11 de mar de 2018

A terceira sensação humana

E Deus viu que eu me entediava, pois do que valia ser um rei no meu jardim sozinho, sem ter com quem compartilhar o Paraíso? Ou sem ninguém para me invejar? E então Deus, que já tinha criado o tempo, criou o passatempo, e me encarregou de dar nome às coisas. Eu vi a uva, e a chamei de parmatursa. Eu via a pedra e a chamei de cremílsica, e ao pavão chamei de gongromardélio, e ao rio chamei de... Mas Deus me mandou parar e disse que cuidaria daquilo, e me instruiu a procurar o que fazer enquanto terminava de criar o Universo, pois os anéis de Saturno ainda estavam lhe dando trabalho. E eu me rebelei e perguntei “Fazer o que?” e viu Deus que, além do Homem, tinha criado um problema. 

E perguntou Deus o que eu queria, e eu respondi: “Sabe que eu não sei?” E Deus disse que tinha me dado uma vida sem fim, e um jardim de prazeres digno de um rei para viver minha vida sem fim, e frutas e peixes e pássaros de graça e dentes para comê-los, e mel de sobremesa, e que eu esperasse para ver que espetáculo, que show de bolas, seria o Universo quando ficasse pronto. Tudo para mim. Só para mim. E não bastava? Não bastava. “Eu pedi para nascer, pedi?” disse eu. E Deus suspirou, criando o vento. E pensou: “Filho único é fogo”. 

O que eu queria? Queria outra pessoa. Era isso. Queria uma segunda pessoa. Queria um interlocutor. Um irmão, alguém para chamar de “tu”e com quem chamar o Senhor de “ele”. Ou “Ele”. E que quando Ele chamasse de vós, responderíamos em uníssono “nós?” . E quando se referisse a nós para os anjos, dissesse “eles”. Criando outra pessoa, Deus estaria, para todos os efeitos gramaticais, criando cinco. 

E Deus fez a minha vontade, e me pôs a dormir, e quando acordei tinha um irmão ao meu lado, tirado do meu lado. Igual a mim em todos os aspectos. Espera aí, em todos não. Deus, com a cabeça nos anéis de Saturno, não prestara atenção no que fazia e errara a cópia. Colocara coisas que eu não tinha e esquecido coisas que eu tinha, como o pênis, que se dependesse de mim se chamaria Obozodão. Deus se ofereceu para recolher a cópia defeituosa e fazer uma certa mas eu disse “Na-na-não, pode deixar”. Pois tinha visto que era bom. Ou boa. E fui tomado de amor pelo outro. A segunda sensação humana, depois do tédio. 

Ela era o meu tu, eu era o tu dela. Juntos, inauguramos vários verbos que estão em uso até hoje. E eu a chamei de Altimanara, mas Deus vetou e lhe deu outro nome. E quando ela perguntou como era o meu nome, respondi “Mastortônio” mas Deus limpou a garganta, inventando o trovão, e disse que não era não. Ficou Adão e Eva (eu Adão, ela Eva) aos olhos do Senhor e na História oficial. Mas, em segredo (isto pouca gente sabe), nos chamávamos de Titinha e Totonho. E foi ela que disse “Totonho, quero que tu me conheças mais a fundo”. E eu: “No sentido bíblico?” E ela: “Há outro?” E inauguramos outro verbo. 

E foi ela que me ofereceu o fruto da Árvore do Saber, a que Deus tinha me dito para nunca tocar mas colocado bem no meio do Paraíso, vá entender. Resisti, embora a fruta fosse rubicunda (uma das poucas palavras que consegui inventar, driblando a fiscalização do Senhor) e ela a segurasse contra o peito, como um apetitoso terceiro seio. Se comêssemos daquela fruta, perderíamos a inocência e nos tornaríamos mortais. “Em compensação...”, disse a Titinha. Em compensação, o que? Só saberíamos se comêssemos a fruta. E fomos tomados de curiosidade. A terceira sensação humana. A fatal.

Quando soube da nossa transgressão, Deus deu um murro na Terra, criando o terremoto, e nos expulsou do nosso jardim. E durante todos estes anos muitas pessoas têm me perguntado (pois depois disso a Terra se encheu de muitas pessoas) se valeu a pena trocar meus privilégios de primeira e única pessoa pelo prazer de conjugar com outra, e o meu tédio pelo envelhecimento e a morte, e a minha inocência eterna pelo saber fugaz. E sabe que eu não sei?

E, claro, sempre tem o gaiato que pergunta: “Fora tudo isso, que tal era a fruta?”

Luís Fernando Veríssimo

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