10 de mar de 2018

A exceção

“Já leu o Cony, hoje?” A frase, dita num tom conspiratório, se repetia cada vez que saía um dos artigos do Carlos Heitor Cony no Correio da Manhã. Funcionava como uma espécie de senha. Era o preâmbulo para a nossa admiração pelo único jornalista da grande imprensa brasileira que se manifestara contra o golpe de 1964 desde o primeiro minuto, e para a nossa troca de entusiasmos pelos seus textos. O tom conspiratório se explicava porque ler e se entusiasmar com o que Cony escrevia, em meio ao atordoamento geral, equivalia a um ato de resistência.

O fato de ser único dava a Cony e sua rebeldia outro significado. Até começar a sofrer as represálias do regime - ameaças e eventualmente prisões - Cony se valeu de um resto de liberdade permitida para escrever o que queria, a mesma liberdade disponível para outros jornalistas, que preferiram não usá-la, ou por medo ou por coerência, porque tinham apoiado o golpe. Quando o regime fechou de vez e veio a censura ostensiva da imprensa o Cony não pôde mais ser nosso respiradouro, como o descreveu alguém, na época, e foi trabalhar para os Blochs. Mas ninguém pode lhe tirar a glória de ter sido, por um breve e luminoso momento, a exceção.

Outros se manifestaram esporadicamente contra a golpe, enquanto foi possível. Me lembro principalmente do Antonio Callado escrevendo - se a memória não me falha, o que eu duvido - no Jornal do Brasil. Mas ninguém ridicularizou e desautorizou o regime com a mesma persistência e pontaria do Cony. Que nunca foi ideológico, apenas compartilhou conosco sua intransigência com o poder usurpado, e disse tudo que a gente queria dizer. Enquanto foi possível.

Os nostálgicos da ditadura construíram um passado que nunca existiu, em que o País esteve em ordem, com progresso milagroso e sem corrupção, e generais se sucediam na Presidência numa grotesca pantomima de democracia. A verdade estava nos porões da repressão onde tantos desapareceram e tantos foram torturados, sem que a imprensa controlada pudesse revelar a barbárie, depois que fecharam o respiradouro. Mas pelo breve e luminoso momento, obrigado Cony.

Luís Fernando Veríssimo

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