24 de fev de 2018

O “jornalismo profissional” debate suas regras, para não mudar as práticas

Manuais de redação e seminários empresariais de jornalismo servem para polir a autoimagem que o oligopólio da mídia cultua e para transmitir aos cidadãos a ideia de que o jornalismo seria um inesgotável poço de virtudes, se praticado como as grandes empresas do ramo recomendam - e não praticam.



Manuais de redação e seminários empresariais de jornalismo contribuem pouco para aprimorar as práticas da atividade, mas têm outras utilidades indiscutíveis.

Servem para polir a autoimagem que o oligopólio da mídia cultua e para transmitir aos cidadãos a ideia de que o jornalismo seria um inesgotável poço de virtudes, se praticado como as grandes empresas do ramo recomendam – e não praticam.

Servem também para que fontes e personagens do noticiário exercitem o beija-mão aos senhores da mídia, sempre tutores do poder no Brasil, dizendo o que eles gostariam de ouvir, ou fazendo críticas pontuais a que eles não darão ouvido.

Nestes dias, a Folha de S.Paulo lançou a nova edição de seu manual de redação, apresentando seus caprichados verbetes como “uma referência atualizada para se guiar nestes tempos de turbulência”.

Para promover o texto e a si mesmo, na celebração de seus 97 anos como oráculo das elites, o jornal realizou o 2º Encontro Folha de Jornalismo, convidando os áulicos de sempre, as fontes de estimação, e um ou outro “neutro”, sem nenhuma voz realmente destoante entre eles.

Um debate de jornalismo tão unilateral e distante de uma crítica radical quanto o jornalismo que ele exaltou.

Ainda assim, a patuléia foi agraciada com algumas considerações interessantes, tanto pelo conteúdo quanto por virem de quem vieram.

William Waack, banido da Globo por racismo, definiu-se como “um libertário”, “a favor do bom senso”, e se disse contrário a regulações do exercício jornalístico, defendendo “que cada um arque com a sua responsabilidade”.

Gilmar Mendes apontou que “as autoridades enfeixam-se de poderes e fazem vazamento seletivo”, e revelou que o ex-procurador-geral Rodrigo Janot “tinha 11 jornalistas para vazar informações”.

O ministro supremo opinou que “a manipulação disso causa danos graves” e que “a relação da fonte com o jornalista está pervertida”.

O publicitário Nizan Guanaes sustentou que o consumidor de informações é plenamente capaz de separar o conteúdo editorial da publicidade.

Não foi por isso, certamente, que ele incentivou Michel Temer a implantar a sua pauta de governo reacionária, já que ela é noticiada na imprensa como grande avanço econômico e social, sem que isso soe aos patos como a propaganda política que é.

O âncora da Bandeirantes Ricardo Boechat reconheceu que a baixa qualidade de boa parte da produção jornalística atual contribui mais para minar a credibilidade da imprensa do que a proliferação de notícias falsas nas redes sociais.

“O problema está nas ‘fuck news’, o monte de merda que os jornais publicam todos os dias”, disse ele – sem incluir o rádio e a TV na crítica por desnecessário, já que pouco fazem além de ecoar o que os jornais publicam todos os dias.

Mas foi Ciro Gomes, o candidato presidencial do PDT e suposta alternativa da esquerda para a ausência de Lula no pleito, quem ofereceu a cereja do bolo.

Ele repetiu o mantra clássico da direita de que “a melhor forma de regulação da mídia é o controle remoto”, e que “não precisa o governo regular”.

A mesma estupidez endossada por Dilma quando presidente e que lhe custou a derrubada do cargo, depois da infame campanha midiática em que foi acusada de crime que não cometeu.

Efemérides jornalísticas em geral produzem eventos celebratórios como esse, que se esmeram em ocultar o cinismo estrutural da mídia, sob uma capa de críticas anódinas.

O “jornalismo profissional” faz manual, faz seminário, debate – mas mudar, que é bom, não muda.

Gabriel Priolli

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