25 de fev de 2018

Pirotecnia inútil

Existem certezas a respeito da próxima eleição presidencial, embora algumas não sejam definitivas. Reviravoltas sempre podem acontecer, pois nossas elites têm frouxo compromisso com as instituições e as regras do jogo. Elas nunca descartam a opção de virar a mesa, de maneira velada ou explícita, como fizeram tantas vezes no passado.

A primeira dessas certezas é que teremos eleição. É estranho, em um país que se apresenta como democrático, pôr em dúvida algo que deveria estar enraizado na cultura e nas práticas políticas, mas parece necessário. Depois do golpe que derrubou um governo legítimo e das invenções de motivos para impedir a candidatura da principal liderança popular de nossa história, abriu-se um tempo em que tudo passou a ser possível. Os senhores do poder mostram não ter limites.

Prezam, no entanto, as aparências e buscam revestir seus atos de força com um verniz "legalista". Contra Dilma Rousseff, fizeram gato e sapato do convívio democrático, mexendo os cordéis para que a escória do Congresso bloqueasse o Executivo e aprofundasse a crise econômica, mas encenaram com toda a pompa um ritual de impeachment. Contra Lula encorajam juízes e promotores a fazer política às escâncaras e a caçar adversários, apoiados em evidências fabricadas e provas que o bom Direito não aceita. Mas mantiveram o formalismo de um processo.

É esse legalismo de fachada que impede nossas elites de desnudar o golpe e, pura e simplesmente, cancelar as eleições de outubro. Há, em seu comportamento, um bacharelismo atávico, que venera a forma e ignora o conteúdo, o mesmo que levou o Congresso, em abril de 1964, a se reunir para "eleger" o marechal Castello Branco e referendar o golpe militar. Queriam a ditadura, mas desejavam que ela fosse "legal".

Nos dias de hoje, cancelar eleições é feio, está fora de moda. É prova de atraso, com o qual as nossas elites não gostariam de ser identificadas. Talvez apenas por isso teremos eleições.

A segunda certeza é que o PT concorrerá com uma candidatura própria e forte. Fortíssima com Lula, se houver bom senso nas instâncias superiores do Judiciário para colocar ordem na bagunça que permitiram até agora. Com outro nome, na hipótese contrária.

Não é surpreendente essa força. Cerca de 20°/o da população simpatiza com o partido, o que equivale a quase 75°/o das simpatias por qualquer um. Sozinha, a legenda tem quatro vezes mais apoio do que a soma das três agremiações que vêm a seguir.

Além de ser, de longe, o principal partido brasileiro, o PT tem o maior líder político da atualidade, que a maioria considera o melhor presidente que tivemos. Seria despropositado que uma legenda com esse cabedal fosse buscar candidato ou candidata fora de seus quadros.

Na mais recente pesquisa do Datafolha, 27°/o dos entrevistados disseram que votariam "com certeza" em quem Lula indicasse, independentemente de saber quem seria o escolhido. Esse indicador colocaria esse nome em primeiro lugar, caso Lula não disputasse, bem à frente do segundo colocado.

Ou seja, com Lula o PT estaria com folgada dianteira. Sem ele também, ainda que a vantagem fosse menor.

A terceira certeza é que a extrema-direita terá um candidato e, embora mais fraco que o PT, também será forte. De novo, nada de surpreendente: a extrema-direita cresceu no mundo inteiro nos últimos anos e, no Brasil, engordou com a raivosa campanha antipetista patrocinada pelas elites. Jair Bolsonaro está mais perto do segundo turno do que qualquer nome que hoje pensem promover.

A quarta certeza diz respeito a Michel Temer: ele e seu governo não se farão representar na eleição por meio de uma candidatura viável. Podem torrar o dinheiro dos contribuintes em campanhas publicitárias e fazer estardalhaço com pirotecnias, como a intervenção federal no Rio de Janeiro, mas são carta fora do baralho.

Temer e sua turma parecem acreditar que o povo é igual aos ratos de laboratório e têm a memória dos peixes de aquário. Que suas opiniões e comportamentos são tão volúveis que mudam ao sabor de capas compradas de revistas. Que imagens novas apagam as velhas: o assessor a correr pelas ruas de São Paulo com a mala de dinheiro é esquecido e no lugar entra a foto de um general.

Uma última certeza: Luciano Huck não será mesmo candidato, por mais que Fernando Henrique Cardoso deseje. Não porque "a Globo não deixa", mas pela anemia eleitoral que as pesquisas apontam. Estivesse hoje com 20% ou 30% das intenções de voto, seria candidatíssimo, com, aliás, o apoio entusiasmado dos patrões. Ao ver-se com modestos 8% em um cenário sem Lula, preferiu ir tratar de outros assuntos.

Marcos Coimbra
No CartaCapital

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