27 de fev de 2018

UFSC - primeiro dia de aula

Corredor do CSE
Trabalho na UFSC há 24 anos e sempre, a cada início de ano, vivo a mesma emoção: a chegada dos calouros. Nesse dia eu passeio pelo campus olhando as carinhas novas que vêm viver essa rica experiência de estar na universidade. Sempre encontro alguém que se parece comigo, no meu primeiro dia aqui, quando cheguei, aluna, em 1987. Algo perdida, algo feliz, algo curiosa e cheia de esperanças. 

Eu tinha então 27 anos (já era velhinha) e já tentara cursar Jornalismo em universidades privadas. Não conseguira. Trabalhava na área desde há tempos e podia ser considerada uma “macaca-velha”. Mas, queria fazer a faculdade. Só que não tinha dinheiro para bancar uma privada. Sempre tive que desistir pois, na escolha entre comer e estudar, acabava ficando com a primeira, óbvio.  

Foi então que passei na federal e o sonho acalentado por tanto tempo se fez real. Cheguei aqui num fevereiro calorento, munida de tudo o que tinha de meu: uma pequena mochila de lona verde, com algumas roupas e livros. Sem lugar para morar, sem emprego e sem conhecer ninguém. Chegar à UFSC foi uma aventura. Já não era uma guriazinha, mas tinha em mim todos os sonhos. 

E entrar na UFSC mudou minha vida. Aqui conheci aquelas que viriam a ser as amigas do resto da vida. Aqui encontrei o Sérgio Weigert, professor único e inspirador, que me jogou na estrada da filosofia e me apresentou a teoria do Adelmo. Ele virou minhas certezas de pernas para o ar. Ele provocou a revolução. É meu mestre eterno e inquebrantável. Sem ele eu não seria eu.

Entre trancos e barrancos consegui terminar o curso. Não foi fácil. Tinha de estudar e trabalhar. Nunca pude ficar fruindo o campus, a biblioteca e todas essas coisas que os estudantes fazem. Não, precisava andar correndo, saindo da aula para o trabalho, pegando dois ônibus, fugindo ora do estudo, ora do serviço. Mas, valeu. Foi a melhor coisa que me aconteceu.

Por isso, quando vejo essas carinhas sorridentes, algo assustadas, meio ripongas, lembro-me de mim, e me enterneço. Quantos ali não estarão em pânico, como eu, sem saber se chegarão ao fim. Quantos não terão de saracotear desesperados no transporte coletivo, na difícil tarefa se equilibrar estudo e trabalho. Quão dura é a vida da classe trabalhadora. 

Então, ofereço pagos aos deuses e deusas para que encham de força aqueles corpinhos, para vençam todos os obstáculos, para que descubram aqui belezas infinitas, para que se transformem. E que encontrem, nesse lugar, a porta encantada do conhecimento. Não o conhecimento ritualístico, que garante o exercício de uma profissão, mas aquele que lhes permitirá mudar o mundo.  

Então, volto para meu cantinho, deixando que corram algumas lágrimas. Que são de alegria, de pura alegria, por saber que tudo flui e a vida segue. E que os filhos e as filhas da classe trabalhadora seguem desbravando caminhos, a despeito de tudo.

Elaine Tavares
No Palavras Insurgentes

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