18 de mar de 2018

Puns

Bikini é o nome de um remoto atol no Pacífico onde os americanos faziam seus testes com bombas nucleares. Especulava-se sobre os efeitos dos testes na atmosfera e da sua irradiação na humanidade. E notícias de Bikini eram lembretes constantes da possibilidade de uma guerra nuclear que nos liquidaria a todos. Mas as notícias constantes também popularizaram o nome, que foi adotado para o maiô de duas peças reduzidas que começava a aparecer nas praias. Não sei de quem foi a ideia de chamar o novo maiô de bikini, nem se havia outro motivo para usar o nome além do fato de ele estar em evidência. Talvez uma alusão ao poder demolidor de corpos de mulher expostos de modo inédito? De qualquer maneira, o nome pegou. Dizem que o atol de Bikini ainda brilha no escuro e peixes mutantes nadam ao seu redor. A ameaça nuclear não terminou, mas, para o consumo do mundo, a banalidade derrotou o terror.

Em 1957, para espanto de todos e embaraço dos Estados Unidos, a União Soviética pulou na frente na corrida espacial, lançando o primeiro satélite artificial da Terra, o Sputnik. Os americanos responderam acelerando o seu próprio programa espacial, que acabou colocando um homem na Lua, mas durante algum tempo tiveram que conviver com aquela prova da superioridade científica dos russos girando sobre suas cabeças. Mesmo se, como diziam os cínicos, a única vantagem dos russos sobre os americanos era que tinham ficado com melhores cientistas alemães no fim da Segunda Guerra Mundial, para todos os efeitos de propaganda e autoestima a competição era entre dois sistemas, e o comunista estava ganhando. Mas, se se sentiam ameaçados pelo satélite russo, os americanos gostaram do nome. Em pouco tempo, o sufixo “nik” passou a ser usado para tudo nos Estados Unidos. Membros da geração “beat”, por exemplo, ficaram conhecidos como “beatniks”, embora em nada lembrassem uma bola dando voltas na Terra e fazendo “bip, bip”. Ou talvez, às vezes, lembrassem. No caso do Sputnik, também ganhou a banalidade.

Quando os alemães começaram a bombardear Londres na Segunda Guerra Mundial, o grande medo dos ingleses era que os nazistas usassem gás venenoso. Foi iniciado um programa de distribuição de máscaras contra gás para a população e há fotos de calçadas inteiras tomadas por mascarados, que se cruzam sem poder se reconhecer. As crianças iam para a escola de máscara, e não demorou para descobrirem que elas tinham outra utilidade, além de prevenir contra envenenamento. Soprando dentro das incômodas máscaras de um certo jeito, produzia-se o som de um pum, para grande alegria de todos. Um banal pum. Não se sabe se contaram a Hitler o que faziam as crianças de Londres. Se ele ficasse sabendo, talvez desistisse de derrotar a Inglaterra mais cedo.

Luís Fernando Veríssimo

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