisou ser adiada para novembro. Em seguida, a crise dos mísseis soviéticos em Cuba levou a uma nova mudança de planos. No fim, a vinda nunca ocorreu, jogando fora a extensa preparação levada adiante pela diplomacia de ambos os países. A documentação das tratativas, no entanto, tem trechos curiosos e outros aterradores.

O cancelamento da viagem livrou o Departamento de Estado americano, por exemplo, de precisar resolver uma saia justa peculiar: em um dos pontos altos das conversas, Jango tentou - com muita insistência - convencer a diplomacia americana a incluir no roteiro de Kennedy uma escala em João Pessoa. Não seria, no entanto, uma escala comum. Segundo memorando assinado por Pierre Salinger, secretário de Imprensa da Casa Branca, o líder brasileiro, que viria a ser deposto em 1964 num golpe de Estado apoiado por Washington, afirmou que JFK seria recebido na capital paraibana por uma multidão de 25 mil integrantes das Ligas Camponesas. O movimento, liderado por Francisco Julião, era alvo, naquele ano, de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso brasileiro.

A ideia, ainda segundo o memorando de Salinger, seria permitir que os membros das Ligas mostrassem ao presidente americano que não eram um grupo comunista, mas sim pessoas comuns que defendiam a reforma agrária e, quando ela ocorresse, "buscariam assistência dos EUA para iniciar suas pequenas fazendas".



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Presidente brasileiro teria insistido na ideia, segundo relato diplomático

No dia 11 de julho, Kennedy enviou a Jango outra mensagem que fazia parte dos ajustes anteriores à visita. Desta vez, o presidente americano reclamava da falta de uma "solução para o problema" da expropriação de bens da Companhia Telefônica Nacional, uma subsidiária da americana International Telephone and Telegraph Company. A referência era à decisão do então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, genro de Jango. Kennedy e o embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, queriam uma saída para a questão antes da viagem.

Um mês antes, segundo a documentação diplomática, Gordon havia se reunido com Jango e, entre outros temas, tratado dos ataques públicos feitos por Brizola aos Estados Unidos. O americano queria que o presidente brasileiro deixasse clara, publicamente, sua discordância com as afirmações do governador gaúcho. Jango, relatou Gordon, limitou-se a responder que os laços de família não significavam obrigatoriamente um alinhamento de ideias, e aproveitou para tentar mudar, novamente, o itinerário de Kennedy em terras brasileiras.

"Goulart acrescentou que se o Rio Grande do Sul pudesse ser incluído no roteiro de Kennedy, o presidente teria uma recepção popular muito entusiasmada ali, demonstrando a falta de apoio à linha de Brizola", relatou o diplomata.

Menos pitoresco e mais assustador é o tratamento dado pela diplomacia americana ao assessor de imprensa de Jango, Raul Francisco Ryff. Em março de 62, em um memorando incluído entre os documentos preparatórios para a visita do brasileiro a Washington (ocorrida em abril), a inteligência do governo americano indica que a proximidade entre Goulart e Ryff poderia indicar que o presidente brasileiro estava inclinado a seguir uma "linha abertamente pró-comunista". Eram os primeiros passos do apoio americano ao golpe que se concretizaria em 1964.

Felipe Corazza
No CartaCapital

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