23 de mar de 2018

Estudo responsabiliza MBL por fake news sobre Marielle


O rastro da campanha difamatória nas redes sociais contra Marielle Franco, assassinada na semana passada, aponta que um site de opinião política ampliou de forma decisiva a repetição de falsas acusações contra a vereadora do PSOL. Dados colhidos pelo Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e uma investigação feita pelo GLOBO traçaram o caminho das fake news de maior repercussão sobre o assunto. Até a noite desta quinta-feira, o link do Ceticismo Político havia sido compartilhado mais de 360 mil vezes no Facebook, ocupando o primeiro lugar entre as publicações que abordaram o boato da ligação da vereadora com o crime organizado — seja de maneira difamatória ou em tentativas de rebater a acusação.

No dia seguinte ao crime, boatos começaram a se espalhar em grupos de WhatsApp por meio de textos, áudios e memes. Por volta do meio-dia de sexta-feira, apareceram os primeiro tweets relacionando Marielle ao traficante Marcinho VP e à facção Comando Vermelho. Quatro horas mais tarde, o site Ceticismo Político publicou um texto que teve papel fundamental na disseminação das falsas acusações. O link foi divulgado no Facebook, e, pouco depois, o Movimento Brasil Livre (MBL) replicou a mensagem, ampliando ainda mais a repercussão.

A FORÇA DO VIRAL

MBL REPLICA ‘FAKE NEWS’

Quatro horas depois, o MBL compartilha o link com a mesma frase usada por Ayan: “Isso é complicado. Bem complicado...”. O post é replicado por mais de 33 mil usuários antes de ser apagado

Luciano Ayan compartilha, na última sexta-feira, um link para o site Ceticismo Político. O texto reproduz acusações contra Marielle feitas por uma desembargadora, retiradas de uma notícia da “Folha de S.Paulo”

PARCERIA NO FACEBOOK

Em maio de 2016, o MBL publicou no Facebook um link para um texto escrito por Luciano Henrique Ayan no blog do grupo. O texto já foi apagado, mas é uma evidência da relação entre o MBL e Ayan
No Twitter, em três dias (entre sexta-feira passada e o último domingo), a informação divulgada pelo site gerou mais de um milhão de impressões — um conceito que leva em conta o número de vezes que a mensagem aparece na linha do tempo dos usuários do microblog. A rede de boatos formada no Twitter no dia em que o Ceticismo Político publicou seu texto envolveu cerca de 4 mil usuários, segundo o Labic.

O Ceticismo Político usou como base uma reportagem da colunista Mônica Bergamo, do jornal “Folha de S. Paulo”, sobre um comentário de uma desembargadora publicado no Facebook a respeito de boatos que circulavam no WhatsApp. O texto publicado pela “Folha” citava o que havia sido escrito pela desembargadora e informava que um grupo de advogados tinha se mobilizado para que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) se pronunciasse sobre o caso. O Ceticismo Político, no entanto, subverteu o texto original e deu um novo título: “Desembargadora quebra narrativa do PSOL e diz que Marielle se envolvia com bandidos e é ‘cadáver comum’”. Ao citar a reação dos advogados, o site afirmou que se tratava de uma manifestação da “extrema esquerda”.

— A publicação do Ceticismo Político foi a que teve a maior influência no debate — diz o pesquisador Fábio Malini, coordenador do Labic e autor do levantamento.

INTERAÇÕES COM O MBL

O Ceticismo Político é um site administrado por Luciano Henrique Ayan — não há fotos de Ayan nem referências a esse nome em bancos de dados públicos. O MBL afirma que não é responsável por administrar o perfil de Ayan e que não o conhece, mas interações nas redes sociais entre o grupo e o responsável pelo site evidenciam a proximidade. Quatro horas depois de o Ceticismo Político lançar a suspeita sobre Marielle, o MBL replicou a publicação no Facebook, com um comentário igual ao da publicação original: “Isso é complicado. Bem complicado...”. Antes de ser apagada, a publicação havia alcançado 33 mil compartilhamentos.

Em 2016, no Facebook, o MBL publicou um post em que divulgava um texto de Ayan escrito para o blog do grupo. No Twitter, o MBL já replicou mensagens de Ayan, e o núcleo do grupo em Campinas republicou uma postagem em que Ayan criticava o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, por ter pedido a quebra de sigilo bancário do presidente Michel Temer. Em outubro do ano passado, um dos integrantes do grupo endossou uma mensagem de Ayan que divulgava uma proposta para acabar com a Lei Rouanet.

O Globo perguntou ao MBL por que o grupo publica conteúdos de Luciano Ayan mesmo alegando não conhecê-lo:

— Porque a gente prefere compartilhar o que bem entende e prefere acreditar na mídia independente do que no Globo — respondeu Renato Battista, um dos coordenadores do grupo.

Luciano Ayan tem o domínio ceticismopolitico.org desde novembro de 2017. O site está registrado por uma empresa com sede na Dinamarca, usada para manter oculto o nome verdadeiro do proprietário do domínio. Ayan já usou o artifício em outras ocasiões. Antes, ele manteve o Ceticismo Político com outro endereço — o ceticismopolitico.com. Na ocasião, o domínio estava registrado por uma empresa do Canadá, também usada para esconder o proprietário real do site.

A atuação de Ayan é motivo de controvérsia na internet antes mesmo da criação do Ceticismo Político. Em 2004, quando a rede social mais popular era o Orkut, Ayan era apontado como dono de comunidades que estimulavam polêmicas. Sem revelar a real identidade, Ayan também não exibe fotos em suas contas nas redes sociais. Além da página do Ceticismo Político no Facebook, que tem 105 mil seguidores, ele mantém o perfil Luciano Henrique Ayan, com cerca de 2,4 mil seguidores.

EMOÇÃO E INCERTEZA

O pesquisador Fábio Malini explica que a viralização de conteúdos costuma estar relacionada a dois aspectos que ficaram evidentes na morte de Marielle: a emoção que tomou conta das pessoas e a incerteza sobre o episódio.

— A viralidade tem a ver com a carga emocional. Em casos de muita comoção, as pessoas se ligam ao episódio e compartilham mais conteúdo. A emoção leva ao engajamento. Muitas vezes as pessoas compartilham informação sem checar, informações distorcidas, porque estão envolvidas mais emocionalmente do que cognitivamente.

A atuação de perfis falsos ajuda a impulsionar o debate nas redes, mas, segundo Malini, os boatos e mentiras ganham força por quem “cai no trote” e não checa a informação:

— Há usuários robotizados, os fakes ou os bots humanos, que publicam conteúdos em diferentes perfis. Mas, em geral, a força do boato vem de pessoas que caem no trote e carregam efeito de verdade. Acontece muito em casos de incerteza: não se sabe quem matou, não se sabe quem morreu, então o tema é potencializado.

Ayan não respondeu aos contatos do Globo feitos por e-mails.

Gabriel Cariello e Marco Grillo

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