27 de fev de 2018

Por que a liderança do PT na preferência do eleitorado persiste?

O partido, que ainda encarna o ímpeto da superação da desigualdade, continua o mais popular entre as agremiações brasileiras

Ricardo Stuckert
O título de um artigo de um colega cientista político publicado na Folha de S. Paulo em 19 de fevereiro de 2018 é o seguinte: "Zuma caiu e o CNA ficou, Lula ficou, mas o PT caiu". Não comentarei o caso da África do Sul. Mas dizer que o PT caiu não bate com as informações mais recentes sobre preferência partidária no Brasil. O PT nunca deixou de liderar as pesquisas que mensuram essa informação. Por quê?

A partir de 1999, o PT passou a liderar as pesquisas de preferência partidária do Datafolha. Naquele ano, a legenda superou a liderança que o PMDB exercia desde 1989, quando esse instituto começou a realizá-las. Em 2002, quando Lula candidatou-se pela quarta vez consecutiva, o PT era preferido por 18% dos eleitores e o PMDB, por apenas 9%.

A preferência petista caiu entre 2013 e 2016, mas a oscilação negativa ocorreu, sobretudo, em 2015 e 2016. Em março de 2013, o PT era o preferido de 29% (Datafolha). Em junho de 2015, era citado por 11% , enquanto o PSDB atingia seu auge de 9%.

Em dezembro de 2016, ainda abatido, o PT era o preferido, embora com apenas 9%. Mas em 2017, a recuperação foi contínua, chegando a 21% em dezembro. Nessa sondagem, 57% disseram não ter nenhum partido preferido, 5% mencionaram o PMDB (MDB) e 5%, o PSDB.

Num país imerso em trajetória de decadência, no qual a crise de representação corrói a legitimidade do sistema político e onde a identificação partidária é baixa, com a grande maioria dos eleitores não possuindo preferência partidária, não é pouca coisa o PT absorver entre 20% e 25% das escolhas, sem esquecer que seu teto chegou a um terço no passado.

As pesquisas e o debate acadêmico sobre a identidade partidária e sua relação com o voto dos eleitores, com o comportamento eleitoral apresentam resultados e interpretações distintos. A condição relativamente nova do sistema partidário e seu multipartidarismo de intensa fragmentação dificultam a conformação de identidades partidárias no eleitorado.

Por outro lado, vários autores observam que, desde 1994, duas grandes referências partidárias foram se consolidando nas eleições presidenciais: de um lado, PSDB e seus aliados, de outro, PT e seus aliados. Grosso modo, essas duas legendas foram estruturando os campos da esquerda, centro e direita.

A coalizão PSDB-PFL-PTB, apresentada às eleições de 1994, depois engordada com a participação do PMDB na sustentação do governo Fernando Henrique Cardoso, foi qualificada como de centro-direita, ao passo que a coalizão do PT com o PMDB, costurada desde o segundo mandato de Lula constituiu a centro-esquerda.

Essas duas grandes estruturas de referência partidária, a despeito de algumas mudanças, ainda sobrevivem, especialmente para o PT enquanto agremiação de esquerda moderada, uma vez que o deslocamento do PMDB (hoje novamente MDB) para a direita neoliberal, que se viu forçada, após quatro vitórias consecutivas de presidentes petistas, a revisar suas relações com o Estado Democrático de Direito, torna o centro um tanto quanto desencorpado de organicidade.

Talvez o centro hoje seja a liderança pedetista de Ciro Gomes, de qualquer modo, bem menor em tamanho e representação política que o “centrão” multipartidário liderado pelo ex-deputado Eduardo Cunha, que melhor seria denominado pelo apelido “direitão”, dado o seu fisiologismo estrutural e estruturante das relações políticas.

Se for correta a hipótese de que o PT constitui uma das âncoras de referência do mecanismo de identificação partidária em curso nas eleições presidenciais desde a estabilização monetária orientada para o mercado, em 1994, então ela nos ajuda a compreender a resiliência dessa agremiação no imaginário popular.

Apesar dos pesares, inclusive da rejeição aos partidos e da crise de legitimidade do sistema político, os governos petistas implementaram mudanças que propiciaram, mesmo que com limitações, mobilidade social ascendente.

É aí que mora o antineoliberalismo, por mais que tenha havido conciliação de classes e programática nos governos petistas, que não chegou a romper com várias amarras na economia e na política. Ademais, em 2017, Lula fez as caravanas no Nordeste e Sudeste, o golpe foi mostrando a que veio, transformou ascensão social em retrocesso, o Congresso salvou Temer duas vezes, um escândalo (inter)nacional, os eleitores rejeitaram e ainda rejeitam as reformas contra as quais o PT lutou, inclusive organizando a greve geral de 28 de abril.

Por outro lado, o caráter seletivo do combate à corrupção pelas instituições jurídicas foi se explicitando, assim como a perseguição a Lula.

Para o PT cair, a não ser que fosse pela força bruta, seria necessário o partido perder organicidade no movimento sindical (um racha antipetista na CUT, por exemplo, para a esquerda ou para a direita), perder organicidade no MST, na CONTAG, na UNE, nos movimentos por igualdade racial e de gênero, nas pastorais católicas progressistas, nos movimentos populares por saúde, educação, moradia, contenção de barragens, juventude, livre orientação sexual etc.

E, perdendo essas e outras estruturas, principalmente as constituídas nos governos municipais e estaduais, assim como nos parlamentos das três unidades federativas, estaria, provavel e simultaneamente, caindo na preferência partidária e na contagem dos votos depositados nas urnas pelos eleitores.

Mas não é isso o que ocorre. Hoje Lula é imbatível nas próximas eleições presidenciais, conforme mostram todas as pesquisas de intenção de voto. O PT está vivo. Cometeu erros importantes e precisa repensar profundamente a sua atuação, suas bandeiras, suas alianças, renovar as suas lideranças, pois Lula não é imortal, e assim por diante, mas não é com palavras ao vento, lançadas pelos que gostariam de ver o partido banido da cena política, que ele desaparecerá.

Nem com toda a campanha de criminalização levada a cabo pelo aparato repressivo-jurídico-policial e pela mídia golpista o PT desaparece da consciência popular. Isso tem a ver com o fato de essa agremiação encarnar, como nenhuma outra no passado e no presente do País – seja na ação de seus militantes, na imaginação dos que o consideram como seu partido preferido ou na esperança dos eleitores que pretendem votar em Lula em 2018, enfim –, o ímpeto da vontade de superação da desigualdade pela nação secularmente oprimida.

Quem é maltratado pelo mercado depende mais da política como fator de correção das injustiças. Ou seja, a relação com a política não é exatamente a mesma para todos os grupos sociais, embora essa dinâmica possa variar conjunturalmente.

Concluo lembrando a célebre fórmula de Antonio Gramsci, composta por dois ingredientes: o pessimismo da razão e o otimismo da vontade. Melhor ainda seria que razão e vontade se casassem com o mesmo espírito realista presente na obra do clássico marxista italiano, para que as forças progressistas logrem equacionar os desafios da resistência democrática contra a onda conservadora que afoga a nação.

Marcus Ianoni é cientista político, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), realizou estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford e estuda as relações entre política e economia
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