2 de mar de 2018

Huck, Frias, Leifert e a morte da aristocracia do texto


Grande parte da frustração/incompreensão/fobia dos colunistas "old school" com relação ao Facebook é puramente de ordem libidinal. É algo tão simples de explicar que chega a dar preguiça. Por isso, vou complicar um pouco e vou acrescentar outros ‘sujeitos’ à pesquisa.

Não se trata apenas de colunistas, bem entendido. São artistas, escritores, celebridades e subcelebridades com pendores político-existenciais de toda sorte e uma dose maciça de PCA (Puta Carência Afetiva) - além, é claro, do péssimo hábito de serem paparicados desde a mais tenra construção analógica da fama.

Sim, essas criaturas são do período pré redes sociais e não se adaptaram a ele. A seleção natural já os excluiu desse processo da evolução do universo simbólico-social. A transição, no entanto, é lenta. Eles vão reclamar até que ninguém mais dê bola (até a imprensa deixar de publicar suas reflexões profundas e saudosistas).

O elemento homenageado de hoje é o colunista de jornal tradicional. Mas poderia ser um ator da Globo, um ex-participante de BBB, um jogador de futebol, um escritor consagrado, um professor renomado, um apresentador de televisão ou mesmo o publisher da Folha de S. Paulo, Otávio Frias Filho, que recentemente brindou seus leitores com a frase "o jornalismo é um mal necessário".

O ponto é: essas personagens não sabem escrever no mundo real da escrita digital, a mais massiva e interativa da história. Eles têm imensos preconceitos e se autolimitam em função destes. No caso dos atores globais e esportistas-celebridade, o buraco é até mais embaixo: eles não sabem sequer redigir um texto - vide Luciano Huck e Thiago Leifert.

Qual a consequência disso? Eles são obrigados ou a se auto excluírem das redes sociais ou a comprar likes e compartilhar conteúdo. Em geral, um media training, um personal stylist e um ghost writer podem dar conta de criar alguma vida digital a esses analfabetos textuais. Mas, o mais simples é reclamar ou se afundar no Twitter que se contenta com 280 caracteres.

Facebook para eles é terminantemente proibido, porque Facebook é, em grande medida, texto. O usuário de Facebook  precisa saber se comunicar de alguma maneira que não seja a mesmice fática e oral do dia a dia. Ou: precisa entrar no jogo e ter humildade.

Mas como uma celebridade vai ter humildade? Como um ator que recebe 500 vezes mais que um professor vai se dispor a argumentar em rede social? Como um jogador de futebol ou um apresentador de televisão que faturam milhões vão ter a condição de mobilizar algum tipo de concentração cognitiva para redigir ou debater seja lá o que for?

Como um intelectual com vários livros publicados vai descer do pedestal de celebridade editorial para argumentar com os usuarios reais que habitam as redes e demandam por sentidos reais - não aquele biscoitinho meio acadêmico, meio autoajuda, meio palestra motivacional e fruto da mais domesticada e luminosa “bolha”?

Esses usuários operam apenas com as respectivas famas pessoais. Não vivenciam as redes. No fundo, eles as desprezam, porque elas lhe tiraram boa parte das máscaras. Estar cara a cara com um leitor de posse do gesto de enunciar não é para qualquer um. Esses usuários antiquados e deslocados arrebanham fans clubes e vivem justamente do like que criticam tanto, o "like das celebridades", o "like de favor", o "like sem sentido concreto".

Aquela proteção da celebridade garantida por imprensa e editoras deixa de existir. No facebook, ou é cara a cara ou é um prolongamento obsoleto das relações frias testemunhadas em lançamentos de livros com vinho branco e bolachinha. A impossibilidade de dar um autógrafo na rede social lhes deve ser extremamente incômoda.

De sorte que eles criticam as redes sociais da alvorada ao crepúsculo de seus dias emocionantes e assaz reais. Convenhamos: alguém já viu perfil real de celebridade em rede? São raros. Fazem fanpages, o que é mais "seguro". Justificam que há muito ódio digital (haja covardia e falta de conteúdo).

Tome-se perfis de jornalistas renomados, veteranos e ver-se-á uma caverna escura repleta de teias de aranha. Isso é inadmissível para um profissional de tantas glórias. Portanto, que se critique as redes diuturnamente.

É curioso, porque o ódio digital é, no fundo, oriundo desses rebentos do showbiz sub intelectual. Demétrio Magnoli, Clóvis Rossi, Otávio Frias, Eliane Cantanhêde e Merval Pereira amargam o autoexílio consentido de uma plataforma genial, por pura arrogância.

Eles, no fundo - na profundeza mariânica de seus inconscientes rochosos -, ressentem-se de não poder usar a plataforma. Veem-se autolimitados, escravizados no cativeiro das redações, editoras e festinhas patrocinadas. É uma solidão sem precedentes.

Isso é, sem dúvida, uma quebra de paradigma. Aquela idolatria, aquela admiração por um ator, por um escritor, vira pó, quando você lê o que ele é capaz de escrever numa rede social. Caem no ridículo com imensa frequência e isso vai minando o psicológico já frágil destes seres tão mimados pela estrutura de proteção intelectual-social presente na ceninha retrô das TVs, livros físicos e palestras.

Esse mundo acabou. Como o golpe - que também acabou - ele só esqueceu de ir embora. Pode demorar, mas uma hora ele vai - e já irá tarde.

Eles vão continuar se escondendo nas mídias ultrapassadas. Uma entrevista no Serginho Groisman, uma entrevista à Fátima Bernardes, uma aparição na Globonews, um artigo na Folha de S. Paulo, um livro publicado pelo editor amigo, uma foto na coluna social, um prêmio de alguma revista, enfim, alguma atividade redentora para fazer a manutenção de vidas tão bem sucedidas e inesquecíveis.

Quando tiverem de escrever de verdade, de posse de algum sentido, eles virão às redes com a imensa prepotência habitual e nos garantirão a diversão da semana. Até lá, só nos resta não ler os seus livros e artigos. Ou não. Para falar a verdade, a última vez que li o Luciano Huck, eu me diverti pra caramba.

Gustavo Conde
No GGN

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