31 de mar de 2018

Documentário conta a história do operário negro executado pela Brigada Militar há 30 anos

Documentário recupera relatos sobre a execução de operário pelas mãos da polícia militar, lembrando números da violência contra negros hoje
Fotos: Joana Berwanger/Sul21
Júlio César de Melo Pinto chegou em casa no início de uma noite que parecia normal em 14 de maio de 1987. O operário da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT) era casado, morava no bairro Partenon, em Porto Alegre, ainda não tinha filhos e planejava passar em um concurso público dentro da estatal. Quando viu que não tinha pão em casa, avisou a esposa Juçara que iria até o mercado mais próximo e voltava logo. Horas depois, estava morto.

Naquela noite, quando Júlio César se aproximou do mercado, na Avenida Bento Gonçalves, perto do Hospital Psiquiátrico São Pedro a 425 passos de casa, o local estava cercado de gente. Uma cena nada comum. Pouco antes dele chegar, o supermercado havia sido assaltado. A Brigada Militar já estava tentando encontrar os suspeitos. Assim como as dezenas de pessoas ali, Júlio queria entender o que havia acontecido, quando foi acometido de uma crise de epilepsia. Assim que caiu no chão, alguém gritou: “É ele!”.

Em poucos minutos, a polícia o algemou e o colocou dentro da viatura. O momento foi registrado pelo fotógrafo do jornal Zero Hora, Ronaldo Bernardi. Na imagem, Júlio César aparece sentado no banco de trás do carro, com a camisa branca e a calça jeans manchadas de gotas de sangue, os braços para trás, olhando pela janela, consciente. Quase 40 minutos depois, quando a viatura chegou enfim ao Hospital de Pronto Socorro (HPS) ele tinha dois tiros no corpo e estava sem vida. Bernardi, que fez o mesmo trajeto em 10 minutos, sabia que tinha testemunhado uma execução.

Na imprensa, o assassinato de Júlio César passou a ser tratado como “o caso do homem errado”. Mesmo título do documentário que entra agora em circuito comercial em Porto Alegre, dirigido por Camila de Moraes. Nele, Bernardi, a viúva de Júlio César, Juçara Pinto e ativistas de direitos humanos e do movimento negro no Rio Grande do Sul recontam o episódio, lembrando que, em três décadas, o índice de morte de pessoas negras no Brasil, pelas mãos da polícia, só piorou.



“Se não fossem as fotos, o fato de ele ser inocente, jamais a história teria vindo a público. Mesmo no momento em que as fotos foram divulgadas, com a primeira narrativa de que ele era um criminoso, as pessoas não se comoveram. É revoltante porque as famílias de pessoas negras que morrem, a primeira coisa que elas têm que fazer, é provar que a pessoa é inocente. Quando vai reconhecer um filho no necrotério, a pessoa leva junto a carteira de trabalho. Isso é absurdo demais”, diz a produtora executiva do filme, Mariani Ferreira.

“É uma história que acontece toda hora, todas as famílias têm [um relato]. Júlio César era irmão de criação do meu pai e padrinho do meu irmão. Numa entrevista, me perguntaram ‘isso aconteceu em 87 e agora volta à tona, a gente esquece’. Esquece por quê? Porque a sociedade branca coloca o corpo negro como estatística, como número e esquece. Pergunta pra viúva se ela esqueceu, pergunta pra mãe do Júlio César se ela esqueceu. Não tem como esquecer uma morte. Quem vai esquecer é quem não está relacionado com o caso. Vocês, pessoas brancas, não percebem que o racismo atinge todo mundo”, afirma a diretora Camila.

O caso movimentou integrantes do movimento negro no Rio Grande do Sul e jornalistas. As pessoas andavam pelas ruas perguntando quem havia visto algo que ajudasse a esclarecer o que havia acontecido dentro da meia hora que os policiais estiveram sozinhos com a vítima. As reportagens sobre o “caso do homem errado” ficaram um ano estampando os jornais gaúchos e cobrando explicações.

A produtora Mariani Ferreira e a diretora Camila de Moraes

No fim, 14 policiais militares foram identificados como tendo participado do crime. Apenas sete deles foram condenados na Justiça Militar e expulsos da corporação. Ainda assim, responderam ao processo em liberdade. Durante a pesquisa para o filme, a equipe descobriu que a pessoa responsável por dar a ordem de execução nunca chegou ao banco dos réus. Uma fonte relatou que o caso ainda é uma vergonha para a Brigada Militar não pelo assassinato, mas pelas expulsões.

