31 de mar de 2018

Jornais argentinos fechados ou abandonados pelos donos são recuperados por cooperativas de seus trabalhadores


No fim de 2001, a crise política e econômica da Argentina foi o principal tema na cobertura jornalística latino-americana. A recessão econômica que culminou em intensos protestos populares e na renúncia do então presidente Fernando de la Rúa também fomentou um fenômeno peculiar: o das empresas recuperadas por seus trabalhadores.

Desde então, a conformação de cooperativas de trabalhadores para recuperar empresas prestes a fechar as portas ou já com falência declarada se tornou algo recorrente no país, especialmente nos setores têxtil e metalúrgico. No entanto, nos últimos dois anos e pela primeira vez, os meios de comunicação foram a maior parte das empresas recuperadas na Argentina no período, segundo levantamento do Programa Facultad Abierta da Universidade de Buenos Aires.

Entre 2016 e 2017, pelo menos seis meios foram recuperados por seus trabalhadores após terem sido fechados ou abandonados por seus donos: os jornais locais La Nueva Mañana, de Córdoba; El Ciudadano, de Rosario; La Portada, de Esquel; e El Correo, de Firmat; mais o jornal Tiempo Argentino e o portal de notícias online Infonews, ambos sediados em Buenos Aires. No levantamento anterior, referente ao período entre 2010 e 2013, o Programa Facultad Abierta registrou a recuperação de apenas um meio de comunicação.

Para especialistas e jornalistas destes veículos ouvidos pelo Centro Knight, trata-se de uma reconfiguração do panorama midiático do país que se conecta à relação entre meios e governos, mas que também representa novos caminhos para o jornalismo na Argentina.

“Por mais tempo”

A cientista social Natalia Bauni, do Observatório Social sobre Empresas Recuperadas e Autogeridas (Osera), também da Universidade de Buenos Aires, disse que o ponto central da recuperação de empresas por seus trabalhadores é a conservação dos postos de trabalho.

“Longe de ter uma característica revolucionária ou de ataque ao sistema, o ponto central é que a maioria são trabalhadores assalariados mais velhos, para quem seria praticamente impossível reinserir-se no mercado de trabalho”, afirmou Bauni. “A cooperativa foi apenas um modo legal de defender o trabalho”, disse a cientista social, citando a Lei de Quebras argentina, que prevê esta modalidade de recuperação de empresas falidas.

O antropólogo social Andrés Ruggeri, diretor do Programa Facultad Abierta, lembrou que antes de 2016 havia casos de meios recuperados e administrados por cooperativas de trabalhadores, em sua maior parte no interior do país. Entre eles estão Comercio y Justicia, de Córdoba, e El Diario de la Región, no Chaco argentino, ambos refundados em 2002, auge do fenômeno das empresas recuperadas, e a Revista Cítrica, surgida após o fim do jornal Crítica, em 2010.

Tiempo Argentino team (Courtesy)
Em dezembro de 2015, o panorama midiático do país muda junto com a ruptura política efetivada com a eleição e posse de Mauricio Macri como presidente depois de 12 anos de governos Kirchner, com Néstor (2003-2007) e Cristina Fernández (2008-2015).


Em maio de 2016, representantes da Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa (FATPREN, na sigla em espanhol) participaram de reunião da Comissão de Liberdade de Expressão da Câmara de Deputados e afirmaram que, até o momento, a entidade havia registrado cerca de 2.500 demissões no setor. Já em novembro do ano passado, houve uma nova reunião entre deputados e representantes de trabalhadores da comunicação em que estes últimos pediram que fosse declarada “emergência trabalhista” no setor pelas demissões e fechamento de meios.


“Neste panorama, aparece como primeira empresa recuperada do período macrista justamente um meio de comunicação, o jornal Tiempo Argentino”, disse Ruggeri.


O caso de Tiempo é emblemático deste fenômeno recente no país. O jornal foi fundado em 2010 pelo empresário Sergio Szpolski e era parte do Grupo 23 de mídia, de propriedade de Szpolski e Matias Garfunkel. Composto por nove meios, entre jornais, rádios, sites de notícias e um canal de TV, o grupo foi o que mais recebeu verbas de publicidade oficial do governo entre julho de 2009 e julho de 2015, durante o governo Fernández de Kirchner, segundo reportagem da revista Perfil.


