17 de mar de 2018

Líderes da direita respondem ao assassinato de Marielle Franco com abusos, politicagem e silêncio


O Rio de Janeiro está em luto oficial. Manifestações estão sendo organizadas em cada canto do Brasil. Mas a blogosfera da direita está sambando.

Eu não ia ler. Podia imaginar quão cruel e insensível os pitbulls da direita poderiam ser sobre o assassinato brutal da vereadora Marielle Franco, mas queria acreditar que poderia ser um momento em que todo mundo esquece dos seus lados e lamenta juntos um ato de barbárie. Houve exceções, mas, em geral, não foi o caso.

Segue abaixo uma catarata dos piores exemplos de humanidade hoje, selecionados só entre pessoas e páginas com uma voz poderosa e com muitos seguidores. Não recomendo para quem tem hipertensão. (Obs.: Não vou linkar nenhum deles aqui porque não sou obrigado. Se tiver curiosidade, pode procurar nas redes.)

O Alexandre Borges usou o momento para chamar a resposta efusiva em apoio a Marielle de “Orwellian”:

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Foto: Reprodução/Facebook

O Antagonista afirmou que a morte dela precisa ser apurada “para dissipar qualquer dúvida em relação à missão militar” de intervenção no Rio:

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Foto: Captura de tela

Também aproveitou a oportunidade para comentar o impacto negativo que o assassinato poderia ter na possível candidatura de uma figura conservadora, Bernardo Rocha de Rezende, o Bernardinho:

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Foto: Captura de tela

A página “Eu Sou Direita” escreveu um textão descolado atacando as políticas de segurança pública do PSOL. Conseguiu usar as palavras “estupradas”, “pedófilo” e “Batman”. Apesar de ter muita especulação que o assassinato pode ter sido ordenado por PMs ou milicianos, a página declarou que o assassinato foi “mais uma morte ridícula na conta da esquerda que vive passando a mão na cabeça de vagabundo!!!”. Ou seja: culpou Marielle pela própria morte:

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Foto: Reprodução/Facebook

O MBL, que nunca perde uma oportunidade como essa, acrescentou sua contribuição ao debate:

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Foto: Reprodução/Facebook

A página “Caneta Desesquerdizadora”, com mais de 588 mil seguidores, atacou Lula para mandar seus sentimentos, chamando ele de “safado” e “pilantra” e relembrando sua esposa falecida e supostas crimes do PT (e postou um pedido de doações no pé):

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Foto: Reprodução/Facebook

A página e site “Ceticismo Político” publicou um post com o título “PT e PSOL desrespeitam o cadáver de Marielle ao utilizá-la para fins políticos e torpes”. O cerne da crítica é que aliados estão especulando sobre os possíveis motivos que poderiam ter provocado o atentado:

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Foto: Captura de tela

O vereador Fernando Holiday quase conseguiu ser um ser humano minimamente decente ao postar uma “nota de pesar”, mas no pé ele não decepcionou e atacou o PSOL pelo “uso político dessa tragédia”:

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Foto: Reprodução/Facebook

Porém, duas horas antes, ele tinha atacado o PSOL por ser contra a intervenção militar no Rio de Janeiro, afirmando que o partido “apoia a ditadura socialista militar na Venezuela”:

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Foto: Reprodução/Facebook

O Ceticismo Político concordou:

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Foto: Reprodução/Facebook

E tem isso da Alerta Leblon também:

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Foto: Reprodução/Facebook

Enquanto isso, o prefeito do Rio de Janeiro começou seu dia como se fosse qualquer outro, e visitou a Pedra de Guaratiba para falar sobre reformas nas escolas (postou uma nota de pesar ontem à noite):

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Foto: Reprodução/Facebook

As páginas de Facebook e Twitter de Jair, Flavio, Carlos e Eduardo Bolsonaro não têm nenhuma menção da morte de Marielle.

Eu não acredito que você não possa falar mal de figuras públicas falecidas. Não precisa e não deve ignorar os crimes de assassinos em massa e pessoas que diretamente provocaram muito sofrimento. Mas deve ser baseado em fatos e com um mínimo de decência humana. Os posts acima me impressionaram como particularmente grosseiros e, muitas vezes, incoerentes.

Nunca imaginei que diria isso, mas todos eles poderiam aprender uma coisa com o PSDB:

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Foto: Reprodução/Facebook

Andrew Fishman
No The Intercept



Marielle e o ódio fascista na internet

Ilustração: Titi Carnelós
O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) causou uma comoção nacional. Milhares de manifestantes saíram às ruas em várias cidades nesta quinta-feira (15) para exigir justiça e o fim da onda de ódio e preconceito que cresceu no país desde a cruzada golpista contra a nossa democracia. Até a TV Globo, que sempre inviabilizou a luta das forças democráticas por direitos humanos, foi forçada a recuar, tentando capturar o sentimento de revolta da sociedade. Mas nas redes sociais, os fascistas voltaram a sair do esgoto para destilar seu veneno. Alimentados por alguns “calunistas” da mídia tradicional e por grupelhos da extrema-direita, eles culparam a própria vítima pela barbaridade cometida.

Os comentários no site Antagonista, editado por “celebridades” da velha imprensa – como Diogo Mainardi, da TV Globo, e Mário Sabino, ex-chefão da Veja –, mostram que tipo de gente foi chocada nesta cloaca. Um internauta doente rosnou: “Ela não queria uma polícia e a guarda metropolitana desarmados? Colheu o que plantou”. Outro mais psicopata atirou: “Parece que a vereadora nutria uma simpatia pelos manos, já que nunca se viu ela lamentar pelos policiais mortos covardemente pelos traficantes... Quem semeia ventos, colhe tempestade”. Já outro maluco afirmou que a culpa pelo assassinato é do “bando de vagabundos comunistas que destruíram o país e provocaram o genocídio de 1 milhão de brasileiros”. Um quarto babou: “Menos uma petralha no mundo”.

Como estas excrecências – bastam estas para não causar vômito –, são várias as mensagens festejando a morte de Marielle Franco, atacando os que lutam por direitos humanos e demonizando as forças de esquerda. O site Antagonista, assim como outras páginas de extrema-direita, preferiram adotar a cautela nas suas postagens. Mesmo assim, não esconderam seu ódio visceral às esquerdas e seu apoio – sabe-se lá a que preço – à intervenção decretada pelo covil golpista no Rio de Janeiro. “Ninguém sabe quem executou a vereadora. É essencial, porém, que seus assassinos sejam encontrados e punidos para dissipar qualquer dúvida em relação à missão militar”, opinaram os militaristas e golpistas da página.

Já o site do sinistro Movimento Brasil Livre (MBL) tentou minimizar o assassinato da vereadora. “Sim, todos os homicídios no Brasil são políticos. Todos os mais de 60 mil”. Para o grupelho fascista, estes assassinatos decorrem da “desvalorização das polícias, da glamourização de bandidos, da lei penal branda, da justiça que manda soltar, do desarmamento do povo”. O vereador do MBL na capital paulista, Fernando Holiday, até postou uma “nota de pesar”, mas logo desferiu seus ataques doentios ao PSOL “pelo uso político dessa tragédia”. Os caras são doentes! Ou para ser mais preciso: são cúmplices dos assassinos de Marielle Franco!

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