19 de fev de 2018

Se juizecos e desembargadores adiantam voto, por que Segovia, não?


A PF vive um envelhecimento precoce. Isso é uma contradição num órgão que teve os quadros renovados e abriga, sob o ponto de vista da formação acadêmica, profissionais de excelente formação. Aliás, não fosse assim não estariam lá. Mas, boa formação acadêmica está longe de configurar sintonia com as grandes questões nacionais, sobretudo quando confrontadas com a conjuntura internacional. Boa formação acadêmica está longe de significar consciência social, sintonia e empatia com os problemas de um país, que a própria PF está ajudando a destruir, empunhando a bandeira do moralismo de ocasião. Qualquer delegadinho vaidoso ou desavisado pode devastar uma grande empresa e fazer despencar suas ações pelo mundo afora.

Boas escolas estão no rol dos privilégios das “elites”, das classes média alta ou remediada. Desse modo, na base de meu mundo é minha história (a recíproca é verdadeira), profissionais “bem formados” correm o risco de tentar fazer prevalecer, na leitura de fatos, os valores impregnados e inerentes àquela classe social. Valores já enfocados neste espaço, até com alusões irônicas do mestre Ariano Suassuna e suas histórias de quem já viajou ou não para a Disneylândia. Ego, ego, ego. É tanto ego na PF, ao ponto de não ser possível por fim às disputas por chefias, às buscas por zonas de conforto, em detrimento da atividade fim da instituição. É como se o trabalho investigativo tivesse importância menor. Muitas vezes parece que escrever brilhantes laudas de juridiquês soa mais importante do que um substancioso plano operacional.

Entre fogueiras de vaidades, uma entrevista para a televisão e dois minutos de fama, ao mesmo tempo em que faz cócegas no ego de uns provoca inveja em outros. Ressalvadas as exceções, é sob essa perspectiva que se formam grupos na procura de espaço. Na busca de equilíbrio, entidades de classe tentam promover debates entre candidatos ao comando da PF. Sinalizam com alguma democracia interna, muito embora, externamente, querendo ou não a indicação venha a ser política. A propósito, o impostor Temer ignorou os tais debates e indicou para o cargo quem bem ele quis, contribuindo para contaminar a já combalida imagem da instituição. Com todo respeito pessoal ao indicado, é o que se deduz das ceninhas exibidas pela mídia.

Enquanto a credibilidade da Farsa Jato cai, a consciência do golpe se consolida no imaginário social e a instituição dá sinais de bancarrota. Quando parecia caminhar para uma história dignificante que excelentes profissionais pretendiam construir, surge o aquilo deu nisso.

O fato é que a Polícia Federal está sem comando. Com razão ou não, onde já se viu, numa instituição regida pela disciplina e hierarquia, um furdunço desses? Que história é essa de subordinados afrontando seu comandante da forma como o vêm fazendo? Estarei eu querendo defender o espantalho do Temer? Certamente não. Mas há algo de errado nas grotescas cenas que a sociedade vem assistindo. O diretor da PF vive tropeçando em seus subordinados, pois grande maioria não o queria no posto. Sofre do mesmo mal de seu padrinho (o usurpador da faixa presidencial) que a maioria dos brasileiros pede que caia todos os dias - seja em passeatas, feiras livres ou blocos de Carnaval.

De qualquer forma, o homem do Fora Temer está lá e fez um jogo de cena inicial. Futucou o Ministério Público Federal, sugerindo que iria entrar na briga corporativista de sua categoria. Aqui, ali, membros do MPF fazem indevidas interferências no trabalho de delegados. A PEC 37, menina dos olhos dos delegados, foi vendida para sociedade pelo Ministério Público como “a PEC da corrupção”, com apoio da TV Globo. A PEC foi detonada nas ruas pelos Black Blocs e por um bando de alienados que mais tarde virou pato – já foram até ridicularizados no enredo da Escola de Samba Paraiso do Tuiuti.

A facilidade e descaramento com os quais Temer usou dinheiro público para comprar votos para destruir direitos sociais, não parecem ser a mesma para dobrar a PF. Os delegados querem autonomia, sob uma óptica deles e só deles, em nível muito fora do alcance de entendimento da sociedade. Querem uma autonomia que depende do Congresso Nacional ladrão, que em troca de votos comprados derrubou a Presidenta Dilma. O mesmo parlamento com o qual a PF se aliou no golpe, sabendo que iria entregar o país ao mesmo homem que hoje tentam caçar. Querem uma autonomia que, sob a percepção dos políticos corruptos, seria a criação de mais um monstro contra eles. Já pensou o Brasil repleto de Dalagnols inimputáveis pegando nos pés deles?

A autonomia pretendida só pode vir por lei, mas Temer, tentando fazer gracinha com os delegados, inventou de dar ou deu por meio de portaria administrativa. Como tudo tem estado na onda de moralismo de conveniência, Temer deu de bandeja autonomia de conveniência. Trata-se de uma autonomia para servidores com o perfil descrito no curso deste texto, hoje comandados por um delegado que desde o dia de sua posse, tenta minimizar as acusações contra o traidor de Dilma.

A PF tem um diretor geral fruto do golpe. Um diretor que vem demonstrando ter um conhecimento de causa que não deveria ter. Coisas que a PF só vai refletir quando se der conta de que houve mesmo um golpe no país e que sua contribuição para ele foi definitiva. Só vai entender, quando se der conta do significado de estar com seu reajuste salarial pendurado numa liminar judicial. Quando perceber a cara de jeton barato e provisório desse reajuste num “grande acordo nacional com o supremo e tudo”.

Sim, o diretor da PF fala demais. Entretanto, se juizecos, desembargadores e ministros do “Supremo” adiantam criminosamente votos e posicionamentos, o comandante daquela instituição se sentiu no direito de também dizer o que pensa. Está tudo em casa, ora bolas!

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
No GGN

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