Com a troca de governo, logo em dezembro de 2015 os trabalhadores de Tiempo Argentino deixaram de receber seus salários, contou Javier Borelli, jornalista e presidente da cooperativa Por Más Tiempo. “O diário se sustentava em boa parte com o que o dono recebia do governo anterior. Quando o governo anterior se vai, o dono deixa de pagar os salários e desaparece”, disse Borelli.


Em fevereiro de 2016 o jornal deixou de ser impresso. Depois de três meses trabalhando sem receber e de tentativas de contatar o dono do jornal e entender qual seria o futuro de Tiempo Argentino, os cerca de 100 jornalistas decidiram se organizar e ocupar a redação “enquanto decidíamos de que maneira seguir adiante”, afirmou. Uma das decisões foi produzir uma edição especial impressa a ser vendida na manifestação em Buenos Aires do dia 24 de março, data anual em que a Argentina lembra os 30 mil mortos e desaparecidos pela ditadura militar entre 1976 e 1983.


Os próprios jornalistas foram para as ruas da capital argentina para vender os exemplares do especial e perguntar ao público se havia interesse em continuar apoiando Tiempo se o jornal fosse recuperado por seus trabalhadores. Os 30 mil exemplares impressos foram vendidos e a resposta do público foi positiva. “Decidimos então repartir o dinheiro arrecadado entre os que não recebíamos há três meses e guardar o resto para fazer as primeiras duas edições de um diário cooperativo”, contou Borelli. A primeira edição de Tiempo Argentino como cooperativa foi lançada um mês depois, em abril de 2016.

Attack at Tiempo Argentino (Courtesy)
Três meses depois, com a redação ainda ocupada por três jornalistas da cooperativa que guardavam o local, um grupo de cerca de 20 homens invadiu na madrugada o prédio, que também abrigava a Rádio América, também parte do Grupo 23. Eles expulsaram as pessoas que lá se encontravam e destruíram equipamentos de trabalho da redação de Tiempo. O empresário Mariano Martínez Rojas foi acusado de usurpação e danos pela destruição do prédio, reportou La Nación. De acordo com notas publicadas na ocasião, Martínez Rojas afirmava ter comprado Tiempo Argentino e Radio América. No entanto, Tiempo reportou em setembro que o empresário “nunca pôde comprovar na Justiça a propriedade do meio”. Ainda assim, outras histórias na mídia argentina e internacional se referiam a ele como o dono do jornal.


O incidente foi condenado por várias organizações argentinas e internacionais, entre elas a Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que pediu ao Estado argentino que investigasse o caso. No entanto, as investigações não avançaram e a causa judicial relativa ao ataque até hoje não foi julgada, disse Borelli. Já Martínez Rojas foi detido por autoridades norte-americanas em janeiro de 2018 em Miami, onde se encontrava foragido de acusações da Justiça argentina de extorsão, ameaça e lavagem de dinheiro.


A redação de Tiempo se mudou então para outro prédio e lá hoje trabalham 100 pessoas, entre jornalistas, designers, fotógrafos e funcionários da administração do jornal. “Alguns jornalistas somente se dedicam ao trabalho jornalístico, outros têm uma dupla função: seguem escrevendo para o jornal e às vezes cuidam das relações comerciais, da organização do trabalho ou das tarefas administrativas”, disse Borelli.


O jornal também deixou de ser impresso diariamente e hoje sai em papel somente aos domingos, quando tem uma circulação de 30 mil exemplares. “Consideramos que temos um diário digital de segunda a sábado e uma edição em papel aos domingos”, explicou o jornalista.


Desde sua conformação como cooperativa, Tiempo Argentino buscou fortalecer sua relação com leitores, convidando-os a ajudar a sustentar o jornal. Segundo Borelli, 70% da renda de Tiempo vem de contribuição de leitores, tanto os que compram ou assinam o diário impresso aos domingos como os que se associaram ao jornal e pagam cerca de 120 pesos ao mês (cerca de R$ 20). Outros 20% são arrecadados por venda de publicidade e 10% por atividades realizadas pela cooperativa como oficinas de jornalismo e eventos culturais.


