9 de mar de 2018

‘O maior volume de recursos dentro do governo federal está na Previdência Social’, afirma Dilma

Dilma posa para foto com as três meninas que cresceram no assentamento do MST: da esquerda para direita, Indaiá, Júlia e Eduarda
A terça-feira (06) foi diferente para Eduarda, Júlia e Indaiá, em Nova Santa Rita, município a 40 minutos de distância de Porto Alegre. Cada uma viveu a ansiedade para o que vinha de forma diferente. Júlia diz que segurou o choro algumas vezes. Indaiá saiu da escola mais cedo para se preparar. Eduarda largou a mochila correndo e foi escolher detalhes da roupa que iria usar. Por volta das 16h30, elas iriam ver a ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) falando com centenas de mulheres sem-terra, como elas, suas mães, irmãs, tias e primas.

Para as três meninas, nunca foi exatamente difícil imaginar um mundo em que uma mulher poderia ser presidente do Brasil. Julia e Indaiá tinham 6 anos quando Dilma foi eleita pela primeira vez. Eduarda tinha dois. As três cresceram vendo a foto dela, com a faixa verde e amarela, como a oficial do país. Ainda assim, dizem que ver até onde a petista chegou, também serve de modelo para elas.

“Porque ela é uma mulher que representa todas as mulheres. É muito bom saber que a gente pode chegar lá, ser presidente. Eu queria falar pra ela, que ela é muito especial”, afirma Indaiá Witcel Rubenich, 13.

Júlia, também de 13, lembra de ter assistido as votações do impeachment e se sentido “triste”. “Se eu pudesse, eu mudaria tudo”, diz. Os pais dela, assim como os das amigas, participaram da luta que criou o Assentamento Capela, prestes a completar 25 anos, no próximo dia 05 de maio.

A mais jovem do trio, Eduarda, conta que essa não é a primeira vez que vê Dilma ao vivo. Na época dos protestos contra o impeachment, ela estava acompanhando os pais e o tio, o deputado federal Dionísio Marcon (PT), quando “furou” a segurança e correu para tirar uma foto com a então presidenta.

Apesar do primeiro encontro, nessa terça, ela diz que ainda estava “nervosa”. “Ela é uma, como que se diz?” As amigas ajudam: “Inspiração”. “Isso. Porque eu quero ser policial ou do Exército e dizem que mulher não pode. Mas pode sim, pode ser o que quiser”. Se tivesse tempo de falar com Dilma, ela já teria o recado pronto: “Que ela foi uma mulher muito corajosa, por entrar na política. É isso só”.

Em Nova Santa Rita, Dilma falou para uma plateia majoritariamente de mulheres, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), entre outros. A petista agradeceu o apoio que recebeu delas, quando ainda lutava contra o impeachment, e pediu, por favor, que fizessem “um favor para o país” e votassem para ter mais mulheres na política.

“É organizar-se, ir para a rua e combater. Não escolher só o candidato à Presidência da República do seu coração. Do meu coração é o Lula. Mas, votar em candidatos a deputado e senador. É ingovernável esse país com esse Congresso. É assustador”, declarou ela.

“Vivemos um momento de crise, onde os golpistas querem nos derrubar e destruir. Mas estamos aqui firmes, fortes e corajosas”, disse Lúcia Vedovato, moradora do assentamento da Fazenda Annoni, no norte do Estado.

“Eu quero dizer pra vocês, não se iludam. Não é uma reforma para mudar a idade, ela é para acabar com a Previdência pública”

Reforma da Previdência

Dilma falou rapidamente sobre a Reforma da Previdência, uma das pautas urgentes do governo de Michel Temer (MDB), seu ex-vice, que não conseguiu ir à votação em fevereiro. Essa era a previsão do próprio Palácio do Planalto, que investiu em anúncios na TV e internet sobre as “vantagens” de aderir à nova forma.

