9 de fev de 2018

Presunção de inocência

As constituições modernas surgiram na esteira das revoluções liberais do século 18 como expressão da vontade do povo soberano, veiculada por seus representantes nos parlamentos.

Desde então, revestiram-se da forma escrita para conferir rigidez aos seus comandos eis que foram concebidas como instrumentos para conter o poder absoluto dos governantes, inclusive dos magistrados.

Apesar de sua rigidez, logo se percebeu que as constituições não poderiam permanecer estáticas, pois tinham de adaptar-se à dinâmica das sociedades que pretendiam ordenar, sujeitas a permanente transformação. Se assim não fosse, seus dispositivos perderiam a eficácia, no todo ou em parte, ainda que vigorassem no papel.

Por esse motivo, passou-se a cogitar do fenômeno da mutação constitucional, que corresponde aos modos pelos quais as constituições podem sofrer alterações.

Resumem-se basicamente a dois: um formal, em que determinado preceito é modificado pelo legislador ou mediante interpretação judicial, e outro informal, no qual ele cai em desuso por não corresponder mais à realidade dos fatos.

Seja qual for a maneira como se dá a mutação do texto constitucional, este jamais poderá vulnerar os valores fundamentais que lhe dão sustentação.

A Constituição Federal de 1988 definiu tais barreiras, em seu art. 60, 4º, denominadas de cláusulas pétreas, a saber: a forma federativa de Estado; o voto direto, secreto, universal e periódico; a separação dos Poderes; e os direitos e garantias individuais.

A presunção de inocência integra a última dessas cláusulas, representando talvez a mais importante das salvaguardas do cidadão, considerado o congestionadíssimo e disfuncional sistema judiciário brasileiro, no bojo do qual tramitam atualmente cerca de 100 milhões de processos a cargo de pouco mais de 16 mil juízes, obrigados a cumprir metas de produtividade pelo Conselho Nacional de Justiça.

Salta aos olhos que em tal sistema o qual, de resto, convive com a intolerável existência de aproximadamente 700 mil presos, encarcerados em condições sub-humanas, dos quais 40% são provisórios multiplica-se exponencialmente a possibilidade do cometimento de erros judiciais por magistrados de primeira e segunda instâncias.

Daí a relevância da presunção de inocência, concebida pelos constituintes originários no art. 5º, LVII, da Constituição em vigor, com a seguinte dicção: ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença criminal condenatória, o que subentende decisão final dos tribunais superiores.

Afigura-se até compreensível que alguns magistrados queiram flexibilizar essa tradicional garantia para combater a corrupção endêmica que assola o país.

Nem sempre emprestam, todavia, a mesma ênfase a outros problemas igualmente graves, como o inadmissível crescimento da exclusão social, o lamentável avanço do desemprego, o inaceitável sucateamento da saúde pública e o deplorável esfacelamento da educação estatal, para citar apenas alguns exemplos.

Mesmo aos deputados e senadores é vedado, ainda que no exercício do poder constituinte derivado do qual são investidos, extinguir ou minimizar a presunção de inocência.

Com maior razão não é dado aos juízes fazê-lo por meio da estreita via da interpretação, pois esbarrariam nos intransponíveis obstáculos das cláusulas pétreas, verdadeiros pilares de nossas instituições democráticas.

Ricardo Lewandowski é professor titular de teoria do Estado da Faculdade de Direito da USPe  ministro do Supremo Tribunal Federal
No fAlha

4 comentários:

  1. Este SIM, é o MINISTRO do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, que eu gostaria de ter visto, ao presidir aquela "patacoada" { G O L P E } travestida de IMPEACHMENT...
    Ricardo Lewandowski é essencialmente um Garantista/Legalista... Ele Sabe exatamente, o que vêm acontecendo em nossa atual "Realidade Político/Social", e ISSO, intimamente, não lhe agrada...
    Se alguém, ali no STF, levantar o BRADO de "B A S T A", esse alguém será Lewandowski... seguido por Marco Aurélio de Mello... ...Vamos Ministro, FORÇA e CORAGEM...

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    1. Caro Roberto, e qual o porquê Lewandowski não barrou o processo de impeachment da presidenta Dilma? Era presidente do Supremo e presidiu a sessão no Senado. Com certeza sabia que não havia crime de responsabilidade. Omitiu-se. Rasgou sua biografia. Virou golpista. Marco Aurélio Mello já defendeu o golpe de 64 ao dizer que era necessário. O STF está podre!

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    2. Sim! Eu concordo contigo, o stf esta podre... Lewandowski Deveria Resguardar o Direito da Palavra Final (Discutir o MÉRITO da Questão) ao STF, e não o fez... errou/acovardou-se...
      Porem, em uma "manobra", por remorso talvez, Desmembrou o Julgamento de Dilma Rousseff, permitindo-lhe a Manutenção dos Direitos e Prerrogativas Políticas/Eleitorais...
      Eu acredito, e apenas isso, acredito, que: - Se, devidamente pressionado pelo "Povo", ao menos, até o ponto de anularmos as Pressões Midiáticas/Judiciárias/Legislativas francamente GOLPISTAS, deixando-o em situação de NEUTRALIDADE, talvez, Lewandowski possa dar Vazão á sua Índole Garantista/Legalista... o que poderia, eventualmente, despertar o "Espírito da Verdadeira JUSTIÇA" dentro D'aquela Casa... ...Mas, admito, é Esperança demais; Fé demais; DESESPERO demais...

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    3. Como em 64, o golpe vem de fora... são poucas as chances. Mas não se pode ficar calado. Resistência é tudo. Às ruas!

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