“Hoje temos quase dois mil sócios, e além deles, cerca de 2.500 assinantes do jornal”, disse Borelli, para quem nos últimos dois anos “despertou mais forte na Argentina a lógica de que os leitores também se sentem responsáveis por financiar um meio de comunicação e entender que a produção jornalística é algo caro, e que vale a pena contribuir para produzir informação necessária.”

Responsabilidade das empresas


Outro meio argentino recuperado por seus trabalhadores em cooperativa em 2016 foi Infonews, que se tornou o primeiro portal de notícias online recuperado no país. Fundado em 2008 como o portal de notícias do Grupo 23, Infonews reunia o material publicado nos outros meios do grupo - Tiempo Argentino entre eles - e também produzia seu próprio conteúdo com os cerca de 50 jornalistas e funcionários da redação.


Isso até fevereiro de 2016, quando os trabalhadores deixaram de receber seus salários, contou Daniel Jatimliansky, secretário da cooperativa dos trabalhadores de Infonews. Diferentemente do que aconteceu com os outros meios do grupo, em que não houve um fechamento oficial por parte dos donos, a empresa chegou a anunciar o encerramento do portal em maio de 2016.

Infonews team (Courtesy)

Neste momento começaram as conversas entre os trabalhadores sobre formar uma cooperativa para recuperar o portal, disse Jatimliansky. “O esvaziamento do Grupo 23 afetou 800 companheiros. A alternativa era sair a procurar emprego em um mercado laboral com muita demanda, pouca oferta e cada vez mais precarizado, ou tentar sustentar nossas fontes de trabalho”, afirmou o jornalista.


Após fracassarem as conversas com a empresa sobre as indenizações devidas, os trabalhadores avançaram na conformação da cooperativa e colocaram o portal novamente no ar em agosto de 2016, agora com aproximadamente 20 profissionais na equipe. Assim como Tiempo, Infonews também conta com um programa de sócios, cujas contribuições são a principal fonte de renda da cooperativa, somadas à venda de publicidade e serviços editoriais.


Para Jatimliansky, a escassa oferta de trabalho para profissionais da comunicação na Argentina hoje e a experiência prévia de outros trabalhadores com a recuperação de empresas faz com que essa seja uma alternativa viável para a sobrevivência de meios após a desistência de seus donos. Ele ressalta, porém, a responsabilidade das empresas e do Estado nas situações vividas não só por Infonews e Tiempo Argentino, mas também La Nueva Mañana, El Ciudadano e La Portada.


“O fim do Grupo 23 foi a ponta de lança que demonstrou que era fácil não cumprir com as obrigações patronais, salariais e fiscais sem consequências legais”, disse Jatimliansky. “Embora possa ter certo tom épico a recuperação de um meio de comunicação e a gestão em forma cooperativa, o Estado tem a obrigação de evitar que empresas quebrem e exigir que os empresários cumpram com as obrigações que têm perante os trabalhadores”, acredita.

“La grieta”


A cientista social Natalia Bauni avalia que o fenômeno recente dos meios de comunicação recuperados na Argentina está ligado a um debate que se acendeu durante o governo anterior sobre um suposto aprofundamento da divisão entre setores então governistas e antikirchneristas, que ficou conhecida como “la grieta” (“a fenda”).


Essa divisão teria se refletido também nos meios de comunicação, com alguns tidos como oficialistas - e que também foram beneficiados por​ grandes quantias de publicidade oficial, como o Grupo 23 - e outros oposicionistas, como aponta reportagem do El País. Com a ascensão de Mauricio Macri, o corte na verba de publicidade estatal sela o colapso ou enfraquecimento de meios considerados kirchneristas. Essa verba passa então a ser direcionada a meios supostamente mais alinhados com o macrismo.


Segundo análise de Chequeado, em 2015, último ano de governo Fernández de Kirchner, os cinco grupos mais beneficiados pela publicidade estatal foram o 23, América, Indalo, Albavisíon e Clarín, que juntos ficaram com 33% do total da verba distribuída pelo governo. Em 2016, primeiro ano de governo Macri, somente o Grupo Clarín recebeu 21% do total daquele ano, quase a soma direcionada aos quatro grupos seguintes: Telefónica, Indalo, América e La Nación.


