22 de mar de 2018

A irrelevante defesa da mídia por Ascânio Seleme


Ascânio Seleme fez bela carreira na velha mídia, chegando a diretor de redação de O Globo. Saiu e virou blogueiro-colunista do jornal. Poderia se tornar uma das referências da necessária auto-crítica que o jornalismo está devendo a si mesmo, no período mais sombrio da história da imprensa brasileira, os últimos 12 anos.

Mas o bravo Ascânio prefere terçar armas com os moinhos de vento das redes sociais.

No artigo de hoje, “Tem dúvida? Ataque à imprensa”, faz uma enfática defesa da imprensa contra os que a acusam de estimular notícias fake.

Aí, seleciona como objeto de análise uma enorme tolice - a “acusação” de que a imprensa, ao criticar as leviandades contra a memória da vereadora Marielle Franco, estaria estimulando as mentiras - e passa a brigar com ela.

Qualquer pessoa minimamente informada sabe que a imprensa fez uma cobertura digna e favorável à memória de Meirelle, contra seus detratores, incluindo a inacreditável desembargadora carioca. Os que julgam que denunciar erros significa divulgar erros compõem a parte mais primária dos opinionistas de redes sociais, um nível pouco acima dos bolsomitos.

Escolhê-los para terçar armas equivale ao grandão que, para se mostrar fiel à casa, escolhe um baixinho como inimigo.

Ascânio escolheu-os para fugir do debate de questões muito mais sofisticadas, como a que atribui a onda de indignação “ordem unida” da Globo apenas a uma tentativa de se apropriar da comoção trazida pelo episódio.

Aliás, esses movimentos da Globo são curiosos. Acontece o fato de impacto e ficam todos os globais - incluindo a Ministra Carmen Lúcia - esperando o sinal de comando, o caminho dos ventos. Se a direção libera para indignação, todos se indignam. Se não libera - como foi o caso das arbitrariedades contra o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina - todos se recolhem, incluindo a Ministra Carmen Lúcia. Os melhores explicitarão sua indignação em mesas de bar ou no aconchego do lar. Os mais assustados compartilharão a indignação apenas com o travesseiro, porque as paredes podem ter ouvidos.

No momento em que a velha mídia pretende ser a referência de todas as notícias, que tenta cooptar acadêmicos para transformar esse desejo em “verdade científica”, seria importante não embarcar em simplificações grosseiras.

As notícias falsas, de fato, são uma ameaça ao jornalismo, partam da direita ou da esquerda. Se a velha mídia quiser ganhar respeitabilidade, deveria tratar do tema com responsabilidade, inclusive o fato de ter excluído amplos segmentos do país do seu noticiário e dos seus ângulos de análise, fugindo do compromisso constitucional de assegurar diversidade de opinião.

Luís Nassif
No GGN

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