5 de fev de 2018

The Muriu Conection


Na entrada de Muriu, um letreiro de papel colado em um muro se destaca: “Intervenção militar já! O povo exige as Forças Armadas!” Os dizeres funcionam como um cartão de visitas a anunciar o ânimo geral a pairar sobre suas casas de veraneio. Nas varandas de Muriu, o conservadorismo ganha ares de saudosismo sempre que alguns dos mais proeminentes veranistas desta idílica praia do litoral norte potiguar expressam a vida boa que havia no tempo do governo militar (que eles chamam de revolução, e não de golpe ou ditadura) e das gestões do Senador José Agripino Maia (uma espécie de divindade por estas bandas) como prefeito de Natal e governador do Rio Grande do Norte.

Todos os anos, num dos terraços à beira-mar, um grupo de amigos escolhe um domingo qualquer do mês de janeiro e se reúne para um encontro animado, forrado com fartas poções de ova de peixe, carne de caranguejo, caldo de feijão, fava e regado com boas doses de destilados os mais diversos. Nestas ocasiões anuais, fala-se de tudo o que é assunto entre a classe média e elite locais: quem casou ou separou, quem traiu quem, quem enriqueceu ou arruinou a fortuna da família. Os presentes também fazem pilhérias uns com os outros, geralmente acusando-se de “brochas” ou “bichas”. Não se conversa sobre livros, filmes, séries, exposições de artes ou visitas a museus. Aparentemente, os comensais não têm estes temas como importantes em suas rotinas.

O ponto alto do evento é a tertúlia em torno da política partidária local e nacional. Dentre os convidados, 3 homens detém uma maior predileção por discorrer sobre o assunto. Seus debates costumam analisar conjunturas atuais e prever alianças e resultados eleitorais vindouros. Dois deles são experientes e reconhecidos nas mais diversas esferas da sociedade local, tendo já vivenciado muitas experiências políticas, ocupado cargos e conhecerem bastante de história pelo simples fato de terem vivido. Ambos têm perfil semelhante: posições bem definidas, mas discursos ponderados, proferidos em tom sereno e pausadamente. O terceiro membro deste clã inscrito para falar é bastante diferente no que se refere à intensidade com que se expressa. Uma presença marcante que cresce quando toma a palavra, atraindo todas as atenções do ambiente devido à segurança demonstrada ao dar opiniões, os detalhes com que conta histórias de seu conhecimento, envolvendo personagens conhecidos do RN. De memória prodigiosa, fala alto, quase gritando e é muito aberto ao monólogo, sendo capaz de proferir solilóquios que fariam Hamlet parecer um mímico. Ao encontro destes 3 senhores, dei o nome de “The Muriu Conection”, em alusão ao programa da GNT que junta alguns dos mais proeminentes conservadores da mídia tupiniquim.

O que sempre achei curioso nas conversas dos 3 (das quais não participo a não ser fazendo perguntas de caráter especulativo, cujas respostas apreendo quase sem piscar, com genuíno interesse de perito investigativo) é que, apesar de toda a bagagem que carregam consigo em face das experiências de vida e vasto conhecimento, quase nunca acertam as previsões que costumam fazer. Já disseram em anos anteriores que Vilma de Faria seria a senadora eleita em 2014. Não foi o que aconteceu. No mesmo ano, cravaram Henrique Alves e Aécio Neves eleitos naquele pleito. Falharam miseravelmente. E assim repetiram os equívocos em diversas outras previsões mais furadas que a do bebê do Midway em 2005 ou que as da mãe Diná em toda a sua carreira. O único acerto que eles deram foi a reeleição de Carlos Eduardo em 2016. Mas aí, amigo, até eu, né?

Neste 2018, curioso para ver o que eles teriam de novidade a nos oferecer, além de pessimamente intencionado a escrever este texto, posicionei-me estrategicamente próximo a eles e, como de hábito, matriculei-me como ouvinte na matéria de Ciências Políticas em mais uma edição anual do “The Muriu Conection”.

O mais desenvolto dos 3 começou fazendo loas ao presidente Temer, que ele chama de “Teme”. Falava com firmeza: “Teme está consertando uma situação que estava arruinada. O país foi quebrado pelo PT. Não pode gastar o dinheiro todinho com programas sociais. O país não aguenta, ele quebra. Isso é matemática! O país só se salva se forem aprovadas as reformas. A da previdência e a trabalhista que já foi aprovada.” Perguntei se o dinheiro que está sendo economizado em programas sociais não está sendo gasto pra comprar os votos do legislativo. Ele respondeu que a imprensa mente muito e que essas emendas já são previstas no orçamento, que cada deputado tem direito a uma quantia pré-definida. O que o governo federal está fazendo é apenas priorizar a liberação de emendas para deputados aliados em vez de adversários e arrematou com uma pergunta: “Vocês não fariam o mesmo não?”