“[Os policiais] tinham um histórico de violência contra a população. Uma das nossas fontes diz que se passava um fusca (modelo das viaturas na época), ficavam morrendo de medo. Um dos policiais, que não foi julgado, tinha explodido uma granada dentro de um estabelecimento comercial. Havia históricos de abusos. Não apuramos todos os crimes que eles estavam envolvidos porque havia poucos registros, já que estavam saindo da ditadura militar. O caso mais notório de violência é com o Júlio César”, lembra Mariani.

Mesmo passados 30 anos, Camila afirma que a história ainda toca em feridas que as pessoas não estão dispostas a rever. “Isso ainda está muito vivo no Rio Grande do Sul. Foi em 1987, é a Brigada Militar que matou uma pessoa e foi comprovado que foi execução. Tem as famílias desses 14 policiais envolvidos que não querem que fale sobre isso”.

A cada dia, 66 jovens negros são assassinados no Brasil

Em 2012, das 56 mil pessoas assassinadas no Brasil, 30 mil eram jovens, com idades entre 15 e 29 anos. Em 77% dos casos, as vítimas eram negras, de acordo com dados da Anistia Internacional, que lançou a campanha Jovem Negro Vivo. O Atlas da Violência do ano passado, realizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras.

Segundo o Mapa da Violência de 2016, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Uma média de 66 mortes por dia. Jovens negros, entre 12 e 29 anos, são os mais vulneráveis. Cerca de 25 mil jovens dessa faixa etária foram mortos por armas de fogo no país em 2014. O número representa um aumento de 700% comparado aos números da década de 1980, quando Júlio César foi executado.

No início do ano, a Human Rights Watch voltou a chamar atenção para como a “violência policial continua sem freios” no Brasil. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que, em 2016, 4.424 pessoas foram mortas por policiais. Um aumento de 26% em relação ao anterior. Enquanto isso, 437 policiais morreram no Brasil.

“A polícia no Brasil precisa desesperadamente da cooperação da comunidade para combater os elevados índices de criminalidade que afligem o país. Mas enquanto alguns policiais agredirem e executarem pessoas impunemente, as comunidades não confiarão na polícia”, afirmou no lançamento do relatório Maria Laura Canineu, diretora da HRW no Brasil.

Na pré-estreia do filme, no ano passado, quando o caso de Júlio César completou 30 anos, a equipe do filme organizou uma marcha pelo centro de Porto Alegre com a faixa “Vidas Negras Importam”. Segundo Camila e Mariani, poucas pessoas participaram do ato. Na avaliação das duas, quando a única pauta são as questões de direitos da população negra há pouco engajamento das pessoas brancas.

Agora, com o assassinato da vereadora Marielle Franco, do PSOL do Rio de Janeiro, negra, nascida e criada no complexo de favelas da Maré, a urgência do debate cresce ainda mais.



“É muito fácil matar pessoas negras no Brasil. Mataram o Júlio César, agora mataram a Marielle. Você muitas vezes acha ‘eu estou protegida porque fiz faculdade’, ‘porque eu não moro numa comunidade’. Na verdade, nada te protege contra o racismo. Ele te alcança em qualquer lugar”, diz Mariani.

“O objetivo desse filme também é resgatar esse caso para que as pessoas comecem a refletir. O racismo é um problema também das pessoas brancas. Enquanto elas não se levantarem, as pessoas negras vão continuar morrendo”, avalia Camila.

O documentário já participou do Festival de Gramado, do 9º Festival Internacional de Cine Latino, Uruguayo y Brasileiro, em Punta del Este e em Salvador. Na semana passada, estreou no circuito comercial de Porto Alegre, no CineBancários, onde fica em cartaz por duas semanas. Mas Camila conta que a ideia é que ele seja também exibido em universidades, para abrir debates com forças de segurança, provocando as pessoas a questionarem o sistema e pensarem em soluções para ele. Uma tentativa de trazer outros agentes para o debate.

“É uma preocupação diária que a gente tem. Enquanto não houver empatia, não tem como buscar soluções práticas. A gente busca nesse audiovisual mais uma ferramenta para esse debate e para tentar achar essas soluções, para furar essa barreira estrutural”.

Fernanda Canofre
No Sul21

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