28 de fev de 2018

O fim do ciclo do jornalismo de esgoto


No dia 10 de novembro passado, nos desdobramentos do caso William Waack, publiquei o artigo “A defesa do mercado de ódio no caso Waack”.

Nele analisava o que intuía como uma mudança no mercado jornalístico, e um esvaziamento do estilo jornalismo de ódio, que havia marcado a imprensa nos últimos dez anos.

Dizia, então:

Nos últimos anos, abriu-se um mercado de trabalho novo, no segmento do chamado jornalismo de esgoto, do ódio vociferante que acabou contribuindo para a desmoralização da grande mídia.  Até então, era restrito a jornais menores.

Muitos jornalistas veteranos ou desconhecidos mergulharam nessas ondas turvas, de cronistas musicais diáfanos a pessoas com passado jornalístico respeitável, mas que tinham se colocado fora do mercado.

O esgoto saiu dos guetos e entrou em algumas publicações consideradas de primeira linha, disseminando-se, pelo efeito demonstração, por veículos menores.

A grande onda foi estimulada por dois dos veículos mais influentes, Veja e Globo, aqueles que – com exceção da Folha no pós-redemocratização – sempre comandaram as mudanças de vento, no mercado de opinião. Os demais tendem a segui-los.

Agora, a onda está refluindo no jornalismo de 1ª classe.

E identificava essas mudanças justamente nas Organizações Globo:

A próxima reforma das Organizações Globo também deixa claro o desembarque desse modelo de jornalismo, a começar das mudanças anunciadas na revista Época – que pretendeu seguir os caminhos da Veja.

As razões eram claras para mim:

Há uma questão de qualidade do leitor. O tropel dos ignaros acabou expulsando dos veículos os leitores de melhor formação. Agora que as redes sociais invadem todos os poros da sociedade, a única maneira da imprensa tradicional se diferenciar é tentando recuperar um mínimo de seletividade do público leitor. Afinal, se seu público tem preconceito a pobre, mas também às bestas vociferantes.

Finalmente, o vagido dos últimos representantes desse modelo:

A explosão de solidariedade a Waack, por parte de representantes desse estilo, em parte é por solidariedade ideológica. Mais ainda, por pânico com o fim de um modelo que, por mais de uma década, trouxe à tona todos os dejetos acumulados pela mídia.

A cada dia que passa consolida-se essa convicção.

O Globo trouxe duas jornalistas para dirigir a unificação de suas redações: Ruth de Aquino e Daniela Pinheiro. Ruth passou pelo jornal O Dia, na fase em que este tentou peitar o jornal O Globo. Quem conhece acha que o desafio que lhe foi colocado é maior do que sua experiência.

Já Daniela Pinheiro representa uma espécie de arejamento do ambiente jornalístico carioca com a cultura Revista Piauí, sintetizando o perfil do novo personagem político, que já descrevi algumas vezes: liberal nos costumes, amante da boa MPB, conservador na economia, equidistante da polarização de ódio que tomou conta do jornalismo e das redes sociais.

A mudança do perfil dos colunistas é prova clara desse jogo. Sai Guilherme Fiúza, um colunista talentoso, mas que enveredou pelo jornalismo do ódio, entra Bernardo Mello Franco – um dos poucos colunistas da página 2 da Folha que conseguia equidistância dos fatos - e a volta de Joaquim Ferreira dos Santos para a coluna Gente Boa.

Será interessante acompanhar o aggiornamento dos jornalistas – muitos vindos da área cultural – que tentaram ocupar o mercado de ódio visceral, como os sub-Arnaldo Jabor, e os sub-sub-Arnaldo Jabor. Agora que o mercado não demanda mais vômito e esgoto, voltarão a comer com talheres, a escrever sobre seu campo de conhecimento, e se comportar como liberais ingleses, ao invés de monofásicos de Miami.

O jornalismo de ódio ficará, agora, restrito ao portal da Veja, por falta de comando da direção, à Jovem Pan e à IstoÉ.

Luís Nassif
No GGN

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