“Por que eles querem ganhar a eleição? Porque eles não tiveram tempo de fazer a Reforma da Previdência. A eleição se aproximou, os deputados são tudo, menos suicidas, e não vão votar. Mas, não falaram que não iriam votar nunca. A ameaça está aí. Eu quero dizer pra vocês, não se iludam. Não é uma reforma para mudar a idade, ela é para acabar com a Previdência pública. Vai diminuir os benefícios dela, de forma que você tem que buscar a privada. Eles querem botar a mão nos bilhões de reais da Previdência. Eu quero que vocês saibam, que tenha essa informação: dentro do governo federal, o maior volume de recursos está no Ministério da Previdência Social. Não está na Fazenda, no Banco Central ou no BNDES. Está na Previdência. Botar a mão no dinheiro dela, foi feito nos EUA, em quase todos os países capitalistas do mundo e querem fazer aqui”.

A ex-presidenta, que foi Secretária de Energia do governo Olívio Dutra (PT), também criticou as vendas que vem sendo administradas pelo governo de seu vice. Vencer as eleições de outubro seria um passo importante, para quem esteve a favor do seu impeachment, conseguir terminar outros processos do golpe. As vendas de Petrobras, Banco do Brasil, Eletrobrás, estariam entre os ativos a serem negociados.

Dilma criticou ainda a decisão do ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM), que ameaçou proibir cursos em faculdade que trabalhassem a questão do “Golpe de 2016”. Ela o definiu como “uma pérola rara” que não preza por “primazia de inteligência”. Uma vez que a sugestão de censura aos cursos começou a surgir, a ideia do golpe de 2016 se popularizou ainda mais.

“Ou nós passamos a olhar a importância de eleger mulheres e homens, deputados federais e senadores, só aí vamos conseguir aprovar uma boa reforma tributária”

Jabuticabas e jabutis

Em sua fala principal, Dilma reiterou algumas questões que vem abordando há algum tempo em suas entrevistas. “Sofri dois golpes na minha vida. O primeiro, que me levou presa, lutando contra o regime militar. O segundo, foi o impeachment, sem crime de responsabilidade que pudesse justificar meu afastamento. Nós vimos o que aconteceu a partir daí, uma camarilha de corruptos, de pessoas que não têm o menor compromisso com esse país, assumiu o governo. Esse golpe parlamentar não é um ato só, ele é um processo. Dentro do processo, o impeachment é um ato inaugural”, disse ela.

Dilma ainda abordou dois pontos que disse considerar essenciais nos debates à frente: a questão tributária e a má distribuição de patrimônio, que leva milhões a viverem sem-teto nas regiões urbanas de todo o país. “Eles falam que a carga tributária no Brasil é alta. Ela só é alta para quem ganha salário. Para os demais, não é alta, pelo contrário. No Brasil, não cobramos lucro sobre dividendo, sobre grande capital. Um trabalhador que trabalha, trabalha, vai lá e paga imposto sobre o salário. O dono do capital não paga juro sobre o lucro que recebe sobre dividendo. Nós e a Estônia somos os únicos países do mundo que não pagamos. Essa regra tem que acabar, para acabar com a desigualdade”, explicou Dilma.

Ela afirma ainda que o que permitiria a evasão fiscal, são as chamadas “jabuticabas tributárias” – esquemas e brechas da lei. A ex-presidenta também contou que, cada vez que seu governo tentava mexer na questão tributária, encontravam o que se chama no meio político de “jabuti”. “Ou nós passamos a olhar a importância de eleger mulheres e homens, deputados federais e senadores, só aí vamos conseguir aprovar uma boa reforma tributária. Toda vez que passávamos por uma, vinha aquilo que chamam de ‘jabuti’. Sabe por que chamam assim? Por conta de um ditado do nordeste: se jabuti está na árvore é porque houve enchente ou porque foi mão de gente. Como não tinha enchente nas leis, era mão de gente”.

Apesar de pequenos avanços nos governos do PT, Dilma avalia que a reforma urbana, a questão da moradia para milhões de pessoas, ainda é uma das pautas urgentes. A distribuição de terras, segundo a ex-presidenta, estava em curso, mas não pode ter continuidade.

Algo que terá de mudar pra as eleições de outubro.“Aqui não se volta atrás. Essa é a mensagem que Dilma nos traz e nos desafia a lutar”, afirmou Salete Carolo, integrante do MST, pouco antes dos cantos repetiram em coro, no ginásio do evento: “Sem feminino, não é socialismo”.

Confira mais imagens da visita de Dilma ao assentamento:


Fernanda Canofre
Fotos: Guilherme Santos
No Sul21

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