8 de fev de 2018

Uma foto que devia parar o Brasil (se fosse no Leblon…)


Para tudo.

Não é possível seguir normalmente depois da foto da capa do Globo de hoje.

Ninguém precisa dizer que isso acontece todos os dias nas favelas e periferias do Brasil.

Mas se nem indo pra capa do Globo causa comoção, nossa barbárie passou de todos os limites.

A mulher, negra, favelada, está na Cidade de Deus. O Exército faz uma blitz. O soldado revista esta mulher diante do choro do bebê de colo que está no carrinho vendo a provavelmente mãe passar por isso. As mãos do soldado(*) passam sobre as partes íntimas da mulher. Que está ali, apenas exercendo seu direito de ir e vir.

Falar mais o que? Precisa de síntese maior de nossos dias?

Não precisa ser de esquerda ou direita para ficar estupefato. Basta ser humano.

São quase nove horas da manhã. De uma manhã emendada em noite de trabalho. Mas não deu pra dormir ainda sem escrever algumas linhas sobre essa foto. As horas emendadas não permitem maiores viagens teóricas. E nem a situação da foto.

Sabe-se apenas que é uma mulher negra, favelada, mãe, apalpada, tomando uma revista que nem poderia ser feita por um homem.

Não precisa ser de esquerda ou de direita. Basta ser humano. Basta um pouco de empatia.

Sigam fazendo isso. Não se surpreendam quando a profecia do Seu Wilson das Neves se realizar e “o morro descer e não for carnaval, ninguém vai ficar pra assistir o desfile final, na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu, vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil”.


Pense na sua mãe, irmã ou filha ali. Um pouco de empatia.

Agora troque de cenário. É possível que toda essa crise, essas ações armadas em zonas residenciais, essas blitz que humilham trabalhadores e matam crianças todos os dias nunca mais acontecesse. Basta trocar o cenário e a crise estará bem encaminhada. Bote a cena no calçadão da praia do Leblon. Troque esta mulher negra por uma madame loura empurrando seu carrinho. Imagine um soldado apalpando a madame diante do seu filho louro chorando no carrinho.

Nunca mais existiria isso.

Pense em um daqueles bandidos da Lava Jato da Vieira Souto tendo seu prédio atacado por bala e uma criança de um apartamento morrendo. Uma monstruosidade, uma aberração, ninguém quer isso. Não pode em lugar nenhum.

Nunca mais existiria isso.

Mas Nabuco tinha razão. A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. E é só isso que explica essa foto.

A menina queimando em napalm no Vietnã ganhou o mundo. Que a menina da Cidade de Deus vire algo definitivo nesse Brasil de 2018 que só pensa em legalizar a escravidão, em cortar direitos trabalhistas.

Essa foto tem que parar tudo.

O vício jornalístico rouba o olhar da foto pra legenda. Não há indignação na legenda. O que fizeram de nós?

O que foi feito da nossa profissão que não consegue mais se indignar com algo assim, salvo as falsas indignações de todos os dias cheias de chavões e lugares comuns?

Dei uma olhada por aí. Não vi a foto no tal tranding topics.

Me ocorre Ernesto Cardenal e seu magistral “Oração Por Marilyn Monroe”. “Perdoa-a, Senhor, e perdoe-nos a nós/por nossa 20th Century/por esta Colossal Super-Produção em que todos trabalhamos”.

Todos nós trabalhamos por essa super-produção. Que vai matando todos nós a cada dia.

Onde está a indignação por esta foto nas páginas seguintes?

Será que essa foto já tá na pauta dos programas do dia?

Há quatro décadas nos chocamos com uma foto assim. E nada mudou. Mas ao menos nos chocávamos.

Arquivo JB Assunto – Polícia Militar do Rio de Janeiro. Em blitz no Morro da Coroa e Cahoeirinha, PM prende favelados pelo pescoço, um tipo inusitado de “algema”. Foto Prêmio Esso, em 1983 Foto:Luiz Morier Data:29.09.82 Neg.1259127


Luiz Morier, fotógrafo maior, imenso, o bom Morier, parceiro de tantas jornadas, eu foca ainda e ele veterano consagrado, calmo, sereno, por aí, Jacarezinho, eu e ele em Vieira Fazenda tirando foto na cara do lobo, lembrei dele agora. Muito aprendi.

Porque há quatro décadas Morier parou o mundo com a foto dos negros amarrados com corda no pescoço pela PM descendo o Morro da Coroa. Era uma gravura do império. No dia seguinte constataram que eram todos trabalhadores.

Lembro o texto que seu Marcos fez no dia seguinte, lindo. Era 1983. Quatro décadas depois, estamos diante das mesmas circunstâncias. Ali ainda havia indignação. Mas em algum momento a indignação passou.

Pior. Vejo o rapaz do telejornal cobrando mais ação. Se fosse no Leblon acho que parava tudo e se subvertia essa lógica do confronto que mata os mesmos de sempre. Todos pretos, quase pretos…

Não sei se vai dar para dormir com um barulho desses.

Mais uma mulher que passava com sua criança de colo foi apalpada na Cidade de Deus. Suspeita. Do que mesmo?

Enquanto isso, Temer desembarca na Marambaia com dois aviões. O que foi feito da nossa profissão?

Vai assim, sem revisão, leva essa dor e esse pedacinho de indignação. Mais uma mulher negra e favelada que passava com sua criança de colo foi apalpada na favela.

Boa noite.

* Depois de publicado, recebo agradecido o alerta da revista ser feita por uma mulher soldada. Muda claro não ser um homem a fazer, mas não muda a indignação e a aberração de uma mulher estar sendo apalpada diante do filho sem nenhuma acusação, como é feito todos os dias. E a razão desse texto. Na verdade, quem leu e chegou até aqui sabe que nem é a razão do texto essa. Se fosse no Leblon…Soldado, soldada…Se alguém acha normal alguém revistado assim na frente do filho de colo, todos os dias, nem devia mesmo ter lido até aqui!

* Faltou o crédito do mérito imenso da foto de ter como foco principal o horror daquela criança: Fabiano Rocha.


Lúcio de Castro
No SportLight

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