“Não se pode destinar dinheiro público a construir jornalismo oficialista”, criticou Fernando Ruiz, professor de jornalismo e democracia na Universidade Austral, em Buenos Aires, em conversa com o Centro Knight. Ele defende, porém, que o Estado invista na construção de um jornalismo de qualidade e que incentive a autossuficiência dos meios de comunicação.

Tiempo Argentino Assembly (Courtesy)
“Não se trata de mais uma indústria, mas de uma instituição democrática. Portanto, esse dinheiro público que sempre fluiu em direção aos meios de forma perversa, agora há que fazer com que flua de uma forma democrática e transparente”, acredita.


Para o professor da Universidade Austral, as cooperativas de jornalistas e a autogestão dos meios por seus trabalhadores é benéfica à pluralidade no jornalismo e à democracia. “A liberdade de expressão em um país está muito relacionada com a pluralidade nas formas de propriedade de seus meios de comunicação”, disse Ruiz, que acredita que a sociedade se beneficia quando há “um mix” entre propriedade estatal, comercial e social dos meios. “Nesse esquema misto, é muito difícil que temas importantes sejam deixados de lado no debate público”, afirma.


Jatimliansky, do Infonews, acredita que a chamada “grieta” na mídia argentina indica na verdade a pluralidade de vozes e meios que se estabeleceram nos últimos anos. “Existem diferenças editoriais visíveis [entre vários meios]. Quando não se falava da ‘grieta’, na realidade havia uma ausência de vozes diversas e divergentes, ao menos em forma massiva”, afirmou o jornalista.


Um inconveniente dessa ideia de divisão é “o risco de estigmatização de alguns jornalistas e meios”, comentou Jatimliansky, acrescentando que, por isso, Infonews hoje posiciona claramente seu jornalismo: “lutamos pelos direitos humanos e pela liberdade de gênero, nos identificamos como trabalhadoras e trabalhadores e temos uma linha editorial progressista e popular”.


No caso de Tiempo Argentino, ainda mais identificado com o antigo alinhamento de seu ex-dono ao governo Fernández de Kirchner, essa estigmatização se deu com a classificação do jornal como “kirchnerista”. “Hoje nós que fazemos Tiempo Argentino somos os trabalhadores, não o dono anterior, e o nosso não é um meio kirchnerista”, disse Javier Borelli. “Não pretendemos atar nosso meio a nenhum partido político, nem kirchnerista, nem de esquerda, nem de nenhum tipo.”

Crise e oportunidade


Embora surgidas de situações dramáticas, as cooperativas de jornalistas dedicadas a recuperar meios abrem novos caminhos para os profissionais e para o jornalismo, acredita Borelli. Segundo ele, a experiência de Tiempo Argentino tem sido muito interessante e inovadora, tanto para os jornalistas como para o panorama midiático na Argentina. “De alguma maneira, Tiempo conseguiu provar que era possível fazer um meio cooperativo e sustentado pelos leitores”, afirmou.


Para Borelli, a experiência de Tiempo “abre expectativas em um momento em que se estão perdendo muitos empregos e a informação está limitada pelos interesses dos donos [dos meios]. Assim como é um momento de crise, também pode ser um momento muito interessante para explorar outras formas de fazer jornalismo.”


Central no novo Tiempo, segundo ele, é a intenção de que “os valores do jornalismo voltem a ser informar a sociedade, armar uma agenda em que sejam centrais os direitos humanos e o olhar para a população, não necessariamente os interesses dos donos dos meios”.


Nesse sentido, o objetivo dos trabalhadores de Tiempo Argentino para os próximos anos é “armar um espaço de comunicação na América Latina que privilegie o jornalismo e os valores jornalísticos sobre o negócio”, disse Borelli. A ideia é promover um congresso ainda em 2018 em Buenos Aires de jornalismo autogerido, que reúna experiências de toda a região de meios administrados por jornalistas.


“Acredito que ter uma rede que esteja vinculada a partir do jornalismo e não dos interesses de seus donos vai permitir outro olhar sobre o que está acontecendo na região”, afirmou.

Carolina de Assis
No Journalism in the Americas

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