28 de mar de 2018

O “self” servidor público


“- A Constituição? Ah, a Constituição Federal eu precisei estudar para passar no concurso!” Respondeu com um sorriso debochado o rapagão, quando perguntado se sabia que a Constituição Federal incorporou os chamados direitos humanos, com a denominação de direitos fundamentais. Na intimidade o rapagão concursado, servidor público, já havia dito num churrasco na casa do tio, com a palavra molhada e o coração aberto, que ninguém que é branco e tem dinheiro precisa de direitos humanos.

Bisneto de imigrantes, que “chegaram aqui sem nada e tiveram que matar índio pra plantar”, o servidor público, sinceramente, não acredita nessa balela toda de Constituição, Estado de Direito ou mesmo Estado. Na sua filosofia, herdada dos ascendentes europeus, o importante é confiar unicamente em si, aproveitar as oportunidades e não fazer o mal. Detesta política e noticiários, acredita no esporte, que salva pelo mérito individual.

À noite, nosso personagem, que assistia a uma série, escutou uma discussão no apartamento dos vizinhos. Aumentou o volume, foi buscar um refri, passou no banheiro e pode ouvir com nitidez: “- Seu assassino!” Fechou a basculante e voltou para o quarto. Dentro da sua bolha incorruptível o servidor goza dos benefícios de seu esforço e, quando desconfia de que sua tranquilidade está ameaçada, capricha em um novo modelo de fechadura.

Na sua ilha de trabalho, pela manhã, onde sempre se informa com os colegas sobre um benefício que saiu ou a progressão que estava trancada, onde compartilha memórias e desejos de viagens, ficou indignado ao saber que no instagram do sindicato foi publicada uma foto da vereadora Marielle com dizeres de pesar. “- Esse pessoal do sindicato fica defendendo bandido, não publica uma nota quando morre um policial e deixa de lado a defesa dos nossos interesses”,  falou sem levantar a cabeça, passando o dedo no celular.

Fim do expediente, já no estacionamento, piscando para recobrar os olhos das seis horas de luz fluorescente, o rapagão servidor se vê no reflexo do seu carro encerado e ri da resposta matadora que deu para a colega garantista, quando confrontado com o texto da Constituição: “A Constituição? Ah, a Constituição Federal eu precisei estudar para passar no concurso!” Não resistindo ao próprio triunfo, saca o celular do bolso e sorri para o seu selfie.

Désceo Machado é repórter em Florianópolis.
No Desacato

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