Neste momento, um dos debatedores mais moderados pediu a palavra. Explicou que o rombo na previdência começou na ditadura militar, quando foram feitos saques para bancar obras faraônicas e pouco eficazes como a Transamazônica, por exemplo. Defendeu que a sociedade de hoje estava pagando por um erro dos militares. A isto também, o desinibido protagonista da tarde respondeu: “Concordo com você. Mas eu não posso resolver um problema do passado voltando pro passado. Eu só posso resolver agora!”

E exemplificou: “o governo está se esforçando ao máximo pra resolver. Vejam o caso dessa ministra, a Cristiane Brasil. O povo fica inventando história dela na justiça do trabalho. Mas ela tem que ser nomeada porque o pai dela controla mais de 20 votos que vão poder votar a favor das reformas. Não vale a pena não? Se for assim, Flávio Rocha, que é uma unanimidade hoje no Brasil, não poderia virar ministro, concorda? Só porque tem uns processos lá na justiça do trabalho. Mas qual é o empresário que não tem? Com essa perseguição que os grandes empresários sofrem no Brasil, todo mundo é processado!”

Sobre o participante da conversa que alertou para o início do rombo previdenciário, vale destacar que foi um militante de esquerda na juventude, tendo inclusive sido encarcerado em 1964 por ser considerado subversivo. Em que pese isto, hoje está bastante alinhado com a linha mais conservadora de pensamento que dá sustentação ao governo Temer e à agenda do PSDB, por exemplo. Este segundo personagem do debate encarna a velha máxima atribuída a diversos vultos históricos: “se você não é de esquerda aos 20, você não tem coração. Se você não é de direita aos 40, você não tem cabeça.” Seus posicionamentos denotam certa dualidade ideológica, uma vez que é crítico ferrenho do período em que o Brasil foi governado pelas forças armadas, mas não enxerga semelhanças (por mais evidentes) com os abusos que os governantes atuais cometem contra a população.

Tomando de volta a palavra, o expansivo defensor do presidente, que usava um chapéu Panamá compondo sua figura disse que as pessoas cometem uma grande injustiça ao botarem a culpa da crise em “Teme”. “Ele assumiu faz um ano só.” Neste momento, o terceiro membro da conversa iniciou sua participação, dizendo que para ele o que houve no Brasil em 2016 não foi um golpe, como sustentam os opositores do governo, mas uma manobra constitucional legítima. Após dizer isto, foi rápida e bruscamente interrompido pelo homem de chapéu quando este começou a fazer projeções sobre as eleições deste ano.

O simpático senhor, que alguns amigos chamam de cabeludo, começou a narrar encontros que teve na praia. “Encontrei-me com Fulano, pai do Deputado Fulaninho e ele teve a pachorra de vir me dizer que José Agripino não se elege porque o ‘rei do melão’ vai se candidatar ao senado. Eu disse a ele que a única possibilidade de isso acontecer é se melão votar. Sicrano me chamou pra tomar uma cerveja na casa dele e veio me dizer que vai apoiar Zenaide em vez de José. Eu falei na cara dele que ele é um ingrato se fizer isso! As pessoas têm que ter mais gratidão com o melhor Senador que esse Estado já fez!”

Nesse ponto, houve concordância geral, acenos vigorosos e positivos de cabeça, um dos comensais ensaiou aplausos discretos. Os outros dois debatedores falaram: “O melhor governador que esse Estado já teve!” E o terceiro completou: “O melhor prefeito que Natal já viu!”

Perguntei como quem não quer nada: “mas, assim, neste mandato atual, o que foi que o senador fez? Achei a atuação dele tão discreta…”

O cabeludo me explicou que um parlamentar de oposição fica de mãos atadas e não consegue fazer nada. Por isso, em todo o tempo que o PT ficou no poder, ele só fez oposição política. Neste momento, uma lembrança lhe assaltou: “sabem quem mereceria uma homenagem, se esse país fosse sério? Eduardo Cunha! Aquele homem livrou o país deste câncer que foram os governos do PT que nos trouxeram a esse momento de crise. E foi graças a ele que hoje o país está se recuperando.”

A conversa prosseguiu e, com relação às projeções eleitorais, consideraram que a chapa Carlos Eduardo, Agripino e Garibaldi será imbatível em 2018. Decretaram a saída de cena (ainda que momentânea) de Robinson Faria que só foi citado nas conversas com relação a um assunto menos digno de constar aqui, pois envolve a vida pessoal e familiar da figura pública e sobre estes temas, eu não trato.

A noite chegou, os convidados comeram uma refeição reforçada à base de pirão e cozido e se despediram fraternalmente. Penso em transformar “The Muriu Conection” num programa de TV transmitido pela Internet. As opiniões dos convidados refletem em grande medida os anseios de nossa classe média, empresarial, política e também da elite local. Seria um bom laboratório qualitativo de observação social.

Resta saber se esse ano, eles vão acertar as previsões.

Carlos Fialho
No Saiba Mais

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